
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
22.03.2006
1992: O ANO QUE NÃO ACABOU
Por Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
É Lula contra Alckmin, diz-se. O PT é um pólo; o PSDB, O outro. Como essa situação se construiu? Parte da explicação está narrada no livro "A História Real", dos jornalistas Josias de Souza e Gilberto Dimenstein, publicado em 1994, e que versa sobre as eleições presidenciais vencidas por Fernando Henrique Cardoso. Tudo começou em 1992. E nunca mais acabou.
Naquele ano, os indícios eram de uma união dos dois partidos para um longo casamento. Por isso, o leitor que folhear a obra hoje terá a impressão de encontrar novidades: a mídia, mais do que o povo, tem memória curta. Não costuma lembrar, por exemplo, do apoio dos tucanos a Lula no segundo turno do pleito de 1989, contra Collor e todo o resto do espectro político tradicional. Ou depois, da articulação Lula-Jereissati em torno da campanha pelo parlamentarismo.
Pronto para contrair núpcias, o PT de repente largou tudo, influenciado por uma mudança brusca no cenário político. Em agosto Collor sofreu impeachment, dando lugar a Itamar Franco. A onda de descontentamento com os políticos tradicionais fez Lula, símbolo da esperança, subir nas pesquisas a ponto de crer em vitória folgada no primeiro turno. Nessas condições, para quê aliança? E parlamentarismo, sistema no qual há mais participação do legislativo na condução do governo e, com isso, divisão do poder?
Como resultado, teremos em 2006 a quarta eleição presidencial consecutiva polarizada entre petistas e tucanos. As duas primeiras (1994 e 1998) ficaram com FHC; Lula recuperou-se em 2002, quando bateu José Serra, candidato do ex-presidente.
Vamos, então, relembrar fatos.
Lula e FHC foram até o altar juntos
Em 1992, PSDB e PT planejavam lutar juntos pelo parlamentarismo. Segundo o livro, Lula e Tasso Jereissati percorreriam o país em campanha pela causa no período anterior ao plebiscito sobre a forma e o sistema de governo, ocorrido no ano seguinte. Depois, nas eleições de 1994, os partidos fariam uma aliança para a disputa nacional.
Essa união já havia sido sinalizada antes. Em 1989, no segundo turno entre Collor e Lula, o PSDB optou pelo palanque do segundo (o PFL, que acabou sendo o aliado tucano, e os partidos tradicionais abraçaram o "caçador de marajás" alagoano). Em 1978, Lula havia apoiado a candidatura de FHC (MDB) para o Senado, levando-o inclusive aos portões das fábricas no ABC paulista.
A história também mostra que o PSDB, criado em 1988, rejeitava a união com os partidos da direita. Apesar das pressões do então presidente, resistiu à entrada no governo Collor por causa da presença do PFL na composição do ministério. Condicionou sua participação à saída dos pefelistas, o que acabou não ocorrendo.
Perspectiva de vitória fez PT abandonar a noiva
Em 28 de agosto de 1992, a Câmara dos Deputados aprovou o impeachment de Collor. A decepção com o primeiro presidente eleito pelo voto popular turbinou o desempenho de Lula nas pesquisas, dando ao PT a certeza de que venceria com folga em 1994. Nessa nova situação, o partido abandonou a quase-certa aliança com o PSDB e a idéia de lutar pelo parlamentarismo. No presidencialismo, solito, ficaria com uma parcela maior do poder. Em 21 de abril de 1993, a tese foi vitoriosa no plebiscito.
Novo solteiro convicto, o PT estava "quase". Só não esperava pelo Plano Real
Não havia nenhuma perspectiva de derrota de Lula nas eleições de 1994. Também FHC não tinha qualquer perspectiva de reeleger-se senador, e que não queria ser deputado. Como não via chances de voltar a cargo eletivo, a contragosto, pensava em escrever um livro sobre as sucessões presidenciais no Brasil.
Mas aí Itamar Franco precisou que o então ministro das Relações Exteriores assumisse a Fazenda, no lugar de Eliseu Resende, em maio de 1993. A projeção anual de inflação batia nos 5.500%. A troca era o suicídio político - mais provável - ou a redenção, caso conseguisse, por milagre, fazer algo de notável pela economia brasileira. Não é que conseguiu?
Inseguro, FHC só deflagrou Real com eleição garantida
O Plano Real foi formulado por um conjunto de economistas do PSDB, liderados por Edmar Bacha e Gustavo Franco, que foram à Fazenda com FHC. Sua deflagração era vista por ele como um tiro. No escuro, caso não tivesse a aprovação de medidas - impopulares - no Congresso necessárias para seu funcionamento. Certeiro, caso o aval dos deputados e senadores estivesse garantido.
Para arriscar o menos possível, a cúpula tucana amarrou com Antonio Carlos Magalhães, representando o PFL, um acordo pelo apoio da sua bancada às medidas. Em troca da sustentação, o PSDB garantiu a vaga de vice de FHC para um pefelista, que acabou sendo Marco Maciel.
Isso aconteceu em meados de 1993. Já estava tudo certo.
PT não era virgem: teve assento no governo Itamar. E já queria Duda
Depois do impedimento de Collor, Itamar Franco, que assumiu o governo por ser vice, formou um governo de coalizão. O PT chegou a ocupar duas pastas: o Trabalho, com Walter Barelli, e a Administração, com Luiza Erundina. A participação foi rápida, por conta das críticas dos radicais e a dificuldade do partido em assumir o ônus de ser governo para sua imagem.
A imagem, aliás, se dependesse de Lula e Ricardo Kotscho (já assessor de imprensa do candidato), seria tratada por Duda Mendonça, o mago do marketing de Maluf em 1992. "Preparou uma campanha alegre, bem-humorada, em que Lula apareceria fazendo propostas concretas. Nada de rancor ou cara feia. Deixou de graça um jingle ('Não dá pra apagar o sol') e outras peças de campanha." Esse trecho (pág. 191) lembra algo?
No fim, por força da ala radical, o comando ficou com o publicitário Paulo Tarso dos Santos.
Sobre o livro
Dimenstein e Souza escreveram "A História Real" ao longo da campanha em que FHC conquistou seu primeiro mandato presidencial, mais ou menos à moda do documentário Entreatos, de João Moreira Salles, gravado nos bastidores da campanha de Lula em 2002. Tinham um compromisso com as fontes: não divulgar nenhuma das informações que obtiveram antes do final do pleito.
Isso garantiu a eles acesso a dados privilegiados, capazes de fazer o leitor "ver" os acontecimentos de reuniões ultra-secretas da cúpula tucana com os pefelistas. Mais importante, o livro-reportagem traz vários lembretes - para quem um dia soube - e revelações - para quem passou ao largo das notícias sobre os acontecimentos políticos da época - que tiram boa parte da dose de surpresa propagada pela mídia com as "mudanças" do PT nas eleições e no governo federal.
Considerando-se o objeto da obra, o mais impressionante é a demonstração de que os partidos que hoje representam os dois (eleitoralmente) mais fortes pólos políticos do Brasil estiveram muito próximos de serem um pólo só. Do ponto de vista da forma, o texto é uma grande (aula de) reportagem. O leitor percebe, subsidiado pela explicação contida na apresentação, como os autores dão cabo da necessidade de dar credibilidade a um relato (presumidamente) verdadeiro também parecer verdadeiro. Esse intento está na recuperação de detalhes menos relevantes para o enredo político, mas importantíssimos para a construção mental das cenas.