
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
25.08.2006
PREFEITURA DO RIO DESPEJA OUTRA COMUNIDADE
Marcelo Salles/fazendomedia.com

Casas derrubadas por pressão da especulação imobiliária
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
A terça-feira 22 de agosto foi um dia trágico para as famílias que residiam na comunidade Canal do Cortado, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A maioria delas viu, sem acreditar, suas casas serem demolidas pela ação conjunta da Prefeitura com a iniciativa privada interessada na valorização imobiliária da região. Restam, de pé, cinco casas.
O trator da Prefeitura chegou logo cedo e pôs abaixo casas que lá estavam por mais de 20 anos. Sem dó nem piedade, nem mandado judicial. Tinha apenas a força da grana, da chantagem, da ameaça.
Em julho, a Secretaria Municipal de Habitação, representada por Maria Helena Salomão e Tânia Mara, fez o cadastramento das casas. Na mesma época, o RJTV, da Rede Globo, apresentou uma reportagem em que classificava os moradores do local como invasores e criticava a construção de casas de alvenaria em lugar dos barracos.
Na semana passada, começaram a ligar para os moradores e a pressioná-los. O teor das ligações era parecido. "Olha, você tem que vir aqui hoje pegar os cheques. Mas não fala nada com seu vizinho, que seu negócio é melhor do que o dele".
Na maioria das vezes, o morador cede. É grande o medo de ter a casa derrubada sem receber nada em troca, como freqüentemente ameaçam os funcionários da Prefeitura. Coisa do tipo: "Não vai sair, não? Melhor sair, se não a gente tira do mesmo jeito". As ameaças se agravam quando direcionadas a seu lar, sua principal estrutura, lugar onde encontram-se suas histórias de vida, o último refúgio.
O processo de despejo é parecido nas várias comunidades. Foi assim com a Via Parque, em 1994, ou com a Arroio Pavuna, durante o carnaval deste ano. Depois das ligações, o morador vai até a Prefeitura, sob o controle de César Maia (PFL) há quatorze anos, e pega o cheque. No caso do Canal do Cortado, os valores são de R$ 11 mil, R$ 7 mil, R$ 4 mil e até R$ 3,5. A casa mais "bem avaliada" foi vendida por R$ 15 mil. Sempre com uma contrapartida: exige-se que o morador assine um documento em que ele se compromete a não acionar a Justiça e declara que não tem mais nada a reclamar sobre o "negócio".
Os cheques utilizados no despejo do Canal do Cortado são da Rio Massa Engenharia Ltda., empresa do Grupo Polimix. Dessa vez foi a Rio Massa, separada do Canal do Cortado apenas por um muro. Mas poderia ter sido outra. Como, por exemplo, a Construtora Carvalho Hosken S/A, que pagou para despejar os moradores da Comunidade Arroio Pavuna enquanto as câmeras de TV estavam mais preocupadas com os rebolados na Marquês de Sapucaí.
Coincidentemente, ou não, a Arroio Pavuna ficava a 50 metros de um dos maiores empreendimentos da Carvalho Hosken, o Condomínio Rio 2. Outra provável coincidência: essa empresa consta como uma das maiores doadoras da última campanha de César Maia (PFL). A última coincidência: no dia 14 de maio deste ano, um domingo, a Carvalho Hosken publicou 4 páginas de anúncio no jornal O Globo, além de ter comprado diversas inserções publicitárias durante o Jornal Nacional, da TV Globo, para anunciar o Condomínio Península, na Barra da Tijuca.
Voltando à terça-feira trágica, 22 de agosto. Ao retornarem da Prefeitura, no centro da cidade, os moradores do Canal do Cortado que aceitaram os termos da Prefeitura viram-se diante de uma cena chocante. Seus pertences estavam sendo recolhidos por um caminhão de lixo da Comlurb, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana. Na confusão, uma mulher passou mal e foi levada ao hospital.
Fladimir Guimarães, do Movimento União Popular, e José Nerson Oliveira, vice-presidente da Federação das Associações das Favelas do Estado do Rio de Janeiro, chegaram a tempo de organizar uma assembléia de emergência. Cinco famílias decidiram não ceder às pressões da Prefeitura. E resistir.
Como conseqüência, e numa atitude arbitrária, a Light cortou a luz daqueles moradores. "A polícia cercou o relógio pra gente não impedir o desligamento da energia", conta Fladmir. Passaram a dormir com fogueiras acesas. No dia seguinte, o Conselho Tutelar apareceu para uma visita. E disse para as famílias que dali não saem: "Seus filhos não podem ficar aqui, a situação é insalubre. Não tem luz, não tem água".
Enquanto isso, José Nerson tentava conversar por telefone com o subprefeito da Barra da Tijuca, André Duarte, que argumentava: "Sabe como é, a gente precisa do espaço para passar uma estrada". Argumentos parecidos com os de Eduardo Paes, quando era ele o subprefeito da Barra. Na conta do atual candidato do PSDB ao governo do Estado do RJ entram, pelo menos, os despejos violentos da Via Parque e Marapendi.
José Nerson também tentou chamar a imprensa. Falou com as TVs Globo e Record, além do jornal O Povo. Em vão. Todos disseram que não tinham equipe disponível para enviar ao local.
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Correção: O Conselho Tutelar não apareceu para uma visita. O que aconteceu, segundo moradores, foram ameaças por parte de funcionários da Prefeitura de que denunciariam a situação precária da comunidade ao Conselho Tutelar.
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