
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
27.03.2006
ASSIM FUNCIONAVA O DIMASDUTO
Fornecedor de Furnas revela como Dimas Toledo, diretor da estatal, arrancava propina de empresas para favorecer políticos
Márcia Kalume/Agência Senado

Dimas Toledo em depoimento à CPMI dos Correios
Por Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
A experiência dos fornecedores da Furnas Centrais Elétricas S.A. durante a gestão de Dimas Toledo na diretoria de Planejamento, Engenharia e Construção dizia que um contrato assinado não era garantia de pagamento em dia - um problema para administradores que se endividavam para produzir os insumos encomendados. Para assegurá-lo, era preciso se fiar na interpretação literal do dito popular "é dando que se recebe".
Essa reportagem se baseia no relato de um empresário que esteve na sala de Toledo, na rua Real Grandeza, 219, em Botafogo, no Rio de Janeiro, onde foi perguntado se "estava disposto a dar uma contribuição". Segundo ele, respostas afirmativas a consultas como essa alimentavam o esquema conhecido como Dimasduto (veja abaixo o que já saiu na imprensa).
Os encontros ocorriam depois de realizada a licitação para o fornecimento de determinados equipamentos ou serviços, com a empresa vencedora. A cada contrato correspondia uma propina. O preço da tranqüilidade era de 5% do seu valor. Depois do acerto, Toledo dava o telefone de um escritório em São Paulo, de onde um comparsa completava a operação. Do outro lado da linha, informava os dados de contas bancárias de terceiros, os chamados "laranjas", nas quais deveria ser realizado o depósito. Eram, em geral, quatro destinos diferentes.
O empresário acredita que o dinheiro chegava às mãos de parlamentares e era utilizado em campanhas políticas, apesar de não conhecer a identidade dos destinatários. Toledo era o operador do esquema, não seu principal beneficiário. Entre funcionários da estatal, lembra a fonte, era chamado de "Dimas, o bom ladrão". Além de se referir ao personagem bíblico pregado na cruz ao lado direito de Jesus, o apelido faz jus ao fato de que o diretor não tomava tudo para si, mas distribuía entre amigos políticos.
Então a "lista de Furnas" é verdadeira? "Certamente não", diz. Parece uma obra de ficção baseada em fatos. Segundo o fornecedor, é bem possível que parte dos citados esteja mesmo envolvida - 20 pertencem ao PSDB mineiro, com o qual Toledo mantinha estreitas relações, garante -, mas os dados parecem imprecisos. O valor deve ultrapassar muito os R$ 40 milhões arrolados.
Para ele, a ligação com parlamentares explica o fato do diretor ter sido mantido no cargo, conquistado no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-1998), depois da eleição do presidente Lula. Sua permanência teria sido exigida por integrantes da então nova e ampla base aliada, em 2003. "Sabia-se que havia deputados na conta", afirma. Esta acusação casa com aquela feita por Roberto Jefferson: segundo o ex-presidente do PTB, Toledo dava R$ 3 milhões mensais para uma partilha entre integrantes do seu partido e do PT.
As ramificações do Dimasduto alcançavam também setores subordinados a sua diretoria: por vezes, o pedido de propina era feito por outros chefes de seção. Em um momento que a fonte não soube precisar - provavelmente no ano de 2002 -, funcionários abriram um escritório de lobby no Rio de Janeiro para melhor negociar com as empresas fornecedoras de equipamentos para subestações de energia (Furnas é proprietária de 44 delas).
Isso aconteceu quando cessou a possibilidade de construção de novas linhas de transmissão pela estatal, um antigo "nicho" do esquema, a partir das mudanças ocorridas no sistema elétrico nacional. No ano 2000 foi realizado o primeiro leilão de transmissão de energia - pelas novas regras do setor, Furnas passou a contratar o uso de linhas através de leilões organizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Por fim, o Dimasduto foi interrompido definitivamente em 2005, quando Roberto Jefferson denunciou o mensalão e as irregularidades em Furnas.
O que já saiu na imprensa
- Dimas Toledo era funcionário de carreira havia 35 anos e, desde a gestão FHC, diretor de Planejamento, Engenharia e Construção de Furnas. Segundo matéria da Folha de São Paulo, era apadrinhado do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB).
- Foi afastado do cargo em 2005 quando denunciado por Roberto Jefferson, acusado pagar R$ 3 milhões mensais, divididos entre PT e PTB.
- Em depoimento na CPI do mensalão, contou que seria substituído por um apadrinhado político de Jefferson, mas convenceu-o a mantê-lo por ser "um funcionário de carreira": "ele gostou de mim", disse.
- Na mesma ocasião, disse ter se encontrado em 2002 com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, que queria saber "como funcionava" Furnas e, em 2003, com Sílvio Pereira, que pediu o organograma da empresa.
- O ex-superintendente administrativo da Toshiba José Antonio Csapo Talavera declarou à Polícia Federal que a empresa em que trabalhava faria parte de um "clube da propina" de fornecedores de Furnas, também integrado pelas multinacionais WEG, Alston do Brasil, ABB (Asea Brown Boveri) e a GE (General Electric), além do consórcio Gevisa, composto pela GE, pela Villares e pelo Banco Safra.
- A "lista de Furnas", divulgada no início do ano, lista 156 parlamentares de 12 partidos (PDT, PFL, PL, PMDB, PP, PPS, Prona, PRTB, PSB, PSC, PSDB e PTB), supostamente beneficiários do chamado Dimasduto. Sua veracidade não foi comprovada.
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