
Editor: Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
14.09.2006
O OLHAR MÍOPE DE BRASÍLIA
Por Denilson Botelho (*) - ahlb@uol.com.br
Após permanecer alguns dias em Brasília participando do mais importante congresso acadêmico na área de comunicação (Intercom 2006), retornei ao Rio de Janeiro tomado por algumas reflexões. Hoje ocupo este espaço para compartilhá-las com o leitor, que aqui tem a oportunidade de concordar ou discordar do autor destas linhas.
A capital federal localizada em meio ao planalto central sempre despertou-me certa inquietação. Por um lado, é preciso reconhecer que a sua construção foi indiscutivelmente determinante para o desenvolvimento do centro-oeste do país. Contudo, Brasília apresenta duas características que explicam em grande parte minha má vontade com a cidade. Uma delas já estava presente no projeto elaborado nos anos 50 do século passado e a outra diz respeito a uma certa miopia que a cultura local fez crescer ao longo do tempo.
Fruto do delírio stalinista, Brasília nasceu dos traços geniais de Oscar Niemayer. É uma cidade que sai da imaginação criativa de um arquiteto comunista para o papel e daí torna-se rapidamente realidade. Mas é uma cidade planejada para o exercício do poder de forma incontestável. Já se disse por aí e não custa repetir que a esplanada dos ministérios, onde também estão localizados o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto, com suas largas avenidas, tornou ineficaz ou praticamente inviável as manifestações populares de rua. Por maior que seja a mobilização, é quase impossível parar Brasília com o povo na rua. Isso faz com que autoridades, deputados, senadores e o presidente sintam-se quase inatingíveis naquela esplanada.
Sempre me ocorre imaginar, num outro tipo de delírio que nada tem de stalinista, como seria a vida dos generais da ditadura, de Sarney, Collor, FHC e Lula governando o país ali das sacadas do Palácio do Catete, de onde a vista alcança facilmente o povo que transita pela esquina entra as ruas do Catete e Silveira Martins. Ali não seria possível ignorar o povo e tomar decisões distante do clamor das massas. Ali não seria possível ignorar a miséria e a pobreza que as favelas insistem em descortinar diante de nossos olhos cotidianamente. Brasília tornou nossos governantes míopes demais, pois de lá não se vê a realidade tal como ela é.
E Brasília fez crescer também uma certa miopia entre os seus habitantes, especialmente aqueles que vivem nas asas do avião desenhado sobre o solo. Obcecados com os freqüentes concursos públicos e seus promissores salários, alojados em confortáveis apartamentos de classe média e circulando sempre a bordo de seus próprios carros, esses moradores de Brasília não enxergam sequer o povo e a miséria das cidades satélites - a rejeitada periferia de Brasília.
Viver no plano piloto ensejou o surgimento de uma cultura que não permite ao olhar ir muito além do próprio umbigo. É um jeito meio Gerson de viver, em que o negócio é levar vantagem em tudo: juntar grana amealhando altos salários e trabalhando no máximo 6 horas por dia - porque ninguém é de ferro! São funcionários públicos que não se dão conta, por exemplo, de que um bagrinho com nível médio pode ganhar um salário igual ou maior do que um professor com doutorado em nossas combalidas universidades públicas.
Diante do meu olhar perplexo ao constatar que existe um sistema perverso e precário de transporte público na cidade, em que quase não se vê ônibus circulando, a melhor explicação que consegui ouvir foi: "em Brasília todo mundo tem carro!" Valha-me Deus!
Por tudo isso Brasília pareceu-me longe demais, quiçá pertencente a um outro país. Curiosamente até o trânsito de lá parece mais civilizado. As largas avenidas com limite de velocidade rigidamente controlado por inúmeros radares guardam ainda inusitadas surpresas para um pedestre carioca como eu. Lá, o indivíduo que caminha na calçada e faz menção de atravessar a rua numa faixa de pedestres sem semáforo, logo vê os carros pararem à espera de sua tranqüila travessia. Talvez esteja aí algo que Brasília tem a nos ensinar.
Já o olhar míope e ensimesmado que grassa em Brasília não me deixa muito esperançoso…
(*) Denilson Botelho é historiador, professor e autor de A pátria que quisera ter era um mito.