Nelson de Sá, na Folha:
"Mais Choque -
Do confronto na favela diante da Globo SP, o JN não deu as
cenas
de crianças e mulheres. Record e Band, sim. E o JN
questionou os
favelados pelo trânsito e pelos barracos vazios."
A partir disso, um leitor quer saber se a
política editorial da TV Globo é contra os
favelados. Sei
lá. Não existe um livro e, se existisse,
provavelmente eu
não teria tido acesso a ele. Existe um preconceito e se
manifesta, consciente ou inconscientemente. O jornalismo é
hoje
uma atividade de classe média. Já foi reserva de
mercado
de pé-rapados.
A Escola de Comunicações e
Artes da
Universidade de São Paulo, onde me formei, hoje é
formadora de mão-de-obra barata para tocar as
redações. A molecada fala três idiomas
mas nunca
andou de trem de subúrbio, nem por curiosidade. Existem
exceções, aqui e ali. Mas a falta de compromisso
público é evidente.
Os meninos e meninas querem as dicas para ser
correspondente. Todo mundo quer começar a carreira como
correspondente internacional. Não há nada de
errado
nisso, mas acho que começar pela periferia de São
Paulo
pode ajudar mesmo quem fala alemão. Você pode
optar por
ajudar a criar uma realidade paralela, que é o que
está
acontecendo cada vez mais na TV brasileira. Como relax para quem chega
em casa cansado, depois de duas horas chacoalhando em um
ônibus,
tem lá sua função
anestésica.
A TV Globo de São Paulo fica na
avenida Berrini
e tem várias favelas por perto. Os favelados
serão
expulsos não pela TV Globo, mas pela
valorização
do mercado imobiliário. Aperta aqui, avança ali,
parece
claro que serão mandados para longe. Portanto,
não
acredito que a Globo seja contra os favelados, mas pode ser contra
favelas por perto dela.
Há a suspeita de que o
seqüestro de um
repórter da TV Globo pelo PCC tenha sido organizado a partir
de
uma favelinha na vizinhança. É uma suspeita que
se
encaixa perfeitamente no preconceito, no "nós contra eles",
no
simplismo de favelado=bandido. Ainda que a sociedade acredite na
necessidade de remover uma favela, seria essencial debater as
questões importantes de São Paulo e do Brasil: os
sem-teto, a favela, o uso da polícia para fazer
"política
social" e o MAIOR problema quando se trata especificamente de
São Paulo, que é o trânsito.
Porém, no caso específico
da Globo,
além de não existir o espaço editorial
para esse
tipo de debate em uma concessão pública - ou
seja, que
pertence a todos os brasileiros, favelados inclusive - tratar desses
temas em ano pré-eleitoral exigiria romper a
aliança da
emissora com o governo José Serra, os tucanos e os
democratas
paulistas.
Não quero dar uma resposta simplista.
A TV
Globo é uma gigantesca estatal, tem tantas
tendências
quanto o PT. O Campo Majoritário na TV Globo é
tão
ou mais leninista que o José Dirceu na vitória. O
Ministério do Interior, também conhecido nos
corredores
como de Combate aos Vícios, já manifestou por
escrito sua
oposição à
urbanização das favelas
no Rio de Janeiro. É contra as cotas raciais e "abafa" esse
debate internamente, já que acredita que as cotas
poderão
provocar uma guerra civil no Brasil. Eu mesmo, que sou contra as cotas
impostas de cima para baixo, jamais poderia levantar esse debate
internamente. A TV Globo é contra as cotas e acabou, mesmo
que o
papa for a favor. Se o papa disser que é a favor, a TV Globo
não noticia. E as cotas que resultam de um consenso entre
estudantes, professores e funcionários de uma universidade?
Eles
são contra, até porque são contra a
autonomia
universitária e os livros didáticos que
não
reproduzem o dogma ministerial.
"Remoção de favela provoca
congestionamento recorde", diz a manchete do caderno Cotidiano, da
Folha. É jornalismo mauricinho, em que o
automóvel vale
mais que gente. Fiz as contas e, na ponta-do-lápis descobri
que,
no meu caso, é mais barato não ter
automóvel do
que tê-lo em São Paulo. Vendi o meu, para espanto
de
amigos. Dá para andar a pé, de metrô,
de
táxi e de ônibus. Menos stress. Menos gasto. Mais
saúde (?) Ganhei duas horas por dia para ler.
O trânsito afeta ricos, pobres,
negros, brancos,
favelados e dondocas. É um CAOS. Mas caos, no Brasil,
é
palavra reservada para problemas federais: caos aéreo, por
exemplo.
Por todos os motivos que apontei acima, o
espaço entre o Jornalismo da mídia corporativa e
o Brasil
real só faz crescer. O compromisso "deles" é de
falar e
escrever para "eles". E, embora a favela veja a Globo, a Globo faz de
conta que não vê a favela. Nem acho que isso
prejudique a
audiência, uma vez que depois de duas horas chacoalhando num
ônibus tem muita gente feliz de embarcar numa realidade
paralela.
Seria simplista dizer que a Globo é
contra as
favelas. No Rio de Janeiro a política editorial da empresa
é claramente favorável à
estratégia de
confronto militar do governador Sérgio Cabral, que tem e
dá apoio ao governo Lula. O Ministério do
Vício da
emissora, como escrevi acima, já se manifestou por escrito
contra a urbanização das favelas. Não
pediu a
remoção, mas se é contra a
urbanização qual é a proposta? Rever a
política que atrai gente para a periferia das grandes
cidades?
Debater as políticas regionais brasileiras? Fazer a reforma
agrária? Descentralizar o poder econômico? Nada
disso
é debatido na TV brasileira. Os melhores debates
estão,
por incrível que pareça, na TV Câmara e
na TV
Senado, embora os atores sejam péssimos.
Minha esperança é ver
alguns
gatos-pingados inconformados. É um favelado que vai na
lanhouse.
Outro que se forma na universidade. O pobre começa a ter
acesso
a outras fontes de informação. O cara que compra
a Veja
também compra a Carta Capital. O leitor da FolhaOnline
descobre
o Fazendo Media, do Marcelo Salles. O Brasil vai mudando, ainda que
devagar, sob os pés dessa gente. Eu me divirto ao ouvir,
através de amigos, o terror causado pelo Picapau, o desenho
animado campeão de audiência. Fica todo mundo sem
entender
direito o fenômeno. Já perguntaram a quem assiste
o
Picapau? Perguntar? Eles não perguntam nada. As respostas
já estão todas prontas.
A fórmula deles é simples:
eles falam e a gente escuta. Eles decidem e a gente obedece.
(*)
Luiz Carlos Azenha é jornalista, foi
repórter da TV Globo e hoje edita o sítio Vi
o Mundo (www.viomundo.com.br).