......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



25.06.2007
DAS CPIs À REFORMA POLÍTICA

Por Oliver Buzzo - oliverbuzzo@gmail.com

A derrota de Alckmin nas eleições presidenciais de 2006 rachou a oposição. Por dois anos a estratégia de manter o governo prisioneiro de CPIs forneceu rumo e propósito comuns ao PSDB e ao DEM. Mas o uso eleitoreiro da corrupção teve um resultado pífio. A gritaria moralista encontrou forte ressonância no interior dos setores médios, mas as massas não se sensibilizaram com a manobra e não é possível vencer uma eleição presidencial de dois turnos sem o apoio delas.

A vitória esmagadora de Lula fez o tucanato reconhecer os limites da estratégia das CPIs. O PSDB iniciou um debate interno à procura de uma nova bandeira. Para sair de sua agenda negativa e perdedora era preciso pôr um fim à relação sanguinária com o governo; o discurso oficial pregava uma "oposição responsável" no segundo mandato de Lula. Mas não se pode descartar uma bandeira política de dois anos tão facilmente. O partido fora extremamente eficaz na exploração da corrupção e, agora, era refém de seu próprio sucesso. O tema da corrupção fazia parte da agenda política do país e estava na pauta diária da grande imprensa. A meia volta tucana causou um mal-estar geral.

Para complicar a situação, o DEM queria a continuidade da estratégia das CPIs. Este partido não possui a menor chance numa eleição presidencial e, portanto, não precisa pensar grande. O DEM, que era um mero refugo de ex-arenistas, encontrou uma identidade na bandeira da moralidade. A cruzada anti-corrupção ressuscitou o partido, um processo que se cristalizou com a mudança do nome da legenda - de PFL para Partido dos Democratas ou "DEM". O PSDB e o DEM chegaram a trocar farpas na imprensa. Os "democratas" acusavam os tucanos de adesismo ao governo; queriam uma CPI de qualquer jeito e constrangeram os parlamentares tucanos a assinar o documento de solicitação de abertura da CPI do Apagão Aéreo. Os tucanos confiavam que a maioria do governo barraria a CPI, mas os "democratas" conseguiram uma vitória insólita: levaram o assunto ao STF e os juízes do Supremo concluíram que as minorias tinham o direito de instalar CPIs.

Essa reviravolta acendeu as luzes vermelhas no Palácio do Planalto. DEM, PSOL e outros partidos minoritários prometiam ao governo mais quatro anos de inferno astral em salas de CPIs. O governo reagiu em duas frentes. Primeiro, restringindo o horizonte da CPI do Apagão, autorizada pelo Supremo. O propósito dos "democratas" era usar a CPI para investigar todo e qualquer assunto, causando o maior dano possível ao governo. A base aliada conseguiu limitar o foco das investigações, inclusive com o apoio da bancada tucana. Somente o controle aéreo seria alvo das investigações. Foi uma jogada inteligente. O controle aéreo é feito pelos militares e o governo sabia que nossos heróis moralistas iriam "amarelar" na tarefa de dar bronca em "milico". Dito e feito. Os parlamentares trataram os depoentes com respeito e a CPI do Apagão entrou para a história como a mais civilizada e doce das CPIs. O comportamento respeitoso estendeu-se à destemida grande imprensa, que realizou uma cobertura "técnica" e "objetiva" dos trabalhos da CPI, como mandam os manuais de redação.

A segunda frente de reação do governo consistiu em anular os efeitos da decisão do Supremo. Uma vez estabelecido que qualquer minoria poderia realizar sua CPI, o governo decidiu transformar as CPIs num negócio inconveniente para a oposição. Durante o tempo em que permaneceu encurralado em Comissões Parlamentares, nos loucos anos do mensalão, o governo desenvolveu um contra-ataque heterodoxo: o Ministério da Justiça retirou a coleira da Polícia Federal e os policiais tiveram carta branca para desencadear uma grande quantidade de operações anticorrupção.

A idéia do governo era desmascarar os moralistas, mostrando ao país que corrupção não é coisa de barbudo somente. Agora, com a decisão do Supremo, o governo decidiu concluir e trazer à luz algumas dessas operações. De repente, o país tomou conhecimento de uma enorme quantidade de maracutaias. Informações de todo tipo começaram a vazar para a imprensa, expondo autoridades de todos os naipes políticos. Até mesmo o Poder Judiciário, que começava a tomar gosto pela politicagem em torno da corrupção e a intervir desfavoravelmente ao governo, viu-se envolto na sujeira.

"Tufão", "Hurricane", "Navalha" - a quantidade e a velocidade das revelações deixaram nossos moralistas atônitos. O país estava nu. As vítimas preferenciais dos vazamentos foram os "democratas". Um de seus governadores estava, aparentemente, envolvido em trambique grosso. Imediatamente os parlamentares do DEM perderam o apetite por CPIs. Até mesmo o Senador "democrata" Heráclito Fortes, o bufão da moralidade, passou a recomendar moderação diante da iniciativa do PSOL em instalar uma CPI da Operação Navalha. Mergulhada no mar de lama comum, a oposição uniu-se ao governo na tarefa de "limpar a casa". Em primeiro lugar, era preciso dar uma satisfação à opinião pública. Sangue tinha que jorrar e o boi de piranha da vez foi o Senador Renan Calheiros, suspeito de usar dinheiro de origens indefinidas para o pagamento de pensão à ex-amante. Em segundo lugar, era preciso criar a ilusão de que algo seria feito para combater a roubalheira, e o velho projeto da reforma política foi retirado das gavetas da Câmara.


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