......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS



CRÔNICAS POSSÍVEIS

25.08.2008
A caixa de sonhos

Eu cheguei em casa tarde como sempre, o espírito cheio de conhaque, os dedos carregando o mesmo cigarro de ontem. O silêncio gritou à minha chegada: sente saudades de mim.

Ao lado da cama uma caixa, embaixo da caixa o seu bilhete.

Esta é a caixa dos sonhos. Estou aí dentro, à sua espera.

Eu suspiro, olho pela janela: uma paisagem de sombras, mesmo durante o dia é essa escuridão. Qualquer hora de qualquer dia, escuridão. A minha escuridão.

Ligo a TV, que fala numa língua que não consigo entender. Ouço, mas não entendo. Somos estranhos educados: suportamo-nos.

Vou para a cama de roupa e tudo, os sapatos apontados para o teto. Nenhum sentido nisso, eu sei, mas de outra maneira seria a mesma coisa. Não tenho testemunhas aqui, pouco importa o que eu faça, a maneira como durmo, de sapatos ou não. Mesmo pela manhã, quando corto o pão em duas fatias, eu rio: dividir o pão, sim, mas para quem?

A caixa. A caixa dos sonhos. Sonhos de quem? Mas ela está lá dentro, à minha espera. Saio da cama.

Da caixa tiro um par de meias, um frasco de perfume, uma foto amarelada. Na foto estamos felizes, o mar ao fundo, um dia de sol como há muito não vejo.

Vou até o banheiro olhar a minha cara no espelho. Não sou mais o rapaz da foto faz tempo. A minha cara também ela amarelada.

Abro a porta e volto pra noite, a luz do cigarro guiando meus passos. A caixa não me trouxe sonho algum, só lembranças. A caixa não me trouxe você.

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> Cláudio Parreira não nasceu em 1983 como todo mundo supõe. Um pouco antes, talvez. Ou depois — tanto faz. Formado na Escola de Altos Estudos Baixíssimos da cidade de Birigui-Mirim, interior central de Mato Grosso D’Oeste, é também Doutor Honoris Causa Própria — título gentilmente concedido pela Faculdade de História Desconexa da Bavária. Fala fluentemente uma língua e meia, mas tem especial predileção pelo javanês, saboroso idioma introduzido nestas plagas pelo saudoso Lima Barreto. Atualmente o cara se vira como pode. Os contos publicados aqui são um belo exemplo do que é capaz o gênio. Seu endereço na Internet é http://www.blogppc.blogger.com.br – mas, como se recusa a pagar aluguel, pode ser despejado a qualquer momento.


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