......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com


27.08.2006
ESCURIDÃO E INCERTEZA NO CANAL DO CORTADO
Light não cumpre decisão judicial e deixa famílias sem luz; estratégia da Prefeitura do Rio é a mesma de outros despejos

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Canal do Cortado, Rio de Janeiro, Brasil, 2006, século XXI

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

De sábado para domingo, escuridão. A Light não obedeceu a decisão judicial e mantém sem energia os moradores que ainda resistem no Canal do Cortado, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Tem sido assim desde o dia 23 de agosto, num desrespeito que atinge ainda mais covardemente a pequena Mariana, de apenas 3 meses de idade.

De sábado para domingo, incerteza. A Guarda Municipal, pela primeira vez desde que chegou ao local, não ficou para a madrugada. Os moradores estão assustados. Não sabem o que pode acontecer. Fladmir Guimarães, do Movimento União Popular, está no Canal do Cortado e avisa: "A situação está propícia; tá tudo escuro e a Guarda foi embora". O temor é de que grupos de extermínio apareçam para completar o trabalho iniciado pela Prefeitura em associação com a construtora Rio Massa Engenharia.


Cópia de um dos cheques da Rio Massa Engenharia Ltda.

De 1993 para 2006, nada mudou. A política de habitação da Prefeitura do PFL, comandada por César Maia, é a mesma. Em março de 1993, tentaram retirar a comunidade Via Parque. Não conseguiram. Mas também não desistiram. Na época, o subprefeito da Barra era Eduardo Paes, hoje candidato do PSDB ao Governo do Estado. Numa madrugada de agosto de 1994, retiraram à força as 90 famílias que lá residiam.

José Nerson de Oliveira, vice-presidente da Federação das Associações das Favelas do Estado do Rio de Janeiro, lembra como foi a reação: "Fizemos uma vigília em frente a Subprefeitura, 500 pessoas, 42 associações de moradores e montamos uma barricada com pneus. E ateamos fogo nos pneus. Eduardo Paes fugiu pela janela dos fundos".

Além da Via Parque, as seguintes comunidades foram despejadas pela Prefeitura do Rio - na maioria das vezes sem ordem judicial e fazendo uso das mesmas táticas de pressão, ameaças e chantagem contra os moradores: Marapendi, Vale do Sol, Parque André Rebouças, Associação de Moradores da Xuxa, Barão de Mauá, Juca Machado, Vila Alice e Arroio Pavuna, além de parte da Restinga e do Mato Alto.

Outras comunidades ameaçadas
Na sexta-feira, moradores da Beira Rio, comunidade que dista cerca de 500 metros do Canal do Cortado, disseram que funcionários da Prefeitura do Rio passaram a ameaçá-los. "Os próximos serão vocês!", teriam afirmado os agentes públicos. José Nerson divulgou as demais comunidades que estão na lista de despejo da Prefeitura: Bandeirantes, Beira Rio, Cortado, Dr. Crespo, Marimbondo, Novo Lar, Novo Recreio, Pedra Branca, Pocinho, Restinga, Santa Luzia, Vacaria, Vila Recreio 2, Vila Harmonia e Vila Autódromo.

A estratégia é sempre a mesma: quando uma área passa a ser valorizada pela especulação imobiliária, as grandes construtoras pressionam o prefeito e seus principais assessores, imagino que em jantares regados a champanhe e caviar, para que mobilizem a polícia e tratores para o serviço. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação de massa, sobretudo as Organizações Globo, criam campanhas e veiculam reportagens destinadas a criminalizar os moradores de favelas. Com isso, jogam a opinião pública a favor das agressões.

As construtoras estão entre as maiores doadoras da última campanha do prefeito César Maia (PFL), com destaque para a Carvalho Hosken S/A, que assinou os cheques para "indenizar" as 67 famílias que moravam na comunidade Arroio Pavuna, a 50 metros de um de seus principais empreendimentos, o Condomínio Rio 2, na Barra da Tijuca.

As construtoras também são grandes anunciantes. A Brascan Imobiliária Incorporações, também doadora da campanha de César Maia, publicou uma página inteira no jornal O Globo este sábado, 26 de agosto. A Carvalho Hosken publicou três páginas. Ao todo, foram 10 anúncios de empreendimentos imobiliários no jornal O Globo, só este sábado.

Enquanto isso, no Canal do Cortado, Michele Lacourt, Maria das Graças Silva Pereira, Enir José da Costa, Mariana Silva Pereira, de 3 meses, entre outros moradores, seguem resistindo. Esperam que a Prefeitura, teoricamente representante do poder público, apresente uma solução justa.

Em princípio, querem ficar em suas casas, num lugar modesto, mas sem violência e tráfico de drogas. Lá construíram sua identidade a cada tijolo ou compensado de madeira erguido, vitória conquistada, filho nascido e também a cada dor sentida. Se não for possível permanecer, então que seja garantido um valor justo por suas residências. É o mínimo que se espera.

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