
CAPIBERIBE: CASSADO E AMORDAÇADO
Por Marcelo Salles, 14.12.2005
Os jornais de hoje não deram muita importância para a perda do mandato do senador João Capiberibe (PSB-AP). Na Folha saiu uma notinha de 707 caracteres (reproduzida abaixo); n'O Globo, nem uma linha. A medida aprovada pela Mesa Diretora e pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado foi a segunda tentativa de interromper o mandato de Capiberibe, sendo que da outra vez o ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio de Mello, concedeu liminar favorável ao senador.
A Folha assinala que Capiberibe é acusado de comprar dois votos por R$ 52,00 nas últimas eleições, mas não lembra a seus leitores que o Tribunal Regional Eleitoral o havia inocentado. Na nota, o jornal informa que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou o mandato de Capiberibe e sua esposa, Janete Capiberibe, no dia 27 de abril de 2004. Mas, talvez por falta de espaço, a Folha não oferece a seus leitores o outro lado e omite que, segundo a defesa do senador, as duas mulheres que receberam os R$ 26,00 confirmaram na Polícia Federal que foram pagas para depor contra o casal.
Em nome da democracia e da imprensa livre que dizem existir no Brasil, seria importante que os jornais contextualizassem a questão, lembrando, por exemplo, que o mesmo TSE que cassou o mandato dos Capiberibe pela acusação de compra de votos no valor de R$ 52,00 inocentou o governador de Brasília, Joaquim Roriz, acusado de ter "investido" R$ 46 milhões em compra de votos.
Igualmente interessante seria recordar a seus leitores sobre a amizade dos senadores José Sarney (PMDB-AP), Gilvam Borges (PMDB-AP) e Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Este é presidente (só no Brasil mesmo) da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, por onde passou o processo de cassação. Borges é o beneficiário direto da perda do mandato de Capiberibe, pois assume em seu lugar, o que garante a Sarney o aumento de sua bancada no Senado.
Se nada disso fosse possível, seria pelo menos humano lembrar aos leitores que João Capiberibe está de licença médica em razão de problemas cardíacos, tendo sido recentemente submetido a uma angioplastia, procedimento bastante delicado. Mesmo assim, articulou sua defesa junto aos advogados, que garantem que a decisão do TSE ainda poderá ser contestada no Supremo.
É claro que também seria exagero pedir para que os jornais lembrassem da trajetória política do casal Capiberibe, marcada por projetos de desenvolvimento sustentável e questões ligadas ao meio ambiente. Como também está fora de cogitação imaginar uma possível recordação de que seus algozes políticos de hoje foram abençoados pela mesma ditadura que combateram ontem.
Em resumo: Capiberibe foi cassado pelo TSE e amordaçado pela mídia corporativa.
PS - A Folha também não incluiu em sua nota que, caso realmente perca o mandato, Capiberibe não perderá os direitos políticos, pois trata-se de uma decisão judicial e não de uma votação do Congresso.
Veja abaixo a nota da Folha de S. Paulo publicada hoje, 14 de dezembro de 2005:
Senado cassa de novo mandato de Capiberibe
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A Mesa Diretora do Senado determinou ontem, pela segunda vez em 47 dias, a cassação do mandato do senador João Capiberibe (PSB-AP) em cumprimento a decisão da Justiça Eleitoral. Gilvam Borges (PMDB-AP) deve tomar posse hoje no lugar dele.
O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) cassou o mandato de Capiberibe e da mulher dele, a deputada Janete Capiberibe (PSB-AP), em 27 de abril de 2004. Capiberibe foi acusado de pagar R$ 52,00 a duas eleitoras em troca de voto.
O casal recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal), mas o tribunal manteve a cassação. Em 26 de outubro passado, Gilvam Borges tomou posse. Uma liminar do Supremo permitiu, porém, que Capiberibe reassumisse o mandato para se defender no Senado.
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