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Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com


17.05.2006
SOBRE O BRASIL QUE NÃO PASSA NA TV, MAS PASSA NO CINEMA

Por Denílson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br

Dois filmes brasileiros que tiveram carreira meteórica nos cinemas nacionais podem fornecer enorme contribuição para uma reflexão sobre o medo e a violência urbana que tomaram conta de São Paulo nos últimos dias. Evidentemente trata-se de uma contribuição que não se enquadra na sede imediatista por respostas e soluções que em geral toma conta dos debates travados sob o calor dos acontecimentos. Aliás, um imediatismo alimentado por boa parte da grande imprensa nesses momentos. Basta ligar a televisão e lá está um telejornal entrevistando algum especialista no tema em desesperada busca por soluções.

Se você, leitor, já sabe que não existem soluções "mágicas" capazes de resolver um problema secular como esse e que não vamos encontrar nenhum especialista ou autoridade com a receita definitiva para o caos em que mergulhamos, analisemos então possíveis caminhos para uma reflexão ponderada, à luz desses filmes já disponíveis em DVD.

No Ônibus 174, o diretor José Padilha toma como ponto de partida um episódio típico de violência urbana. No dia 12 de junho de 2000, um bandido mantém por várias horas alguns reféns dentro de um ônibus, em plena rua Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. O seqüestro arrasta-se pela tarde daquele dia dos namorados e as emissoras de TV pouco a pouco passam a fazer a cobertura ao vivo do caso. Assim, tanto o povo que aglomerava-se nas imediações do local quanto o espectador confortavelmente instalado na poltrona de sua casa passam a compartilhar o mesmo desejo de vingança ou, quiçá, de um linchamento - caso o seqüestrador consiga sair vivo do ônibus.

A genialidade do filme está na tentativa de responder a algumas indagações que o julgamento apressado dos fatos normalmente não nos permite fazer. Afinal, quem é aquele seqüestrador? Como ele chegou até aquele ônibus? O que o teria levado a promover o seqüestro? De que maneira sua trajetória de vida pode explicar as motivações de um gesto tão violento, brutal e extremado?

Respondendo habilmente a essas perguntas é que Padilha sensibiliza o espectador para a imperiosa necessidade de humanizar o bandido, cujo nome era Sandro Rosa do Nascimento. Não, o seqüestrador não era um monstro insensível e bárbaro, um vilão convicto e incorrigível, a encarnação do mal. O filme desvenda o interior da fábrica de crimes que tornou-se a sociedade em que vivemos. E o diretor ilumina as sutis engrenagens que produziram e continuam a produzir inúmeros Sandros, como talvez tenhamos observado nos últimos acontecimentos que marcaram São Paulo.

Longe de absolver ou condenar Sandro, Ônibus 174 explica de onde ele veio e como chegou até ali, momento derradeiro e trágico de sua breve história de vida. Menino pobre da periferia do Rio de Janeiro, cuja paternidade jamais foi assumida, assistiu à mãe - grávida do seu irmão - ser assassinada com uma faca numa birosca em que ela trabalhava. Traumatizado, ganhou as ruas, perambulou por Copacabana e Centro, onde milagrosamente sobreviveu à Chacina da Candelária, em 1993. Daí por diante, alternava períodos de liberdade vivendo nas ruas da cidade e detenções em decorrência de pequenos delitos - através dos quais sustentava o vício da cocaína. Quando protagonizou o famoso seqüestro, supõe-se que estava pra lá de entorpecido pela droga, já que em nenhum momento soube explicar o que desejava em troca da libertação das reféns.

Já em Quanto vale ou é por quilo?, o diretor Sérgio Bianchi foi buscar em Machado de Assis a inspiração para melhor compreender a miséria dos dias atuais. O filme é uma adaptação livre do conto machadiano Pai contra mãe e desnuda as estratégias contemporâneas que nos fazem pensar sobre até que ponto a escravidão guarda inúmeras similaridades com o tempo em que vivemos.

Bianchi já havia nos mostrado um país Cronicamente inviável - título de seu filme anterior -, que em Quanto vale ou é por quilo? surge ainda mais perturbador. A analogia entre o capitão-do-mato que ganha a vida caçando escravos fugidos no século XVIII e o justiçamento praticado nas favelas e periferias das grandes cidades é no mínimo instigante. Será que tanto no passado colonial e escravista como no alvorecer desse século XXI, as engrenagens do sistema continuam fazendo os pobres eliminarem-se uns aos outros, para regozijo das elites?

Esse filme também tem o mérito de escancarar diante de nossos olhos uma certa indústria da solidariedade e do voluntariado, como se o fim da pobreza e da miséria dependesse apenas de uma atitude mais solidária de cada cidadão. Na verdade, Bianchi desmascara o grande negócio (business mesmo!) em que se transformou o combate a toda sorte de pobreza e exclusão no país, travestido na forma de bem intencionadas ONGs ou no chamado Terceiro Setor.

As obras cinematográficas de Padilha e Bianchi unem-se no inquietante questionamento sugerido pelo título do filme deste último: quanto vale a vida do homem nesse Brasil? Até quando vamos continuar tropeçando em Sandros pelas esquinas do país e transformando a pobreza num grande negócio? Ou é por quilo mesmo?

(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.

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