
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
24.07.2006
REPRESSÃO NÃO DIMINUIU VIOLÊNCIA
Vera Malaguti propõe melhoria das condições de vida da população carcerária
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Vera Malaguti Batista é Secretária Geral do Instituto Carioca de Criminologia. No dia 16 de maio deste ano concedeu entrevista ao jornal argentino Página 12, reproduzida no boletim do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ. Portanto, logo após a primeira seqüência de revides do PCC às torturas praticadas pelo governo do Estado de S. Paulo nos cárceres paulistas.
Num trecho, Vera foi profética: "Se não se discutirem as questões de fundo referentes às condições de vida da população carcerária, o problema pode ser reprimido com um banho de sangue, mas vai voltar daqui a um ano, um mês".
Em maio foram cerca de 300 ataques atribuídos ao PCC, que alvejaram policiais, agentes penitenciários, ônibus e treze agências bancárias. Como resposta, a periferia paulista foi reprimida indiscriminadamente e inocentes foram executados, como denunciou o escritor Ferréz. Agora, dois meses depois, mais de setenta ataques aterrorizaram São Paulo e, além dos mesmos alvos, os bandidos destruíram também concessionárias de carros.
As autoridades de São Paulo não lêem Vera Malaguti Batista. Se lessem, saberiam que a repressão não vai resolver o problema. Ou lêem e não lhes interessa resolvê-lo. O fato é que a questão toda gira em torno das torturas praticadas dentro dos presídios, como misturar caco de vidro na comida dos presidiários e os espancamentos a que são submetidos, além da superlotação das cadeias.
Isso ficou muito claro na edição especial da revista Caros Amigos sobre o PCC e pode ser visto também no Boletim da Prisão, criado pela mesma publicação, que colocou o repórter João de Barros dentro da Penitenciária de Araraquara para ouvir as denúncias dos presos.
A estratégia do governo neoliberal paulista está plenamente adequada à visão do Estado Penal descrito pelo sociólogo francês Loïc Wacquant, autor de "Punir os pobres". Trata-se de excluir do convívio social aqueles que não se adequaram ao sistema econômico injusto criado pelos chefes estrangeiros da gangue PSDB-PFL.
Ou seja, se o sujeito não aceita fingir que dá pra viver com um salário mínimo por mês depois de carregar cimento nas costas durante um mês inteiro, ele deve ser preso. Porque, como é evidente, ele vai precisar arrumar um jeito de ganhar dinheiro com o estudo a que teve acesso ao longo da vida. E qual seria a solução imediatista?
Naturalmente, não é se candidatar. Embora muitos bandidos ganhem a vida em cargos públicos, com o voto do povo, da mídia e do dinheiro.
Em tempo: Vera Malaguti Batista concedeu entrevista exclusiva ao Fazendo Media em junho deste ano. Faça uma assinatura semestral do nosso jornal impresso e receba gratuitamente um exemplar com a referida entrevista.