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21.09.2005

Entrevista concedida a Malu Muniz e Marcelo Salles.
Em cima do armário, num canto, uma máquina de escrever aparentemente aposentada. Ao fundo, a mesa com vista para a estonteante enseada de Botafogo. Por todos os lados, livros, jornais, recortes já amarelados pelo tempo e mais livros, de todos os tamanhos, formas e conteúdos. Assim é a sala de Jânio de Freitas, que conversou com o Fazendo Media durante duas horas. Olhar curioso, o jornalista niteroiense de 73 anos que reestruturou o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil, hoje colunista e membro do conselho editorial da Folha de S. Paulo, parecia nos estudar a cada uma das perguntas abaixo...
Marcelo Salles - Eu gostaria de começar perguntando sobre sua infância, quais suas primeiras lembranças, sua família...
Eu fui criado aqui no Rio. Nasci em Niterói e vim pra cá com seis meses. Mas continuo adorando Niterói. E em minha infância não há nada de tão especial, não. Eu fui de uma família cuja maioria está morta, mas eram pessoas assim muito intelectualizadas, musicais, a música era uma coisa muito importante na minha família; minha mãe tocava piano muito bem e eu aprendi um pouco de piano com ela. E uma família de muita leitura, tinha uma tia escritora. Sou neto de um poeta e jornalista que morreu muito cedo. O que mais? Acho que minha linguagem mais propriamente minha é a música, é a linguagem musical, não-verbal. Comecei trabalhando com desenho e com música. Mas ao mesmo tempo a idéia de vôo, de voar de avião, me fascinava muito. Achava uma coisa encantadora. E fui fazer curso de aviação.
Marcelo Salles - Tirou o brevê?
Tirei.
Marcelo Salles - E você pilota um monomotor?
Há muito tempo não... Mas pilotei, sim. Gostava muito. E parei. Foi aí que entrei em jornal, porque tive um pequeno problema de joelho e tal, problema parcial de ligamento e aí fiquei sem poder voar. E aí, meio por acaso, entrei no Diário Carioca, um pouco para preencher o tempo, achava curioso esse negócio de jornal. E aí fiquei.
Marcelo Salles - Mas antes de entrar para o jornalismo, você já tinha esse interesse todo por política? Ou isso foi se desenvolvendo com o tempo?
Não, eu não tenho. Até hoje eu não tenho. Não gosto de política.
Marcelo Salles/www.fazendomedia.com

Jânio de Freitas durante a entrevista
Marcelo Salles - Não gosta? Quem lê suas colunas não diria...
Pois é, jornalismo tem isso. Você acaba causando nas pessoas impressões equivocadas. Por exemplo: me acham, com freqüência, uma pessoa mal-humorada. E quando me conhecem pessoalmente se surpreendem. As pessoas ficam muito espantadas. E eu realmente não sou. Apenas meu gênero de coluna, que passei a fazer na Folha, de um certo tempo pra cá, fui definindo certas bases para caracterizar, para personalizar aquele espaço. Então, de um certo tempo pra cá, a coluna ficou ranheta, bronqueada, e as pessoas que me pegaram a partir dessa fase, ou que pelo menos se esqueceram das fases anteriores, pensam que sou mal humorado. Mas eu não tenho nada a ver com isso, não sou nada disso. Pessoalmente sou outra coisa. Acho que jornal leva muito a esses equívocos. Até lamento, acho chato. Sou uma pessoa reclusa, não sou de noite, de festa, fico na minha, com os amigos. Gosto muito de cuidar de bichos.
Marcelo Salles - Que tipo?
Em geral. O que pintar de bicho é comigo mesmo. Tenho muito bicho, tenho livros sobre comportamento animal, desde minha infância sempre me interessei, sempre estive próximo a eles. É isso aí. Acabou a biografia.
Marcelo Salles - Pelo menos temos mais do que a internet. Procuramos sua biografia antes de vir pra cá e não achamos nada.
Malu Muniz - Pois é, você não tem vontade de fazer uma biografia?
Não, prefiro ficar na minha. Olha, em jornal, antes da Folha, eu fiz o que realmente gosto, que é editar. É uma coisa realmente muito agradável, muito gostosa. A gente pode exercer a criatividade. E eu não punha nome. O JB tem crônicas minhas sem assinatura. Eu passei a assinar a coluna na Folha porque era compulsório, não tinha outro jeito. Se não, não assinaria. Só assinei nas situações em que tinha que assinar. Na Manchete, por exemplo. Já no Cruzeiro tem vários textos sem minha assinatura.
Marcelo Salles - Você trabalhou com o David Nasser no Cruzeiro?
Eu trabalhei no Cruzeiro e o David era do Cruzeiro. Mas eu não trabalhei com ele.
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Jânio de Freitas em sua sala na sucursal da Folha no Rio de Janeiro
Malu Muniz - Você não compartilhava das idéias do David?
Não. Nenhuma. Nenhuma delas. Principalmente das jornalísticas.
Malu Muniz - Por que você chamou sua equipe e deixou o Correio da Manhã? Foi um prenúncio do papel que ele cumpriria?
Num certo sentido, sim.
Malu Muniz - Se é que você vê que ele cumpriu algum papel...
Claro, claro. Acho que cumpriu e cumpriu um papel lamentabilíssimo. Num certo sentido sim, mas não exatamente aquele papel político que ele cumpriu no final de março. Editoriais lamentabilíssimos, absurdos. Aconteceu o seguinte: quando saí do JB eu quis sair de jornalismo. Mas, algum tempo depois, o dono do Correio da Manhã, que estava morando na Europa, há cinco anos, casado com a Niomar Muniz Sodré, volta ao Rio e pouco tempo depois, me procuram para ter um encontro com ele. Eu fui e ele me convidou para ir para o Correio da Manhã. E eu não quis ir. Conversamos uma quantidade imensa de vezes. E eu passei a gostar muito dele pessoalmente; um sujeito muito inteligente, culto. Muito engraçado, gostava muito de música, era bem mais velhos que eu. Eu já tinha recusado várias vezes. E teve um dia que recebi um recado para ir à sua casa, e ele estava com o procurador dele, Jorge Serpa, e repetiu o negócio: "Como é, vamos para o Correio da Manhã?". Eu disse que não, não vou não. Ele me disse: "Olha, eu fui educado ouvindo sempre em todos os lugares que eu ia, ouvindo falar do Correio da Manhã. Meu pai morto, assumi o jornal e continuei ouvindo isso. Fui pra fora, fiquei esse tempo todo na França, quando volto, vou aos jantares, e só ouço as pessoas dizendo que o Jornal do Brasil disse isso, o Jornal do Brasil disse aquilo. Eu não suporto isso. Isso me faz um mal, é uma violência brutal. Eu preciso que você vá para o Correio da Manhã". Achei aquilo uma coisa tão honesta, tão inesperada, que não tive muito o que fazer. Aí acertei com ele lá e fui. Mas a empresa estava muito desestruturada, não estava em condições de encarar uma remodelação do jornal, que teria um certo custo. Então, eu fiquei um bom tempo preparando, criando as condições, ou aprimorando as condições, para deslanchar o jornal.
CONTINUA...