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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



15.11.2007
FÉ E POLÍTICA MOVEM CINCO MIL PESSOAS PARA A BAIXADA FLUMINENSE

Por Raquel Junia - raquel@fazendomedia.com

Enfeitando o palco, a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao lado, um tecido tradicional da Bolívia e Peru, no chão, uma cruz, no painel do fundo a imagem oficial do encontro: uma criança indígena, outra trabalhando, meninos jogando capoeira, um pé descalço em contato com a terra, um conglomerado de casinhas que lembram uma favela...

“Pelos caminhos da América Latina, uma nova Terra” foi o tema do 6º Encontro Nacional Fé e Política, realizado nos dias 10 e 11 de novembro, em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Cerca de cinco mil pessoas de vários cantos do Brasil participaram do evento.

Fé e Política
Na manhã do primeiro dia de encontro, Frei Betto comenta sobre a oração do Pai Nosso, que possui duas partes, a primeira iniciada pela própria frase que dá nome à oração “Pai Nosso” e a segunda pela frase “O pão Nosso”. “Só temos direito de chamar Deus de Pai, se o pão não for só meu”, comenta, aplaudido pela multidão.

Outros comentários do padre também resultaram em aplausos eufóricos. Ele comparou a família sagrada – Maria, José e Jesus – com uma família Sem Terra, já que de acordo com a história bíblica José e Maria não tinham lugar para ficar em Belém, onde Jesus nasceu e tiveram que ocupar a estrebaria (lugar onde se guarda animais) de uma casa, contra a vontade do proprietário. “É por isso que todos os anos minha mãe coloca no presépio de natal uma bandeirinha do MST”,diz.

Juntamente com Frei Betto, fizeram parte da mesa do dia 10 “Caminhos de Libertação na América Latina”, o membro da Coordenação Nacional do MST, João Pedro Stédile e a socioeconomista Sandra Quintela.

João Pedro Stédile falou sobre o que ele considera uma momento de “crise e transição” na América Latina, crise do modelo neoliberal e transição para outro tipo de sociedade. “Falaram que o Neoliberalismo era o fim da história, mas o povo se deu conta de que o neoliberalismo é um engodo, porque falta moradia, falta escola. Então, o povo se deu conta disso e votou nos candidatos anti-neoliberais”.

Para João Pedro, atualmente existem três modelos de governos na América Latina. O primeiro modelo seria o de governos com programas populares como os de Cuba, Nicarágua, Equador, Bolívia e Venezuela. Os componentes do segundo tipo de modelo caracterizado por “governos de composição” seriam Brasil, Argentina, Uruguai, Guatemala, Haiti e Jamaica. Por fim, o terceiro modelo, “governos onde o povo ainda não conseguiu derrotar o neoliberalismo nem nas eleições” compreende Chile, Paraguai, Peru e México.

“A Bachelet (Michele Bachelet, presidente do Chile) é o Fernando Henrique Cardoso de saias”, comenta.

A sangria dos países da América Latina
Sandra Quintela lembra a visita do arcebispo Dom Paulo Arns à Cuba em 1995, quando, na ocasião ele disse: “O problema da dívida externa é fundamentalmente político”. A economista lembra também que pelos dados de 2006 a dívida externa da América Latina é de 742 bilhões e que de 1986 a 2006, dois trilhões e meio foram pagos pela América Latina correspondentes aos serviços da dívida.

Sandra explica de maneira pedagógica o que significa números tão altos. “Se começarmos a contar, 1, 2, 3... levaríamos 12 dias contando um milhão. Para chegarmos a um bilhão levaríamos 36 anos contando! Entre janeiro e julho desse ano, 100 bilhões de reais foram destinados ao pagamento da dívida brasileira”.

Para ela, a dívida já foi paga inúmeras vezes. Sandra comenta que a exportações brasileiras financiam esse pagamento e que os brasileiros não escolheram contrair essas dívidas. Os responsáveis pelas dívidas, segundo a economista, são os regimes militares em toda a América Latina. Ela elogia a atitude do governo equatoriano em decidir recentemente fazer uma auditoria oficial da dívida do Equador.

Comunidades de fé e política
De sábado à tarde até domingo pela manhã, os participantes do encontro se dividiram em comunidades onde temas específicos foram debatidos. 27 plenárias temáticas foram realizadas em localidades diferentes. “Ética na política e da política”, “Arte e Cultura na Transformação Social”, “Mística e Espiritualidade na Militância Política”, “Promoção da Igualdade Racial: polêmicas e avanços”, “Novas Fronteiras na Teologia da Libertação”, “Agroecologia e Agronegócio: Luta pela Terra” foram alguns dos temas das plenárias.

Os moradores dos locais, com o auxílio da coordenação do evento, ficaram responsáveis pela acolhida dos participantes, incluindo alimentação e hospedagem.

Japeri abrigou a Plenária “Educação Popular: Desafios e Perspectivas”. Ainda no ônibus que levou os interessados na temática de Nova Iguaçu para o município, a “guia” da viagem, uma representante da comunidade mostrava a cidade e comentava: “nossa cidade tem o menor IDH do Rio de Janeiro”.

O grupo foi para o Colégio Estadual Almirante Tamandaré. Já no almoço, a calorosa acolhida dos moradores de Japeri se fez notar: “Tá gostoso o almoço, gente?”. “Daqui a pouco vai sair um cafezinho, tá?”, falavam sorridentes as senhoras e rapazes responsáveis pela alimentação.

A discussão sobre Educação Popular não ficou apenas na teoria. A condução da plenária já foi em si uma prática de Educação Popular por meio do método do educador brasileiro Paulo Freire. O espaço resultou em compartilhamento de experiências, construção de conceitos e idéias para a consolidação desse modelo educativo. Alguns desafios foram levantados como a necessidade de democratizar os meios de comunicação.

O calor da acolhida se concretizou quando anoiteceu o dia, em grupos os participantes foram sendo levados para o banho na casa das famílias da comunidade. Mais tarde, após um momento de confraternização com música e dança, os responsáveis pela acolhida anunciavam ao microfone: “pessoal, a Paula está indo para a casa dela e avisa que há lugar em sua casa para dez pessoas”.

Encerramento homenageia lutadores
No domingo, Dom Pedro Casaldáliga, bispo aposentado da Prelazia de São Felix do Araguaia, no Xingu, foi homenageado. Dom Pedro é conhecido pela luta ao lado dos indígenas e pela Reforma Agrária e falou por telefone no instante da homenagem.

Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, falecido em 1996 também foi homenageado. Dom Adriano foi responsável pela criação do Centro de Direitos Humanos da Baixada Fluminense, que a partir desse 6º Encontro Nacional Fé e Política tem o seu nome. Episódios da vida do bispo foram contados. Ele foi perseguido durante a ditadura militar, em 1976 foi seqüestrado por um grupo paramilitar e espancado. Na ocasião, Dom Adriano foi encontrado nu e pintado de vermelho distante de Nova Iguaçu, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

A mesa final contou com o monge beneditino Irmão Marcelo Barros, a pastora Metodista Kaká e o teólogo Leonardo Boff. O evento foi encerrado com uma celebração ecumênica. Os nomes de lutadores e lutadoras mortos da América Latina foram pronunciados e após cada nome os presentes respondiam: “Presente em nossa caminhada”.


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