......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



O CRONISTA DO ABSURDO

07.05.2007
Contra os corcéis de Hipólito

[0] São corcéis. Irascíveis. Que pespegam furibundos coices em nossas portas medievas. Portas intransponíveis para esses eqüinos plutocráticos alimentados no ódio por fidalgos decadentes, que ainda nos querem hipotácticos.

[A] Lá fora a urbe devastada. O pavimento de estrume. A era das heras pelas paredes. Líquens e limo no concreto. A decadência orgânica do mundo. Beats & bits mixados aos ritmos neuroniais. Gerando convulsões e crimes hediondos na infovia e nas vias expressas. A carne devorando a carne. Silício e papel-moeda devorando existências.

[2] Porta adentro de nossa insalubre morada, nós: uma catrefa emudecida pelo crupe, ouvindo os relinchos dos corcéis e o som de cascos pelas vielas violentadas pelo lixo reciclável e pelo lixo orgânico e pelo mênstruo mefítico das prostitutas d'O Globo, O Grande Mercado.

[C] A hipomancia não esclarecerá: quanto tempo ainda sufocaremos aqui?

[4] O cruor lacra a correspondência enfiada por sob a nossa porta. Novos vírus e/ou bactérias enviadas pelo Senhorio para nos intimidar. O envelope então aberto. E o que nos exigem: "Duas crianças para a jornada de dezoito horas nos sinaleiros e três delas para a refeição dos corcéis. E mais dois adultos corcundas para horários de produção intensa os mais flexíveis". Um a um nos encaramos. Mais sacrifícios? Jamais. Ao inferno o Senhorio. Que continue a enviar seus eqüinos. Esses que pespegam furibundos coices em nossas portas medievas. Nossa resposta [desde há muito] é: negativa. Se não temos voz, temos verbo. Escrito. Lacramos um envelope com a gosma diarréica de nossos fedelhos e o vomitamos por debaixo da porta junto a escarros de crupe. O recado dentro. "Enfiem o rabo entre as pernas e levem a nossa negativa ao senhor de vocês". Hipólito, o nome dele - senhor-eqüídeo de fidalgos decadentes.

[E] A socioeugenia planejou nos extinguir. Contudo, passamos [mesmo assim, inaptos] pela seleção. [Apesar de que os testes quase nunca indicam os mais aptos - laços de sangue e nepotismo interferem, nesse caso - que não é o nosso]. E restamos, assim, infectos. E considerados eternamente ineptos pelos senhores plutocráticos. Restamos, pois, bestializados pela socioeugenia falha. Trancafiados aqui. Nos protegendo em nossa casa-húmus das investidas dos exterminadores antes apenas animais [quase como nós] a seguir as leis naturais da cadeia alimentar; agora, soberanos. Soberanos cavalos musculosos de mentalidade-muar, sob a pata pesada e rija de Hipólito, o entronado. Hipólito, senhor da governabilidade anacrônica e da modernidade tardia. Senhor d'extensos latifúndios [sesmarias ganhas num tempo distante que ditam agora um inquestionável Direito à Propriedade Privada]. E senhor de corporações gigantes de engrenagens famintas vindas de todos os lados do globo para as quais estávamos condenados. Restamos, pois, pele-osso, encarcerados no inferno dessa morada. Estreita. Em que dormimos em pé. Dessa morada-estábulo doente. Exaurida-quase. Pele-osso de concreto e portas de ferro, mas sobretudo resistente às investidas eqüinas dos senhores de um tempo-sangue de hemácias de silício e leucócitos de papel moeda.

[6] Fechados aqui, carcomidos pelo crupe, resistiremos até a última fração de tempo. Sabendo que nesse tempo já, os irascíveis corcéis terão desenvolvido asas mecanizadas como os portões eletrônicos de Dite. Asas que além de asas serão lâminas de laser a decepar/queimar com veemência o telhado e as paredes de nossa exaurida morada. Porém, confiamos na ossatura de nossa casa e na sua pele que nesse tempo, cremos, já será dura, tão dura e intransponível ainda mais. Tão dura quanto as escamas de um Dragão faminto por carne de cavalos com mentes-muares. Carne feito a desses furibundos cavalos de Hipólito.

[G] E faminto também estará o Dragão pelo trono de Hipólito - esse soberano eqüídeo que desconfiaremos possuir asas de águia e dentes de porco e olhos de cão e unhas de rato. E que portanto já será outro. E então desconhecido ainda mais.

[8] Nossa morada também terá de ser outra. Feita de materiais os mais diversos para nos proteger das investidas do Poder Híbrido de Hipólito. Esse que já não terá Nome por não possuir mais um rosto fixo.

Ilustração: Táia Rocha
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> Paulo Sandrini, segundo o próprio: é cria do interior paulista, mais especificamente de Bauru, onde desenvolveu sua ossatura, musculatura (parca) e altura, mas veio à luz em Vera Cruz. Sobrevive em Curitiba desde 1994 como designer gráfico. É mestrando em Estudos Literários pela UFPR. Autor dos livros de contos Vai Ter que Engolir! e O Estranho Hábito de Dormir em Pé, e dos inéditos Códice d'Incríveis Objetos (contos) e Peixes Coloridos de Alto-Mar (romance). Faz parte dos conselhos editoriais da revista Et Cetera literatura & arte e do site de literatura www.cronopios.com.br. É um dos editores da microeditora Kafka edições baratas. Contato: paulosandrini@terra.com.br.


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