Vocês sabem: além de copeiro, também sempre fui uma espécie de conselheiro informal do governo, mesmo que o governo nunca tenha tomado conhecimento disso. Assim foi com os presidentes anteriores - e agora com esse aí, que pasta mais que um jegue.
Mas pasta porque é besta, eu digo. Tivesse me ouvido desde o início, não estaria aí no ora veja. Mas acho, estou cada vez mais convencido disso, que o que falta aos governos é exatamente ouvidos de ouvir. Todos os governos têm muitas bocas e membros e palavras sem fim, mas falta a todos ouvidos - e cotonetes também, porque orelhas entupidas atrapalham e muito a audição.
Eu ouço desde sempre. Aliás, é isso o que mais faço por aqui, além de servir águas e cafezes e et ceteras nesses gabinetes refrigerados sem fim. Ouço cada uma que vou te contar! Uma vez, por exemplo, ouvi, assim, digamos, sem querer, uma declaração de amor feita por um ministro. Daí vocês podem até dizer ó, que lindo, uma coisa romântica vinda de um Ministério! Sim, nada de mais a princípio, uma prova evidente de que existe vida até nos Ministérios - mas o ministro declarava seu ardente amor pelo Fláusio, o sub-chefe do almoxarifado aqui do Planalto. Nada contra a viadagem, digo, homossexualidade, pra ser politicamente correto, nada contra - mas desde que seja bem longe de mim. Ainda mais porque o Fláusio é tido como macho lá em Pernambuco - ou era, vai saber.
Mas esse tipo de coisa, diante do atual estado de coisas que assolam o Estado, é nada, não significa nada. A vida pornográfica dos membros (ops!) do governo não altera em nada a condução do governo. Tá certo que a gente tá cansado de ouvir por aí que o governo só fode a gente, mas isso, minha gente, é em sentido figurado. Ou não, dependendo do caso, mas isso é outra história.
O que eu quero dizer mesmo é o seguinte: tivesse me ouvido, o presidente não estaria agora tendo pesadelos com Santos Dumont. Desde antes da crise aérea eu falava: presidente, se liga aí. Os controladores estão voando do seu alcance, estão todos com a cabeça nas nuvens. O presidente me ouviu? Não. Se lascou todo. Ainda tá se lascando. Mais que ele só mesmo os passageiros, que a cada fim de semana só desejam mesmo é voar no pescoço dos responsáveis pela bagunça. Pensei até em oferecer ao Lula uma caixinha de cotonetes, dessas compradas a R$ 1,99, mas isso poderia ser interpretado por ele como ousadia da minha parte - e eu, meus amigos, sou qualquer coisa menos ousado. Sei qual é o meu lugar aqui no Planalto; um copeiro da minha estatura, aqui, mesmo que fale, não fala. Mesmo que ouça, não ouve. Sou discreto, graças a Deus!
Mesmo assim, discretamente, alertei o presidente diversas outras vezes sobre a condução das coisas do governo. Fui ouvido? Nada! E taí a porcaria instalada feito cocô de pobre em banheiro público.
***
Dia desses, conversando com a dona Zefa, eu me queixei da surdez governamental:
- Pois lá ninguém ouve o que eu digo, Zefa! E olha que eu falo de tudo um pouco, economia, política e et cetera, mas parece que ninguém dá bola.
Zefa, com extrema clareza:
- Não te ouvem porque você é o povo, Ninguém! Já viu governo ouvir o povo? Ouve nada! O governo ouve apenas o que lhe é conveniente - e não há nada mais inconveniente que o povo...
Peguei a minha bandeja, café e água e uma dosinha de cachaça de alambique e fui para o gabinete do presidente. As palavras de Zefa ecoando na minha cachola. As idéias remoendo. Filosoficamente falando, de maneira aristotélica, e aplicando a fenomenologia do nordeste, inconveniente, apesar de tudo, pode até se tornar algo produtivo. Compreenderam o meu raciocínio?
Explico: não tem coisa mais inconveniente do que pernilongo. Bicho desgraçado que fica zumzumbizando no ouvido da gente. Quando não pica a nossa bunda. Nesses casos, o que é que a gente faz? Toca inseticida nele (isso aqui em Brasília, na cidade, que as coisas são mais chiques. Lá no sertão da Paraíba a gente matava pernilongo na unha mesmo, ou na chinelada. Gente pobre não tem dessas sutilezas de supermercado). Pois então: o inconveniente, por mais inconveniente que seja, nos coloca em movimento, exige de nós uma ação. Seja ela qual for, mas ação. Sejamos nós, portanto, o pernilongo do governo! Pernilongo unido jamais será vencido!, como se dizia antigamente. Exigir do governo uma ação, essa é a idéia. O povo inconveniente picando a bunda do governo!
Pensei isso no exato momento em que o presidente abria a porta do gabinete. Eu, aliás, já ia passando direto. Quando a filosofia se apodera do meu espírito, eu esqueço até mesmo dos afazeres.
- Entra, Ninguém - falou o Lula.
Eu obedeci, que não sou besta. Mas o pernilongo filosófico zumbindo na minha cabeça.
- Café, água? - perguntei.
- A cachacinha aí é de primeira?
Servi o homem, como manda o protocolo e o figurino. Ele ficou lá, tomando golinho e golinho com a mão direita; com a esquerda, soltando aviõezinhos de papel pelo gabinete.
- Sabe o que significa isso, Ninguém? - ele perguntou.
Pensei em chamar o presidente de moleque, onde já se viu, o país um caos só e ele aí brincando de aviãozinho. O momento exigia uma frase à altura das circunstâncias:
- Significa que só mesmo o senhor é capaz de fazer aviões voarem neste país, Excelência!
O presidente, percebi, estufou o peito, orgulhoso. Pudesse, levantaria vôo ali mesmo feito um balão de gás.
- Por falar nisso, presidente - eu falei -, se o senhor me permite, tenho cá algumas idéias muito boas para o senhor.
Ele me olhou, tomou mais um gole da cachacinha, e se sentou.
- Falaí - ele disse.
A filosofia do pernilongo! Sim, aquele era o momento. Cabia a mim sacudir um pouco as coisas do governo, plantar a inquietude na alma do presidente. Já podia até ver o meu nome nos jornais: "Zé Ninguém derrota o caos aéreo com a inovadora Filosofia do Pernilongo!"
- Fala logo, Ninguém, que eu não tenho o dia inteiro! - reclamou o presidente.
- O negócio é o seguinte: imagine Vossa Excelência um grande, enorme pernilongo lhe zoando os ouvidos.
- Imaginei.
- Imagine que o dito inseto lhe pica a esquerda, a direita, pica o centro-esquerda e demais partes não publicáveis aqui. Qual seria a sua reação?
O presidente pensou, pensou, pensou. Certamente elaborava uma resposta das boas. Mas o que veio foi isso:
- Olha, Ninguém, eu não faria nada. Os pernilongos, sinceramente, não me incomodam nem um pouco...
Os pernilongos não incomodam. Isso explica muita coisa. Saí do gabinete no mesmo instante, extremamente decepcionado. E finalmente convencido: se a Justiça, como dizem, é cega, o governo acabou de provar que é completamente surdo.