
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
24.04.2006
"O PROBLEMA NÃO É O VOTO SECRETO"
Arquivo fazendomedia.com

Jânio de Freitas: "O voto secreto evita o constrangimento do parlamentar"
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Os problemas da Câmara dos Deputados decorrem da baixa qualidade moral, ética, política e cultural da maioria dos parlamentares, e não do voto secreto. Este tem a função de proteger o direito do parlamentar de votar sem receio de sofrer pressões e ameaças. Eis a opinião de Jânio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo.
Jânio não duvida das boas intenções dos parlamentares que se mobilizam para extinguir o sigilo nas votações, mas afirma que eles podem estar ignorando a experiência dos anos que antecederam o golpe de 1964. "Ali entre 60 e 64, o Brasil discutiu projetos fantásticos. Remessa de lucros e oligopólio nos meios de comunicação, por exemplo. Só a remessa de lucros desse início de ano foi uma coisa fabulosa! Isso é dinheiro produzido por brasileiros!", disse. O jornalista refere-se ao recorde registrado no primeiro trimestre deste ano, quando as multinacionais instaladas no Brasil enviaram US$ 3,608 bilhões para suas matrizes no exterior, maior valor desde 1969.
Para Jânio de Freitas, a concentração nas comunicações é outro tema de interesse nacional. "O monopólio da Globo está se tornando tão forte que é questão de tempo aparecer quem apresente um projeto. Hoje a opinião é controlada pelo sistema Globo. Isso de ter, numa mesma cidade, mais de uma emissora de rádio, jornal e televisão só existe no Brasil", argumenta, tendo em vista a dificuldade da aprovação de um projeto que regule o setor caso o voto seja aberto.
Nos anos que precederam o golpe, a direita jogou pesado para fazer valer seus interesses. "Eu era diretor de jornal na época, dirigia o Correio da Manhã, sei que as pressões são fortíssimas", diz Jânio.
Em artigo publicado na quinta-feira, 20/4, o jornalista enfatiza ainda a deficiência da mídia na cobertura política. "Desde o regime militar, os jornais brasileiros desaprenderam a cobrir o cotidiano do Congresso e desinteressaram-se de dar ao leitor/eleitor o quadro panorâmico de informações", garante. Jânio sustenta que, em parte por isso, o eleitor brasileiro não tem o costume de acompanhar o desempenho dos parlamentares e mal se lembra em quem votou.
Aos deputados que entregaram os cargos no Conselho de Ética, um recado do jornalista: "Embora outras votações importantes venham por aí, entregaram os cargos de bandeja. Os parlamentares estão lá no Congresso para disputar. Para perder e ganhar. Se for pra entregar assim de bandeja é melhor ir pra casa", concluiu.