
14.10.2007
VIGÁRIO GERAL COMPLETA 97 ANOS
Por Eduardo Sá
A comunidade do Vigário Geral comemorou no dia 4 de outubro seus 97 anos de existência numa solenidade realizada na APAC, órgão cultural da comunidade, onde um dos moradores, Aluisio Machado da Cruz, teve a oportunidade de apresentar seu livro recém-lançado sobre a memória sócio-ambiental da comunidade.
Segundo o pesquisador, "as pessoas vêem Vigário Geral reduzido, como a mídia diz, e não como eles querem que o mundo veja; então quem está distante não conhece Vigário Geral". Daí surgiu a necessidade de "enaltecer o bairro que está prestes a completar seu centenário e poucos moradores sabem disso. É importante que isso seja propagado, que isso faça parte da nossa cultura; isso é nossa história"!
Aluisio Machado mora desde criança na comunidade e, ao apresentar seu projeto Memória Ecológica de Vigário Geral à banca examinadora do seu mestrado, percebeu a escassez de trabalhos históricos nos bairros, fato que o estimulou a publicar “Vigário Geral - outros olhares”. O autor não conseguiu o apoio da secretaria de cultura que alegou estar sobrecarregada financeiramente devido aos investimentos no PAN realizado recentemente, portanto está aguardando a editora Publit Soluções Editoriais colocar no ar o site que divulgará seu material.
Na APAC, os jovens da comunidade são instruídos politicamente e levam cultura e cidadania, para os moradores de Vigário Geral através do teatro com temas que abordam os problemas sociais vigentes e os apresentam na sua sede ou a céu aberto nas proximidades. A APAC tem uma intensa movimentação política e no seu interior são solucionadas algumas das questões sociais da comunidade e bairros próximos.
Os organizadores distribuíram diplomas para alguns personagens importantes na comunidade que vêm colaborando voluntariamente há anos para a melhoria da região. Foram homenageados o gari, o coordenador da Pastoral de Favelas, a responsável pela sopa distribuída às pessoas, o fundador da associação, o educador que leciona na Universidade Federal Rural, a doutora que atende mensalmente à população, entre outras personalidades que exercem papéis fundamentais no cotidiano de Vigário Geral.
O último diploma foi entregue pelo fundador da Associação de Moradores, Seu Prado, ao advogado João Tancredo, que morou durante sua infância na comunidade e o auxiliou na fundação e construção do órgão quando estava nos seus 16 anos. João Tancredo trabalha em defesa dos direitos humanos dos cidadãos e recentemente foi exonerado da Presidência do Conselho de Direitos Humanos da OAB de forma pouco transparente.
Ele ressaltou em seu discurso a injustiça cometida contra a moradora Maria dos Anjos, que até hoje é a única não indenizada devidamente pela morte de seu parente na chacina cometida há 14 anos em Vigário Geral. Isso é muito triste, segundo João Tancredo, em decorrência do fato e não pagamento da indenização adequada à cidadã evidenciando como a justiça brasileira discrimina a população de Vigário Geral que só passou a ser reconhecida pela sociedade após a chacina.
Os moradores foram convocados para comparecem dia 15 de outubro, terça-feira, na Assembléia Geral que debaterá a questão do posto de Saúde do Jardim América, que não está funcionando corretamente devido à falta de médicos, fato que exige alguma iniciativa do bairro a fim de buscarem as melhorias necessárias ao atendimento que atualmente está defasado.
Na solenidade foram expostas algumas dificuldades que os moradores das comunidades no Rio de Janeiro enfrentam atualmente, dentre elas destacaram a aliança que milícias estabelecem com o tráfico a fim de controlarem determinados territórios, o jogo do bicho que é o grande negócio na cidade, assassinatos que ocorrem freqüentemente e o difícil acesso ao conhecimento para os cidadãos que têm a capacidade de aprendizagem, no entanto lhes faltam oportunidades.