
31.10.2006
"PSICOPATA VONTADE" EM DEFESA DO XINGU
Entrevista com Dom Erwin Kräutler, Bispo do Xingu, que vem sofrendo ameaças de morte em cartas anônimas

"O Bispo da Prelazia do Xingu, Dom Erwim Krautler deve ter a PSICOPATA VONTADE de ser sacrificado, de ser reconhecido pelo mundo como um Super Herói". Esta é a primeira frase da carta que contém ameaças ao Bispo do Xingu, intitulada "Que vontade de ser um mártir".
Outros trechos sugerem que os maiores descontentes com a atuação de Dom Erwim estão envolvidos no consórcio para a construção da Hidrelétrica de Belo Monte. De acordo com Toninho Ribeiro, da Comissão Pastoral da Terra em Altamira (PA), Nicias Ribeiro (PSDB), candidato a deputado federal derrotado, é um dos defensores do consórcio e incentivador do "linhão" (que conduz energia elétrica de Tucuruí para o Oeste do Paraná).
Toninho também acredita que o irmão do vice-prefeito de Altamira, Délio Fernandes, esteja envolvido nas ameaças contra o Bispo. Délio é um dos acusados de ter articulado o assassinato da Irmã Dorothy Stang e pertence a um grupo que continua atuando em defesa dos madeireiros, grileiros de terras públicas e empresários da região de Altamira.
Leia abaixo a entrevista concedida por correio eletrônico ao fazendomedia.com por Dom Erwin Kräutler, Bispo da Prelazia do Xingu.
Como o senhor veio para o Brasil? Por que a escolha pelo Xingu?
O Xingu faz parte da história da minha família. Dois tios meus, irmãos da minha mãe, chegaram em Porto de Moz, Pará, no ano de 1934 como missionários. Um era o Padre Eurico, naquele tempo com 28 anos, outro o Irmão Guilherme, com 19 anos de idade. Guilherme (Willy) veio acompanhar seu irmão Padre, mas após alguns anos queria voltar à sua terra natal, a Áustria. Mas estourou a terrível Segunda Guerra Mundial e assim não se podia mais pensar em fazer uma viagem intercontinental. Além do mais, a Áustria deixou de existir. Foi anexada à Alemanha nazista.Tio Willy foi para o sul, para Santa Catarina. Tio Eurico ficou no Xingu e de vez em quando escrevia uma carta para os seus familiares na Áustria. As cartas circularam entre os parentes. Assim, eu conheci o Xingu, sua gente e seus encantos já como menino. Em casa se rezava pelo tio que mora no Xingu. Tio Eurico voltou pela primeira vez para a Europa em 1948. Lembro-me perfeitamente que mesmo menino de apenas nove anos tive a permissão de assistir, de noite, a uma palestra do tio com slides. Vi pela primeira vez slides dos Índios Kayapó. Os anos passaram. Fiz meus estudos primários e de Ensino Médio e aos 19 anos decidi entrar na Congregação dos Missionários do Sangue de Cristo. Fiz o noviciado em Schellenberg, principado de Liechtenstein. Depois matriculei-me na Universidade de Salzburgo na Áustria e estudei Filosofia concluindo estes estudos com o Licenciado. Depois estudei Teologia e ordenei-me Padre em 3 de julho de 1965. Durante os meus estudos universitários o Xingu continuou como tema e assunto de muito interesse. Corrigi alguns textos de meu tio que depois de tantos anos no exterior não dominava mais muito bem sua língua materna. Assim tive acesso a muitas informações e à problemática do Xingu. Mas a idéia de também transferir-me ao Xingu ficou em segundo plano. Estava mais preocupado com meus estudos que não me deram tempo de fazer grandes projetos. Meus superiores de então queriam que fizesse especialização em filologia antiga (Grego e Latim) para tornar-me professor num grande Colégio na Alemanha. Aí já comecei a questionar-me se era essa a razão de ter optado pelo sacerdócio para ensinar grego e latim, por mais que gostasse dessas línguas que até hoje domino. Um amigo meu partiu no início do ano 1965 para o Brasil e para mim chegou a hora de tomar uma decisão. Onde irei exercer meu ministério de Padre? Naquele tempo existiam ainda na Europa sacerdotes em número mais do que suficiente para atender o Povo. Assim, lembrando-me de meu velho sonho de criança, fui com meu provincial e manifestei-lhe a vontade de partir para o Xingu. Ele simplesmente respondeu: "Devemos enviar nossos jovens Padres para os lugares mais necessitados e o Xingu é um deles! Da minha parte, está liberado. Pode ir!" Passei, depois da minha ordenação sacerdotal só alguns meses ainda na Europa. Despedi-me da família no dia 2 de novembro de 1965, aniversário de meu pai. No dia 4 de novembro embarquei em Hamburgo num cargueiro da Norddeutsche Lloyd, de nome "Emsstein". Finquei os meus pés em solo brasileiro pela primeira vez em 18 de novembro de 1965, às 4 horas da tarde, em São Luís do Maranhão. A décima hora do Evangelho de São João: "Disse-lhes (Jesus): "Vinde e vede." Eles foram e viram onde morava e permaneceram com ele, aquele dia. Era a hora décima, aproximadamente" (Jo 1,39). A viagem continuou após deixar e pegar carga em São Luís. Cheguei em Belém do Pará à meia noite entre o dia 24 e 25 de novembro de 1965. Em 21 de dezembro do mesmo ano fiz minha primeira viagem de avião de Belém a Altamira, num DC-3 da finada "Cruzeiro". Chamou-se esse tipo de avião de "trator do ar", de tão robusto que era e a razão de dar ao avião essa sigla, explicava-se da seguinte forma: "Sobem dezoito passageiros e 'descem' três, por isso DC-3!" Em todo caso, cheguei muito bem em Altamira e estou no Xingu até hoje.
O senhor mora há 40 anos no Xingu. O que há de melhor nessa região? Quais são as principais dificuldades desse povo?
O vale do Xingu é uma região abençoada! Há vastas "manchas" de terra roxa muito férteis que servem para culturas permanentes de Cacau, Pimenta, Café, Cana-de-Açúcar. Infelizmente quase todo mundo optou pela pecuária. Eu sustento a opinião de que a Amazônia não tem vocação para a pecuária, com exceção das regiões de várzea com seus imensos campos naturais. No meu modo de entender, derrubar a selva milenar e substituí-la por pastagens é um crime. Em poucos anos a terra está completamente deteriorada e não serve mais para nada. Vira estepe e é abandonada. O mesmo vai acontecer se for implantada a soja na Amazônia. Vai ser um desastre ecológico de dimensões inimagináveis. O que se precisa com urgência é implementar um "desenvolvimento sustentável" em todos os sentidos. Não se pode impunemente derrubar todas as árvores de madeira de lei, sem plantar um pé de mogno ou de outra espécie valiosa. As derrubadas e queimadas em grande escala causam um tremendo impacto à natureza que vai reagir, ou já está reagindo. O povo, em sua imensa maioria, vem de fora. Os paraenses "legítimos" constituem hoje no Xingu uma pequena minoria. Há todo o Brasil representado ao longo da Transamazônica e na parte sul da diocese. No caso da rodovia Transamazônica, o povo foi trazido e assentado pelo INCRA. A faixa principal da Transamazônica até hoje não está asfaltada, virando, na estação das chuvas, um imenso lamaçal com inúmeros atoleiros e, no verão, um perigo constante para os que trafegam por causa das espessas nuvens de poeira que infestam a região. As vicinais, é óbvio, estão ainda em pior estado de conservação. É esta realidade de abandono que leva o povo às vezes à beira do desespero. Que adianta dispor de duzentas sacas de arroz se não tem condições de escoamento? Carregar o legume até 100 km no lombo do animal é impensável. Aí que vem a grande pergunta. Por que se abandona o povo desta maneira? Esse povo é menos brasileiro do que o povo do Sul e do Sudeste? Até no Nordeste há estradas federais e estaduais asfaltadas e bem conservadas. No Pará o povo está entregue à própria sorte. Que adianta gritar que o Pará é o estado mais rico em recursos naturais, se o povo está indo de mal a pior? O lucro das transações e da exploração das riquezas naturais desaparece no bolso de uma minoria privilegiada que quer ditar as regras para o presente e o futuro a fim de manter-se no status. São uns saqueadores inescrupulosos que exploram as riquezas do solo e subsolo na clandestinidade, até na calada da noite, são uns fora-da-lei que não pagam impostos e se negam a assinar a carteira profissional de seus empregados e ainda tufam o peito e enchem a boca anunciando que estão trazendo o "progresso" para a região! Deveriam ter seu CNPJ e alvará de funcionamento cancelados e ser criminalmente responsabilizados pelos delitos fiscais e trabalhistas que cometem.
Sobre as ameaças que o senhor vem recebendo, de que natureza elas são? Quem são essas pessoas que o ameaçam? Em sua opinião, por que elas fazem isso?
Colocar-se do lado dos menos favorecidos, defender os legítimos direitos indígenas e dos povos ribeirinhos, dos pequenos agricultores e suas famílias, denunciar a grilagem e invasão de terras e a pilhagem, o saque inescrupuloso das riquezas naturais da Amazônia mexe com os interesses e ambições de fazendeiros, sojeiros, mineradores, madeireiros e barrageiros. Também provoca reações irracionais da parte dos que querem apoderar-se de vastas regiões e derrubar a mata virgem sem dó e piedade. A situação se torna ainda pior porque estes homens loucos por lucros imediatos contam com o apoio de políticos, do mesmo jeito irresponsáveis, que repetem há décadas chavões e slogans, tais como "Tanta terra para poucos índios!" ou "Só o agro-negócio em grande escala dá lucro!" ou então "Só Belo-Monte evita o apagão!" ou ainda "Belo-Monte é a salvação da região do Xingu!" Todos eles só sabem responder a nossas preocupações e a defesa dos legítimos interesses dos povos da Amazônia com difamações e ameaças. Nossa posição a favor dos menos favorecidos e do meio-ambiente já nos torna aos olhos deles inimigos do "desenvolvimento". O simples fato de sermos contra a destruição e pilhagem nos coloca na mira dos saqueadores e exploradores inescrupulosos.
De que maneira o poder político, associado ao poder econômico, atua nessa região? Quais são seus maiores efeitos?
Os políticos, com raras exceções (graças a Deus, ainda há exceções!), representam a classe dos financeiramente poderosos que ditam as regras e custeiam suas campanhas. As campanhas são caríssimas e uma vez eleitos, os deputados e senadores não vão tirar de seu próprio bolso o que falta pagar ou o que investiram na campanha. Aí começam as maracutaias e arranjos espúrios de que qualquer brasileiro ou brasileira que tem vergonha na cara fica com raiva. Político por estas bandas (mais uma vez com raras e honrosas exceções!) não conhece os anseios do povo simples e ignora os direitos indígenas, inscritos, inclusive, na própria Constituição Federal. Defende muitas vezes os ilegais. É o que dá mais resultado para ele e seus negócios. Conhece muito bem os palanques, mas não se presta para ouvir o grito desesperado do povo que está na miséria. Lutamos para conscientizar o povo para não votar mais em quem não defende os interesses do povo, mas parece-me que esse nossa luta custa a ter os resultados almejados.