
Editora: Raquel Junia - raquel@fazendomedia.com
20.10.2006
VIVA A CRIANÇA VIVA
Manifestação pacífica contra a violência policial mobiliza centenas de moradores da favela da Maré no Dia das Crianças; mídia grande, mais uma vez, distorce os fatos

Texto: Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Fotos: Ratão Diniz/Imagens do Povo
Dez pra uma da tarde, passarela nove da Avenida Brasil. Na entrada da Rua Teixeira Ribeiro há três PMs fortemente armados com fuzis. O mulato parece ter os olhos fixados no final da rua, como se isso fosse possível, dado o enorme número de pessoas que circulam por ali, nesse vai-e-vem ininterrupto que caracteriza a "Teixeira", uma das principais vias de acesso à favela Nova Holanda, no Complexo da Maré. O branco fala ao rádio enquanto vira em todas as direções, atento, e o negro se escora no muro da esquina. Todos mantêm o dedo no gatilho.
Um morador se aproxima e avisa: "Já estão fechando". "Por quê?", quero saber. "Por causa do feriado".
Sigo pela "Teixeira" até à Rua Principal. No caminho, noto a incrível concentração de pessoas, que dividem o pouco espaço das calçadas e da própria rua, desviando vez por outra de eventuais motos, carros e bicicletas. No comércio da "Teixeira" tem de tudo um pouco. Desde lojinhas com atendentes uniformizados até camelôs vendendo de mamão a CDs, passando por uma dessas pastelarias dirigidas por chineses.
Lá no final viro à esquerda e chego à Praça Nova Holanda, onde moradores levantam as primeiras faixas, cartazes e balões azuis e brancos. Um dos cartazes registra o tom da manifestação: "Dia das crianças: nada pra comemorar".

Brincando de boneca; no fundo, a passeata segue
Não há nada para comemorar nesse doze de outubro porque num período de apenas quinze dias cinco crianças foram mortas em ações da polícia, todas em favelas cariocas. Lohan Santos, no Borel, Guilherme Morais, no Guarabu, Pablo Chaves, em Vigário Geral, Renan Ribeiro, na Maré e Moisés Tinim, no Complexo do Alemão. Três deles foram atingidos por tiros de fuzil, sendo que Renan tinha três anos de idade.
Como não dava para a polícia dizer que uma criança dessa idade estava associada ao tráfico, disseram que Renan foi atingido por uma bala perdida, versão embalada pela mídia grande. Mesmo que houvesse uma centena de testemunhas, como havia, alegando que o disparo partiu da arma de um policial, as manchetes do dia seguinte estamparam os dizeres tão freqüentes quanto mentirosos: "morreu de bala perdida após troca de tiro com o tráfico".
O historiador Marcelo Freixo, da ONG Justiça Global, enfatiza que essa política de segurança pública do Rio de Janeiro prejudica, além dos moradores de favelas, os próprios policiais. "É necessário entender que essa política de segurança é calcada na idéia da guerra. O estado não garante educação, não garante saúde, não garante nenhum direito fundamental para os moradores das favelas, mas entra sistematicamente com a polícia, que entra pro confronto, entra pra matar ou morrer. E, nessa lógica, inúmeras pessoas da comunidade vão morrendo, inúmeros policiais vão morrendo e não se reduz a criminalidade".

Moradores observam a passeata na Avenida Brasil
É contra essa política de segurança que os cerca de mil manifestantes se levantaram no dia das crianças. A passeata, pacífica, levou o sugestivo nome "Viva a criança viva" e partiu da Nova Holanda, passou pela Baixa do Sapateiro, Parque União, Rubem Vaz e retornou à Praça Nova Holanda.
No trajeto, a marcha fechou uma pista da Avenida Brasil durante aproximadamente uma hora. Foi aí que as equipes da mídia grande começaram a chegar. A repórter da TV Bandeirantes ficou repetindo o texto pra ela mesma por uns 40 minutos, desde a saída da Nova Holanda até a entrada no Parque União.
Pouco antes do início da gravação, retocou a maquiagem com esmero. Ao que o professor de fotografia Dante Gastaldoni ironizou: "a preocupação com a beleza é fundamental". Enquanto ela tentava gravar a "cabeça" de sua reportagem (um dos trechos da matéria telejornalística), ora pedia para que os manifestantes parassem, ora pedia que andassem vagarosamente. Em todas as suas dezesseis tentativas ela foi prontamente atendida.
Marcelo Salles/fazendomedia.com

A repórter da Band segurou o passo para retocar a maquiagem; podia ter pedido ajuda à Miriam Griff, logo ali; abaixo, uma das inúmeras tentativas de gravar a reportagem

Infelizmente, o retorno que ofereceu aos manifestantes não esteve à altura. Falando baixo, próximo ao microfone, foi preciso chegar muito perto para ouvir suas palavras: "Diante dos apelos o dia das crianças foi tranqüilo. Não apresentou surpresas para quem acompanhou a manifestação. Bem diferente de quando a candidata Heloísa Helena teve que desviar seu caminho por imposição do tráfico local".
Com isso, a Bandeirantes passou longe de informar algo próximo à realidade que se desenrolava naquele momento. A conjunção da repórter liga "os apelos dos moradores" à "violência do tráfico", quando na verdade a manifestação era contra a violência policial.
A reportagem da TV Record seguiu pelo mesmo caminho. Eis o que disse a moça, que pisava o solo da favela com saltos e tailler de gala, cor-de-rosa: "Essa manifestação foi convocada para tentar conter a violência. Essa semana cinco crianças foram mortas por balas perdidas na guerra entre a polícia e o tráfico".
Mais uma vez o telespectador é ludibriado, pois aquela manifestação foi convocada especificamente contra a violência policial, e não contra a instituição "bala perdida" ou a "guerra entre a polícia e o tráfico".
Bira Carvalho é fotógrafo e morador do Complexo da Maré. Esteve na manifestação e deu sua opinião sobre a passeata: "O objetivo é evitar que mais mortes se façam em vão, mano. Que o governo, o Estado como um todo, continue vendo boa parcela dos cidadãos como marginais e maus elementos. O que queremos aqui é exigir nossos direitos, o que está na Constituição, direito à vida, à educação, à cultura, tudo o que a gente tem direito e foi negado por anos. Eles só se fazem presentes através da violência, é isso que a gente tenta mostrar hoje, através de um ato pacífico: queremos diálogo e não violência".
Um dos elementos mais criticados dessa política de segurança pública é o uso do caveirão, carro blindado da polícia utilizado para incursões em favelas. A própria estrutura do veículo agride o bom senso. Em sua lataria há o desenho de uma enorme caveira (daí o apelido), há orifícios na blindagem para armamento pesado, de seu alto-falante ouve-se uma gravação ofensiva que intimida os moradores ("vim buscar sua alma"), além de ter sido projetado para matar, já que não há espaço interno para que o criminoso seja detido.

Portão do 22º Batalhão de Polícia, que fica dentro da Maré
É evidente que os traficantes não são bonzinhos. Os traficantes são bandidos e devem ser tratados com o rigor da lei. Mas não é porque são bandidos que podem ser executados pelo Estado. Até porque as pessoas que transgridem as leis o fazem, em grande parte, pela omissão do próprio Estado, que não garante os direitos fundamentais aos cidadãos brasileiros, sobretudo àqueles economicamente menos favorecidos.
Os manifestantes terminaram seu protesto em frente ao 22º Batalhão de Polícia, onde fizeram um minuto de silêncio e cantaram o hino nacional.
E nesse doze de outubro, do início ao final da passeata era possível ouvir as crianças da Maré cantando a plenos pulmões: "Não, não, não. Não ao caveirão! Eu quero meu dinheiro na saúde e educação". Crianças como Renan, que dormem hoje sem saber o que pode acontecer amanhã.
Depoimentos colhidos durante a manifestação
Bira Carvalho (fotógrafo e morador da Maré): pra evitar que mais mortes se façam em vão, mano. Que o governo, o Estado como um todo continue vendo boa parcela dos cidadãos como marginais e maus elementos. O que queremos aqui é exigir nossos direitos, o que está na Constituição, direito à vida, à educação, à cultura, tudo o que a gente tem direito e foi negado por anos. Eles só se fazem presentes através da violência, é isso que a gente tenta mostrar hoje, através de um ato pacífico que queremos diálogo e não violência.
Marcelo Salles/fazendomedia.com
 Bira Carvalho (em primeiro plano) cobriu a manifestação
Chico Alencar (deputado federal, PSOL-RJ): Graciliano Ramos dizia que o povo não tem amigo; o melhor amigo do povo é o próprio povo organizado. Então esse ato do povo esquecido, abandonado, reprimido e assassinado da Maré, que começa aqui na Nova Holanda, é um sinal de que o povo tá aprendendo a ser amigo de si próprio. E nós, que tentamos ajudar nessa organização do povo, temos que estar aqui solidariamente e dizendo com alegria que a morte não vai ter a última palavra, nem essa polícia que, na verdade, alimenta o próprio crime, quando ela mesma é criminosa. Nós vamos vencer.
Marcelo Braga (membro da Rede Contra a Violência): Um ato... Mais um ato, o que mostra nossa triste realidade e infelizmente uma certa falta de perspectiva. O que fica claro nesse ato é que a transformação que pode ocorrer na sociedade não virá através da conciliação de classe. Mais uma vez a gente vê um ato importante, mas um pouco distanciado da comunidade. Essa nossa tentativa, na verdade, importante, não vai nos levar a uma transformação real. Eu não acredito nessa conciliação. Acho que esse povo é que, por conta própria, um levante desse povo, sem a nossa participação, é que vai transformar essa sociedade. Porque nós efetivamente, por mais que a gente participe, no fundo, nosso inconsciente burguês não permite a real transformação, porque aí, nós teríamos que destruir e combater a nossa própria classe. E na verdade, no nosso íntimo mais profundo, nós não aceitamos isso. A atuação da polícia reforça essa análise porque ela cumpre o papel que nós, que a classe média burguesa deu pra ela. Obviamente é isso. Enquanto nosso jovem da zona sul consome drogas à vontade, fazem o que querem, a polícia mantém a tranqüilidade dessa juventude reprimindo e matando nas favelas.
Jaílson de Souza (Diretor do Observatório de Favelas): É fundamental a favela começar a se mobilizar de forma articulada com diferentes setores da sociedade, com diferentes setores políticos, diferentes forças sociais. Então quando a gente consegue reunir um grupo absolutamente plural de pessoas, das mais diferentes posições, com a perspectiva de construir uma política de segurança urbana comprometida com a vida, comprometida com a dignidade humana, é um grande salto e que a partir daí a gente consiga criar muito mais condições para humanizar essa cidade, para humanizar essa polícia, para humanizar a vida. Então é uma grande vitória.
Alessandro Molon (deputado estadual, PT-RJ): Acho que foi uma passeata vitoriosa, porque ela de forma pacífica conseguiu fazer um protesto não contra a polícia, mas contra a política de segurança pública que vem sendo implementada aqui no estado, que tem vitimado crianças pobres, jovens negros, moradores de comunidades, e até policiais. É uma política de segurança pública que não traz segurança a ninguém. Ao contrário, só gera mais insegurança, mais violência, mais revolta, mais dor. Enfim, o contrário daquilo pra que existe o estado. Então eu acho que foi uma vitória muito grande da comunidade, daqueles que organizaram a manifestação das entidades todas. Nós viemos aqui prestar nossa solidariedade. E dizer que nós estamos juntos, que nosso mandato está a serviço da luta por justiça social, por igualdade, por respeito à vida e por segurança pública. Todo cidadão tem direito a isso. Não importa a classe a que ele pertence. Não importa o lugar da cidade onde ele mora. De onde quer que ele tenha vindo, onde quer que ele esteja, seja lá qual for sua profissão ou o tamanho de sua conta bancária, ele tem direito à vida e à segurança. E tem direito a criar seus filhos com dignidade. Por isso nós estamos aqui.
Marcelo Freixo (deputado estadual, PSOL-RJ): O ato foi muito bem sucedido. Muito bom ver que no dia das crianças, onde uma boa parte das crianças brasileiras estão indo pra shopping, estão indo pra restaurantes com seus pais, estão ganhando presentes, estão nessa lógica "feliz dia das crianças", é importante saber que inúmeras crianças, centenas de crianças da favela da Maré, uma favela muito importante na história do Rio de Janeiro, vão pras ruas e pedem paz. Com apoio de moradores de fora da Maré, com apoio de organizações, mas fundamentalmente um movimento feito por moradores da Maré, por organizações que trabalham aqui dentro. É muito importante saber que essa luta didática, pedagógica, da construção de uma visão de segurança pública que não seja a visão da guerra, e olhar as crianças gritando "não quero caveirão, quero meu dinheiro na saúde e educação", isso é muito simbólico. É necessário entender que essa política de segurança que existe no Rio de Janeiro há mais de oito anos, ela é calcada na idéia da guerra. Ela é baseada na idéia do conflito. O estado não garante educação, não garante saúde, não garante nenhum direito fundamental pros moradores das favelas, mas entra sistematicamente com a polícia. É óbvio que essa polícia não pode entrar para garantir direitos. Ela entra pro confronto, entra pra guerra, entra pra matar ou morrer. E nessa lógica, inúmeras pessoas da comunidade vão morrendo, inúmeros policiais vão morrendo e a criminalidade não se reduz, e a eficácia da política de segurança é muito pequena. Então é necessário mudar o princípio. É necessário uma política de segurança que seja baseada na segurança de todas as pessoas, a partir das principais vítimas da violência, que são os moradores de favelas. Vítimas, de um lado do tráfico, e de outro lado de uma polícia bastante violenta.

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