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22.12.2006
CAVERNA E SELVA DE PEDRA
Um outro olhar para o Centro de Niterói mostra como a existência de um shopping interfere nas relações de consumo e determina a prioridade nas políticas municipais

Por Lívia Duarte - contato@fazendomedia.com

Niterói, no estado do Rio de Janeiro, onde o arquiteto e urbanista Glauco Bieneisntein mora desde muito criança ("nasci na cidade do Rio por acidente"), tem o Centro bastante movimentado: quem vira as costas para o canteiro de obras do Caminho Niemeyer observa a correria dos transeuntes.

Poucos andam vagarosamente pelas calçadas lotadas de gente, as pedras portuguesas arrancadas, o cimento arrebentado. Esse movimento é ainda mais intenso nessa época do ano, com a proximidade do natal. As lojas populares estão sempre cheias: enormes galerias de mercadorias baratas, onde se encontra de tudo. Não faltam açougues, quitandas, peixarias, padarias, utilidades domésticas a R$ 1,99.

As universidades também garantem a movimentação. Nos prédios, algumas placas de aluguel ou venda, mas são muitos moradores se aproveitando da comodidade que a infra-estrutura do Centro oferece.

Caminhando em direção ao terminal de barcas que fazem o trajeto Niterói-Rio, a mesma agitação, a mesma pressa, a mesma disputa por espaço. Dali e do terminal de ônibus, que já deixamos para trás, transitam milhares de pessoas pela região metropolitana do Rio de Janeiro.

Adiante, mais próximos do maior shopping da cidade, o Plaza Shopping, na direção chamada pelos agentes imobiliários 'centro-sul', a rua parece muito mais organizada apesar do intenso movimento. Os policiais costumam se manter deste lado, exceto durante a noite, quando os camelôs chegam. "O resto do pessoal aqui só chega mais tarde porque às 8h da noite os guardas liberam", comenta o vendedor de capas de celular Agnaldo José, perguntando se precisa mesmo dizer o sobrenome.

Quando o arquiteto Glauco Bieneinstein fala de seu elemento de estudo, o centro urbano, lembra que é um objeto de investigação e cobiça. "Diversos agentes econômicos e o Estado atuam no centro da cidade, tirando o maior proveito possível da região". O professor da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF realizou, anos atrás, um estudo de caso da influência do Plaza Shopping em Niterói.

"Lá se vão 13 anos que fiz esse estudo, mas acredito que o que constatei continua valendo e que inclusive pode ter se acentuado." De acordo com o urbanista, toda região central de cidade, média ou grande, tem um centro de atratividade: área de negócios, com muitos prédios institucionais, empresas grandes.

No caso de Niterói, essa área se estende da Avenida Amaral Peixoto à rua XV de Novembro. Os estudos que a elaboração e instalação desse tipo de "produto" demanda, explicam o porquê de o shopping estar localizado nessa área da cidade.

A construção do Plaza, de acordo com o urbanista, causou mais impactos no seu entorno imediato do que no restante do Centro, até o bairro de Icaraí, distante aproximadamente quinze minutos (de ônibus) do shopping, sentiu as conseqüências do empreendimento.

"As lojas de Icaraí são as mesmas grandes lojas do Plaza, mas, aqui, as pessoas têm uma garantia de segurança, de que todos sentem necessidade hoje em dia. Então, para que as pessoas não saíssem de lá, onde sem dúvida temos um bom sub-centro comercial, as lojas começaram a investir em segurança particular, por exemplo", explica o professor.

Bienestein conta que para o entorno imediato, as conseqüências não teriam sido apenas negativas, apesar de algumas lojas menores terem se desestabilizado e fechado. "O shopping movimenta a região. Então, por exemplo, aquela loja de equipamentos de som, na frente, aproveita o movimento do Plaza sem pagar as taxa de dentro do shopping".

A funcionária da loja Julico Som, que fica em frente ao Plaza, Adriana Cardoso, não concorda com a afirmação do professor: "Essa história de que o ponto aqui é muito bom porque está na frente do shopping não tem muito a ver. Realmente tem muito movimento na rua, as pessoas entram e saem o tempo todo, mas pra loja isso não quer dizer nada, nosso movimento é fraco. Dizem que na rua Coronel Gomes Machado o ponto é muito melhor".

Já Agnaldo José, o vendedor de capas de celular, afirma aproveitar o movimento do shopping. Ele é um dos muitos comerciantes informais da rua XV de Novembro, que abriga, além do belo Teatro Municipal, a entrada do Plaza.

De acordo com ele, que trabalha no mesmo ponto há seis anos, sair da cidade de São Gonçalo todos os dias para vender ali vale a pena porque é o único lugar movimentado de 9 às 23h. "Nós ficamos desde cedo porque vendemos só nós aqui (ele e mais seis rapazes com a mesma mercadoria), senão dá confusão, a gente nem deixa mais camelô chegar senão não dá nem pra gente nem pra eles."

Enquanto do lado de fora do Plaza é implantada a 'política de polícia' pela Prefeitura com os camelôs - assim como no restante do centro - lá dentro, muita gente aproveita o ar condicionado e todas as comodidades que o espaço oferece.

O arquiteto fala do caráter elitista do shopping. "Os shoppings em geral criam um simulacro de cidade, mas uma cidade sem negros, sem pobres, sem pedintes. Fora isso, você tem tudo que o urbano pode oferecer. Você passa bem o dia. Não é à toa que há autores que chamam os shoppings de cavernas. Tem lazer, comida e consumo. Como produto, responde perfeitamente a uma nova fase do capitalismo."

Juliana Dória é uma das mais novas vendedoras do Plaza; trabalha em uma loja inaugurada há poucos meses. Mas, freqüentadora assídua, ela é faz tempo: "Sempre vim pra comprar, passear, ir ao cinema e além do mais eu conheço muita gente que trabalha aqui. Estudo na Estácio (Universidade Estácio de Sá) aqui perto, então, sempre vinha na praça de alimentação também".

Mas não seria melhor passear na rua, ver o céu...? Bem, Juliana acha que ninguém passeia à toa na rua, não tem outros encantos como o shopping, onde como ela mesma diz, "nada é por acaso".

Aluna de publicidade, diz entender o porquê de o shopping atrair. "Já vi o Plaza do ponto de vista de quem gosta de passear e vem se divertir e do ponto de vista do produto: tudo é pensado, esse piso liso pra você andar devagar, a iluminação, a impressão de que o tempo não passa, a praça de alimentação no terceiro andar. Agora estou aprendendo a ver aqui de trás do balcão, que é outra história."

Na frente da vitrine de uma das "lojas-âncora" - grandes magazines que chamam o público - Zenilda Pacheco Gomes esperava pelo filho observando as novidades.

"Está difícil eu vir só pra passear; geralmente venho por uma coisinha que está faltando e eu tenho que comprar, mas é muito bom, você acha de tudo e dá pra passear também, os corredores são amplos, a gente anda com tranqüilidade. Eu não sou contra camelô, mas eles atrapalham a gente a andar, enchem as calçadas, diz."

Zenilda acha o comércio do Plaza "bem popular" e o atendimento lhe parece bom, geralmente: "Talvez seja porque eu ando bem arrumada, mas é difícil sentir preconceito, apesar de ser negra. Quando acontece é porque o lojista é mal instruído".

Para Bieneinstein, o comércio popular está mesmo em outros pontos da cidade, como em outro shopping, o BayMarket, e nas ruas que seguem da avenida Amaral Peixoto até a rua Feliciano Sodré.

"Esse espaço não sentiu impacto do shopping, tem outro público. Na época da minha pesquisa, entrevistei o dono de uma loja popular chamada Xodó da Pretinha, que vendia vestidos de noiva. Perguntei por que eles não se mudavam para o shopping e ele afirmou que o Plaza não falava a língua dele."

Além dessa parte do centro, o urbanista constatou que outros "aninhamentos comerciais", como o do bairro Santa Rosa, não foram modificados pelo shopping porque são pequenos comércios já tradicionais e estão mais próximos das residências.

Enquanto o comércio popular se manteve estável, o shopping mudou a vida dos moradores do entorno. O crescimento das paredes do Plaza cobriu a bela vista de Maria do Carmo Fernandes e dos moradores da rua Almirante Teffé, por exemplo. "Na época em que construíram me deu muita dor de cabeça. Era uma poeira danada, e era tão bonito, eu via as barcas daqui [da janela de onde hoje se vê uma grande parede amarela mofada]. Aí fizeram isso aí, tamparam o sol e era pior porque não tinham fechado o estacionamento, o óleo dos carros sujava as minhas cortinas".

Mesmo assim, Maria elogia a praticidade de comprar de tudo sem pegar ônibus e diz gostar de sentar nos banquinhos para ver as pessoas passando. "O ambiente é saudável e eu não tenho medo de assalto. Até pra rua aqui em baixo é bom porque tem muito movimento e polícia."

Mesmo com a grande movimentação nas distintas áreas do Centro, não cessam de aparecer na mídia os planos de "revitalização". Bieneistein chama atenção para a carga ideológica do termo: "o centro não está morto", critica.

O professor aponta para a ação da administração pública. "Podem até dizer que a cidade é para todos, mas é de quem pode manter-se nela do ponto de vista do consumo. Antes da queda do muro, mesmo na sociedade capitalista, havia um olhar amplo sobre o espaço urbano, uma certa idéia de igualdade, o bem-estar social. Hoje é o salve-se quem puder, e por isso a administração pública é feita a partir de intervenções pontuais na cidade, os grandes empreendimentos."

Entre essas grandes obras está o Caminho Niemeyer do canteiro descrito no início da reportagem. Os prédios desenhados pelo famoso arquiteto abrigarão duas catedrais, uma Batista e uma Católica, além de teatro, centro de convenções e o museu de cinema.

Boa parte do empreendimento "revitalizante" não tem a ver com o perfil dos freqüentadores de um centro popular como o de Niterói. No entanto, o que poderia ser um dos objetivos da obra na visão do urbanista do Núcleo de Estudos e Pesquisa Habitacional Urbana (Nephu) Gustavo Seixas, promover a valorização fundiária da região, não parece estar acontecendo, pelo menos ainda, de acordo com os estudos de Glauco Bieneinstein.

Por enquanto, só o tempo dirá como o Caminho será "costurado" no Centro, inclusive por conta de questões fundiárias entre o projeto e a malha urbana propriamente dita.

Gustavo Seixas trabalha com habitações populares. Ele acredita na política do Ministério das Cidades de que deve ser promovida a habitação popular no Centro para que seja aproveitada sua infra-estrutura. Para o pesquisador, o problema desses empreendimentos é que pode promover o que chamam de "expulsão branca": as pessoas não podem mais se manter no centro por causa do valor do solo e acabam tendo que abandonar o local.


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