......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com


26.08.2006
SONHO CORTADO NO CANAL QUE RESISTE
Mesmo sob forte pressão da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, moradores da comunidade Canal do Cortado, na Zona Oeste da cidade, decidem resistir

Marcelo Salles/fazendomedia.com

Michele Lacourt, uma das moradoras que decidiram resistir

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

O cenário é desolador. Quarenta casas no chão, uma pela metade e apenas cinco de pé. Esse foi o resultado da ação da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro com apoio da empresa Rio Massa Engenharia Ltda. contra a comunidade Canal do Cortado, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste da cidade.

Entre os escombros, sofás, camas, um par de tênis, outro de botas, um pote de margarina, armários, metade de uma pia, restos de um aparelho telefônico e outros utensílios domésticos que o rompante da grana não logrou esperar que seus donos viessem reivindicá-los.

Heleno Francisco dos Santos, por exemplo, está internado há dois meses no Hospital Rafael de Paula e ainda nem ficou sabendo o que aconteceu com sua residência. Sobrou pedra sobre pedra. E em breve nem isso vai sobrar, já que a Prefeitura está depositando o entulho no canal do Cortado, numa flagrante agressão ao meio ambiente.

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Um sofá entre os escombros

Localizada no Km 15 da Avenida das Américas, o Canal do Cortado era uma pequena comunidade com 46 famílias situada entre um condomínio fechado e um terreno da Rio Massa. As casas foram construídas às margens do estreito canal que por ali corre, de nome Cortado. As seis primeiras foram derrubadas, a sétima e a oitava continuam de pé. Há um intervalo de aproximadamente 20 metros até o próximo barraco, que está colado nas outras duas residências que insistem em não cair.

Esta noite o repórter fotográfico Sadraque Santos dormiu no que restou do Canal do Cortado. Ele e outros dois fotógrafos do Observatório de Favelas, Rovena Rosa e Cláudio Freitas, estiveram na comunidade durante a tarde da sexta-feira 25 de agosto. Enquanto documentavam a destruição, incentivavam os moradores que decidiram resistir. Sobre esses, parágrafos à parte.

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O fotógrafo Sadraque Santos documenta a destruição

Michele Lacourt é vendedora, tem 30 anos e 9 filhos. Vive num modesto barraco de madeirite cercado por um muro recém-construído. Ofereceram-lhe R$ 3 mil. Sua resposta: "Faça bom proveito com seus R$ 3 mil. Se você não dá valor ao meu barraco, eu dou. É aqui que eu crio meus nove filhos. Aos trancos e barrancos, mas crio".

Enir José da Costa, 48 anos e 4 filhos, comprou o lote por R$ 5,5 mil, fora o que gastou com tijolos, com o muro, com a construção do seu lar, sua identidade. Maria das Graças Silva Pereira tem 2 filhos e uma neta, a pequena Mariana da foto, de apenas 3 meses, que sofre com a luz cortada pela Light e tem o rostinho coberto de picadas de mosquito. As duas recusaram a proposta da Prefeitura e insistem em resistir.

Resistir.

Palavrinha complicada para alguns. Os moradores contam que os donos da Rio Massa, empresa privada que assina os cheques usados no despejo, tentaram negociar na base do grito: "Se você não aceita R$ 5 mil na sua casa, quanto você quer, minha senhora?". "R$ 100 mil". "A senhora ficou louca?".

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Maria das Graças e sua neta, a pequena Mariana de 3 meses

Sem dúvida não é das tarefas mais difíceis especular sobre a sanidade alheia diante do menor sinal de impotência, mesmo quando montado em tanta grana. Naturalmente a dona da casa não espera receber tal montante, embora a lei não estipule limites para a valoração da propriedade. Estão aí as fazendas improdutivas sendo compradas pelo governo a preços supervalorizados. O que essas pessoas esperam é apenas um tratamento digno e uma indenização justa. Apenas justa.

O que não dá é para aceitar um valor irrisório, com o qual seria impossível adquirir imóvel semelhante na mesma região.

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As seis primeiras casas foram todas demolidas

Quando cheguei, havia um carro e quatro homens da Guarda Municipal. Pergunto qual a posição deles sobre a situação. O chefe da equipe, identificado como Nivaldo, informou que sua função era apenas a de resguardar a integridade física dos funcionários da Prefeitura, pois são "patrimônio do Município". Rogério, do Movimento União Popular, retrucou em cima: "E os moradores também não são patrimônio do Município?". "Sim, claro. Também não vamos deixar que nada aconteça com eles", garantiu Nivaldo.

No mesmo dia em que a Light cortou a energia elétrica, os moradores acionaram a Justiça. Prontamente o juiz deu prazo de 48h para que a empresa multinacional religasse o que havia desligado arbitrariamente, sob pena de multa diária de R$ 200,00. O prazo venceu ontem e até o fechamento desta reportagem (22h de 25 de agosto de 2006), a Light não havia cumprido a determinação judicial.

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Construção: Trator prepara terreno encostado na comunidade para provável construção de mais um condomínio de luxo

Maria Ana Neves

Destruição: Trator investe contra as casas da comunidade Canal do Cortado, na terça-feira 22 de agosto

Embora o trator da Prefeitura não tenha retornado ao local nesta sexta-feira, a situação continua tensa em razão de novas ameaças sofridas pelos moradores que continuam vivendo na comunidade. Esses seguem divididos entre o sonho cortado da casa própria e um jeito de organizar o Canal que resiste.

Sobre o mesmo assunto:
Escuridão e incerteza no Canal do Cortado
Prefeitura do Rio despeja outra comunidade


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