......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



21.09.2007
SOBRE A ÚLTIMA INVESTIDA CONTRA O SOCIALISMO

Por Sérgio Granja e Marcelo Fradim (*)

Um espectro ronda a pós-modernidade: o pensamento único. Tudo o que escapa à sua lógica utilitária é uma desrazão. Apontar para outro argumento é “lavagem cerebral”.

A doxa, como se sabe, é o sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico, supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural. O que se pretende é que a doxa possa viger sem contraponto. A sanha inquisitorial está de volta: à fogueira com os hereges. Está na cara que o Sol gira em redor da Terra. Basta observar o movimento do astro.

A esse respeito, o caso do livro didático Nova História Crítica é exemplar. O livro é acusado de ser marxista. Por esse “pecado capital”, deveria ser banido das salas de aula.

A campanha orquestrada pelas corporações de mídia filia-se à tradição macarthista. Quer dizer, propõe-se a censura aos livros didáticos. Cancela-se de um golpe a liberdade de cátedra. Assume-se sem rodeios que a escola deve funcionar como um aparelho ideológico stricto sensu, que deve se dedicar à legitimação e ao reforço dos valores e crenças da sociedade capitalista tal qual se apresenta em nosso país. A discrepância, a alteridade de pontos de vista e o pensamento crítico devem ser abafados.

É um paradoxo que os neoliberais condenem o pluralismo sem romper com o discurso liberal. Mas é que o acontecimento é totalmente outro. O capitalismo incipiente, baseado na livre concorrência, valorizava a pluralidade. O capitalismo tardio, oligopolizado, tende para o monopólio, a uniformidade, o único. É preciso disciplinar o mercado, não pela ação reguladora do poder público, mas pela prática monopolista do grande capital. A interpretação marxista ou qualquer outra que estabeleça a incerteza, funde a dúvida ou construa alternativas à doxa não podem ser toleradas.

Nesse sentido, é preciso enfatizar o mau jornalismo verificado na leva de reportagens e artigos dedicados a atacar o livro Nova História Crítica e, conseqüentemente, o socialismo. O autor do livro não foi ouvido e o espaço destinado ao contraditório foi relegado às entrelinhas, enquanto o massacre era entronizado por títulos e subtítulos, assim como pela distorção sutil de informações e contextos históricos. Na verdade, a finalidade dos neo-macarthistas é impedir o debate de idéias, sobretudo aquelas que discutam propostas alternativas à doutrina capitalista. O livro é apenas o pretexto da vez.

No esteio do novo macarthismo surgem “acusações” contra os socialistas. Afirmam os teóricos da mesmice que hoje vivemos num “mundo de Adam Smith”, autor que não teria sido lido pelos opositores do regime capitalista – para em seguida completarem a argumentação com a chave-de-ouro dos obtusos: “não há outro caminho senão o capitalismo globalizado”.

Acaso o argumento central da campanha anti-socialismo não tenha em vista o enriquecimento imediato das corporações e de seus próceres, seria salutar oferecer duas breves informações. 1) No capitalismo descrito por Adam Smith cartéis e oligopólios eram execrados, ao contrário do que existe hoje em quase todos os setores da economia brasileira; 2) De acordo com a “Coalizão Nova York Contra a Fome” (http://www.nyccah.org), um milhão e trezentos mil novaiorquinos não possuem o suficiente para se alimentar, sendo que, desses, 417 mil são crianças. Enquanto isso, na tão difamada “Ilha socialista de Fidel”, nenhum habitante sofre com o terrível flagelo da fome.

Durante décadas o sistema capitalista procurou associar o socialismo à ditadura, ao mesmo tempo em que equiparava o capitalismo à democracia – argumentação apenas possível devido ao empenho das corporações de mídia em distorcer e omitir a realidade. Não é diferente a campanha ora movida contra o livro Nova História Crítica. No fundo, os defensores da exploração capitalista revelam-se aterrorizados apenas por imaginar a possibilidade de que a riqueza seja igualmente distribuída entre todos, já que é produzida por todos.

(*) Sérgio Granja é cientista social e Marcelo Fradim é jornalista.


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