
18.05.2007
CUBANOS REALIZAM CONVENÇÃO NO RIO
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Uma grande bandeira de Cuba e um cartaz com as imagens sobrepostas de Fidel Castro e José Martí saudavam os participantes da 1ª Convenção Nacional de Cubanos Residentes no Brasil, realizada entre 4 e 6 de maio no Colégio Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, Zona Sul do Rio de Janeiro.
A iniciativa foi organizada pela Associação Nacional dos Cubanos Residentes no Brasil (Ancreb) e teve início com uma apresentação de salsa na loja de discos Modern Sound, em Copacabana. Nos dias seguintes, 5 e 6 de maio, cerca de cem pessoas participaram de conferências, debates e comissões de trabalho que discutiram identidade cultural, soberania dos povos e intercâmbios científicos e comerciais entre Cuba e Brasil.
Magdalena Torbisco, presidente da Ancreb no Rio, deu as boas vindas aos participantes e anunciou que esta primeira convenção seria dedicada aos cinco cubanos presos nos EUA há nove anos e mantidos ilegalmente incomunicáveis, sem nem mesmo poder receber a visita de familiares e advogados. Em homenagem à esses conterrâneos, foi feito um minuto de silêncio.
Em seguida, foram celebrados os hinos nacionais de Brasil e Cuba, sendo este último cantado a plenos pulmões pelos participantes. A presidente da Ancreb no Rio passou então a palavra ao embaixador de Cuba no Brasil, Pedro Nuñez Mosquera, que falou sobre os três mil cubanos que vivem em solo brasileiro. "Mais de 70% dos cubanos residentes no Brasil possuem nível universitário e mais de 70% estão na faixa dos 55, 60 anos. O Brasil é o segundo maior sócio comercial de Cuba, com 454 milhões de dólares anuais", disse.
Integração Brasil-Cuba
Mosquera também observou que se trata de "uma comunidade de patriotas, que lutam contra o bloqueio econômico e rechaçam as manipulações da mídia burguesa a respeito dos assuntos relativos a Cuba. O que está em jogo em Cuba é um sistema de justiça social e o orgulho que temos da história desse pequeno país de 11 milhões de habitantes, que até hoje serve de exemplo para muitos países", afirmou o embaixador, para depois completar: "Nossa integração cultural está se aprofundando. O Prêmio Casa das Américas conta com centenas de escritores brasileiros e temos 30 apresentações de balé em 11 cidades. Além disso, há três municípios que utilizam o método de alfabetização "Sim, Eu Posso", reconhecido pela UNESCO e que recentemente eliminou o analfabetismo na Venezuela.
Após a intervenção do embaixador, que posteriormente sentou-se entre os participantes e ouviu com atenção todos os pronunciamentos, o microfone foi aberto para que cubanos e brasileiros ali presentes se expressassem. Uma dessas manifestações foi de Marina Machado, economista de 25 anos e coordenadora do movimento de solidariedade a Cuba em São Paulo. "Somos o mesmo povo, nossa colonização foi muito parecida. Todos os cubanos aqui sentados nessa sala poderiam ser brasileiros, nós temos a mesma cara. Até a salsa é muito parecida com o samba", avaliou, para depois destacar que "o Brasil tem muito a aprender com Cuba. No Brasil, muitas pessoas sofrem de desnutrição. Em Cuba não há desnutridos. No Brasil, 60% são iletrados. Em Cuba, não há iletrados".
Outra participação marcante foi a de Zuleide Faria de Melo, presidente da Associação Cultural José Martí e professora da UFRJ, para quem a realização da I Convenção dos Cubanos Residentes no Brasil é um marco histórico das relações Brasil-Cuba. "Cuba é o único país do mundo verdadeiramente socialista, e está mostrando que é possível resistir ao império com a dignidade e a força do seu povo. Os companheiros cubanos são todos nossos irmãos", afirmou. Zuleide também lembrou que a próxima Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba será realizada no Rio de Janeiro, em maio de 2008, e ao final de sua intervenção, foi aplaudida de pé.
Acima das expectativas
Sobre o evento em si, a professora Zuleide parabenizou os organizadores. "Foi com alma tranqüila, não houve nenhum tropeço. Houve um clima de camaradagem, isso ficou claro na festa à noite. Os cubanos ficaram muito satisfeitos, houve um tratamento muito respeitoso. Acho que tudo foi conduzido muito bem. O resultado foi acima do esperado". O escritor cubano Tirso Saenz, que foi assessor de Che Guevara no Ministério da Indústria e hoje reside no Brasil, concorda com essa avaliação. "O evento foi muito maior do que eu pensava. Temos delegados de 9 estados", disse.
Após essa primeira parte de manifestações dos participantes, chegou a vez da conferência de Luis Molina, subdiretor de Assuntos Consulares e Cubanos Residentes no Exterior. Logo no início, ele criticou a cobertura das corporações de mídia a respeito de seu país. "CNN, Reuters, AP e demais transnacionais da informação trabalham tão sutilmente, tão cotidianamente, que as manipulações contra Cuba passam despercebidas". Molina também disse que "o socialismo abre a possibilidade para que todos sejam iguais, mas também para que todos sejam diferentes. Que todos tenham acesso ao básico para que desenvolvam suas potencialidades".
Uma das perguntas apresentada a Luis Molina veio de um professor cubano que vive e trabalha na Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos dos Goitacazes, região norte do Estado do Rio. Ele disse que sofreu um choque cultural quando visitou Cuba pela última vez. "Os jovens de agora desejam artigos de empresas multinacionais, antes não era assim". Molina ressaltou que esse é um problema real, mas que aconteceu devido à necessidade de atrair dólares para o país.
Essa e outras questões foram tratadas pelas comissões de trabalho. Durante o evento, ficou evidente que Cuba é um país que tem muitos problemas, como qualquer outro. Muitos deles, sem dúvida, originados pelo bloqueio econômico imposto pelos EUA, que já causou prejuízos da ordem de US$ 82 bilhões. Nesse sentido, os brasileiros solidários a Cuba e os cubanos residentes no Brasil vêem com bons olhos o surgimento da Associação Nacional dos Cubanos Residentes no Brasil (Ancreb). Seus objetivos fundamentais são: fortalecer os laços culturais e comunitários e os sentimentos de solidariedade com o povo cubano e entre os cubanos residentes no Brasil; aprofundar e ampliar os laços de amizade e cooperação entre os povos e governos de Brasil e Cuba; promover, divulgar e difundir a cultura cubana; desenvolver e preservar as raízes culturais e da comunidade cubana residente no Brasil, além de promover a realização de seminários, simpósios, cursos, conferências, concursos e workshops, entre outros eventos para divulgar e propagar os valores nacionais cubanos e brasileiros.
A Ancreb também se propõe a promover o intercâmbio cultural, educacional, científico, tecnológico e comercial entre as sociedades brasileira e cubana; manter um diálogo permanente sobre os aspectos migratórios que são do interesse dos cubanos que residem fora de Cuba; defender os princípios da soberania nacional, da autodeterminação dos povos e da paz mundial e dos direitos humanos fundamentais do homem em qualquer lugar do mundo.