......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com


29.08.2006
CANAL DO CORTADO RESISTE HÁ SEIS DIAS
Prefeitura do Rio tenta empurrar "auto de interdição"; Light religa a energia elétrica; estratégia faz parte do jogo neoliberal, onde o lucro de poucos se sobrepõe à vida de muitos

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Das 46 casas, apenas 6 continuam de pé no Canal do Cortado

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

No sábado apareceram dois funcionários da Prefeitura e uma escavadeira. Derrubaram um muro na entrada da comunidade e o resto de uma casinha, que resistiu aos ataques da terça-feira. Os moradores acharam ruim. Protestaram. Avisaram que, se continuassem, poderiam atingir as casas de quem não aceitou os cheques da Rio Massa Engenharia Ltda., empresa privada que financiou a derrubada de 40 casas no Canal do Cortado, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Foram embora com a chegada da Polícia Militar, convocada pelos moradores. A Prefeitura do Rio, comandada há quatorze anos por César Maia (PFL), ainda não apresentou nenhum documento que autorize a demolição daquelas casas. E, se apresentasse, ainda poderia ser questionada. Jaílson de Souza, geógrafo e professor da UFF, lembra que morar é um direito de todos. "Se o indivíduo não tem dinheiro para comprar um terreno, ele tem o direito de ocupar e construir a sua casa".

No dia seguinte, domingo, a Light finalmente cumpriu a decisão judicial e religou a energia elétrica. Sem o relógio medidor de consumo, como queriam os moradores. "A senhora está obstruindo a determinação da Justiça", disse à moradora que exigia o medidor.

Segunda-feira, ontem, a Prefeitura novamente se fez presente. Funcionários entregaram documento assinado por Márcio Luiz, matrícula 215.069-6, intitulado "auto de interdição". Sem perícia ou laudo técnico, a Prefeitura apareceu com um "auto de interdição". Diz a peça: "tendo em vista a demolição iniciada e o iminente risco de desabamento (...)".

Marcelo Salles/fazendomedia.com

O que sobrou da casa de Heleno Francisco dos Santos

Ao mesmo tempo, outros funcionários passavam pelas casas tentando colar aquele adesivo discreto, amarelo-sol, para marcar as próximas casas a serem derrubadas. Apenas em uma conseguiram. Depois que saíram, os moradores arrancaram-no.

Hoje, terça-feira (29/8), o Canal do Cortado completa seis dias resistindo.

Ana Maria Neves é solidária aos moradores. De ontem pra hoje dormiu no Canal do Cortado. Com ela, diversos outros moradores de comunidades vizinhas. Informada de que o prazo final da Prefeitura era ontem, disse: "Faz duas semanas que eles dão o prazo para o dia seguinte".

E revela a grande ousadia das cinco famílias resistentes: exigir um valor justo por seu imóvel.

O lucro acima da vida
A estratégia da Prefeitura do Rio no Canal do Cortado é a mesma utilizada em outras oportunidades. A associação com grandes empresas privadas, que secretários e assessores insistem em dizer normal, revela mais que uma simples parceria pontual. Trata-se de sintoma evidente da atuação do neoliberalismo, sobretudo seu modelo imposto na América Latina.

Como escreve Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais, em artigo publicado no livro "Discursos Sediciosos" (Freitas Bastos Editora, página 229): "Hoje, dentro da nova ordem mundial, dos projetos neoliberais vigentes em escala planetária, os 'inimigos internos do regime' - aqueles tratados como tais - passam a ser os segmentos mais pauperizados: todos aqueles que os 'mantenedores da ordem' consideram 'suspeitos' e que devem, portanto, ser eliminados".

Isso explica também o receio dos moradores que resistem no Canal do Cortado. A cada noite, uma vigília. A cada vela, uma oração. Por ocasião da retirada da comunidade Via Parque, em 1994, a secretária da associação dos moradores e seu presidente, Tenório Perpeta de Souza, foram assassinados.

Novamente, é Cecília quem diz: "Grupos de extermínio funcionam especificamente para estes fins, financiados por comerciantes e empresários e, com auxílio competente de muitos dispositivos sociais - como a mídia -, fortalecem processos de subjetivação que produzem juízes e autores como sujeitos necessários à 'limpeza' do corpo social 'enfermo'".

Qual será o destino das famílias que resistem no Canal do Cortado? Que fim terão Michele Lacourt (9 filhos), Maria das Graças Silva Pereira (2 filhos), Enir José da Costa (4 filhos), Fidelina de Souza e Valneide Fernandes?

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