
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
14.05.2006
ENTREVISTA: MARINILDA CARVALHO
Editora-assistente do Observatório da Imprensa
Aristides Dutra

Em entrevista por correio eletrônico ao Fazendo Media, Marinilda Carvalho, editora-assistente do Observatório da Imprensa há nove anos, faz sua avaliação da cobertura política nas eras FHC e Lula e expõe sua preocupação acerca da intolerância no debate político, hoje. "Os leitores nunca se xingaram tanto, uma coisa desgastante (...) é gente que não quer criticar idéias, e sim pessoas". Historiadora e jornalista há quase quarenta anos, Marinilda fala do caso Suzane, da quebra do sigilo bancário de Francenildo, da cobertura da mídia sobre a Bolívia, dentre outros: "Querem que o Brasil declare guerra à Bolívia! Nem se finge mais que se vive em democracia!"
Entrevista concedida a Marcelo Salles.
Qual a sua avaliação sobre a cobertura política da mídia durante os dois governos anteriores?
Cobertura dura. Basta ver as edições do Observatório, são muito instrutivas nesse aspecto. E éramos xingados de tucanos porque cobrávamos... investigação nas denúncias! Alberto Dines até criou na época a expressão "jornalismo fiteiro", pela qual condenava o uso abusivo de fitas obtidas em grampos ilegais. Igualzinho a hoje, só que atualmente somos chamados de petistas. Não concordo com os que pensam que a cobertura dada a FHC foi moleza, que a mídia lhe deu refresco. Não. A diferença de ontem para hoje é o molho. No tempo do FHC se usava substantivo. A de hoje recorre ao adjetivo. É mais desrespeitosa, porque há um profundo, um imenso preconceito contra Lula, por tudo, por ser de esquerda (ou ter sido), por ter pouco estudo teórico, por ter sido perseguido pelo regime que tantos apoiaram, por ter vencido sem diploma, enquanto a classe média cai de patamar social apesar do PhD e do MBA... Enfim, Lula é um poço largo para preconceitos. Mas o ruim mesmo é o que esse desrespeito está fazendo ao nosso povo. Ficamos duros, cruéis, intolerantes, uma Ruanda política. Cada lado quer exterminar o outro, num genocídio ideológico. O que a ditadura fez com prisão, morte e censura está-se fazendo agora com linguagem chula. Parece que o único jeito de convivermos é com a elite tradicional no poder.
Como explicar a "má vontade" da mídia grande com este governo se o sistema financeiro continua lucrando cada vez mais?
Acho que há uma confusão grave aí. Preciso abrir longo parêntese. Não sei como podem dizer que o marxismo já era. Só o marxismo esclarece teoricamente (não falo doutrinariamente, mas teoricamente) o que vivenciamos. Aliás, nem é preciso estudar O capital em alemão, basta ouvir o José Luís Fiori. Ou prestar atenção nas notícias. Ouvi na GloboNews, por exemplo, que o presidente da OMC diz que está na hora de um acordo global de comércio. Ora, por quê? Porque as relações comerciais mundiais já contêm grandes doses de eqüidade, então já dá para tratar as disputas em conjunto? Claro que não, é que no caso a caso as injustiças dos ricos em relação aos pobres são tão gritantes que os emergentes estão vencendo todas as disputas. Então, havendo um acordo global, os de sempre vencem e ponto. Então, quem está explicando isso à sociedade? A imprensa se descolou de sua função social, a de dar as versões, contextualizar os fatos para que a sociedade tire sua conclusão (parece besteira, né? coisa tão simples... só que não se faz mais). Por isso o erro grave nessa equação é pensar que, já que o sistema continua lucrando, por que criticar tanto o Lula? Mas Lula nem governaria se tivesse havido ruptura. Então, com o lucro e as remessas dos grupos dominantes assegurados, criticam por esse monte de coisas, o preconceito, uma distribuiçãozinha de renda na base aqui, um saneamentozinho ali - isso é dinheiro "posto fora", que os grandes grupos querem, pois o capital tá caríssimo. Por exemplo, acabo de ver na Band (2/5/06, 20h45), no programa do Carlos Chagas, o Walder de Góes dizer que a primeira atitude do Lula, após o decreto do Morales sobre os hidrocarbonetos, seria ligar pro Bush e perguntar o que fazer. "Porque o Bush sabe o que fazer". Parece piada, mas ele estava falando sério. Então, essa gente está na TV perpetrando o crime da desinformação. Nem sequer dão os fatos, o absurdo que é o lucro estratosférico das petrolíferas em solo boliviano. Uma república de banana como a nossa, espoliada há 500 anos com apoio da mídia, pode espoliar à vontade um vizinho pobre! Outro cidadão no programa chegou ao ponto de pedir "medidas duras" do governo para negociar! Isso é o clímax da loucura. Querem que o Brasil declare guerra à Bolívia! Nem se finge mais que se vive em democracia!
Num ponto mais específico, qual a sua opinião sobre a divulgação pela Época dos dados de Francenildo? Você concorda com a opinião do diretor de redação, que alegou não ter certeza se a quebra havia sido lícita ou ilícita? O que manda a ética jornalística?
Isso é muito, muito interessante. Um articulista disse que sigilo bancário é coisa de país excludente, existe para proteger as fortunas. Digamos que abram meu sigilo bancário, so what? Encontrarão os salários dos meus dois empregos, nos quais ralo como condenada, o pagamento do aluguel, das contas da Light, da Telemar, da Net, da CEG, do posto Ipiranga perto da minha casa, dos restaurantes vagabundinhos que freqüento e, a partir de março, remessas absolutamente legais, pelo BB, de euros ao meu filho que está estudando na Espanha.
Mas imagine que se abra o sigilo do Garotinho, do Duda Mendonça, do Palocci, do Furlan, do Bornhausen, do ACM, do Sarney, sei lá, essas figuras secularmente protegidas. É um Deus nos acuda. Porque geralmente eles têm mesmo o que esconder, sei lá, nem que usem laranjas. Tem manobra, irregularidade, é raro que role muito dinheiro sem alguma irregularidade. Bastaria abrir as investigações da CPI do Banestado, o maior escândalo do país, só que para iniciados, ninguém ficou sabendo dele. A pizza definitiva. Então, temos que fingir que nossa democracia é "democrática": quebrar sigilo é crime brabo. No caso do Francenildo a coisa foi absolutamente surreal. Expuseram as vísceras da nossa farsa. Como não se tratava de peixe graúdo, mas de um caseiro, avaliou-se que não haveria problema algum em se abrir o sigilo do homem. E o motivo foi o mais torpe, digno de envergonhar petistas: expõe-se uma figurinha para salvar um figurão. A sociedade fingiu que protestou, a mídia fingiu que ecoou. Não é hilário? Não importa mais se a democracia é formal ou pura farsa. Tivemos o clímax da democracia fajuta. O Fidel disse uma vez que poderia promover eleições "burguesas" todo ano e venceria, porque as eleições burguesas são uma farsa, ganha quem tem dinheiro. Detesto ditaduras, mas adoro o símbolo que Cuba representa, aquela ilhota rebelde. Ele está certo, não está? O atual "líder do mundo livre", como os americanos adoram se considerar, perdeu a eleição no primeiro mandato e levou sem problemas.
No caso Suzane, você considerou que a mídia exerceu um papel que não lhe cabe. Em que momento pode-se dizer que o jornalismo passou de "informativo" para "indutivo"?
Não, eu considerei que a TV Globo violou o privilégio do sigilo cliente/advogado. Foi o que disse num texto meu lá no Observatório da Imprensa ("Esse poder todo ainda vai nos assombrar"). Deveria ter acrescentado "mais" - o que essa emissora já nos aprontou não está no gibi, já mudou nossa história -, mas estava tão perplexa que esqueci. Não estou nem aí se a mídia induz ou deixa de induzir, isso a audiência que resista ou não. Freqüentemente não resiste, cai sempre na armadilha, paciência. É conseqüência do descaso criminoso de todos os governos, todos, sem exceção, com a educação. Estamos pagando o preço. Foi fácil destruir. Vamos precisar de 30 anos para recuperar aquele povo instruído e culto que o Brasil vinha construindo a duras penas nos anos 60, os anos do desenvolvimentismo, das boas escolas. Que a ditadura primeiro, o neoliberalismo depois destruíram. Então, são previsíveis as reações de apoio à Globo e a seu jornalismo Linha direta. O que me espanta é a OAB. Foi atrás dos advogados, para ver se eles feriram a ética ao orientar a cliente a mentir. Patético. A OAB tinha que ir atrás da Globo, por ferir princípios básicos dos direitos humanos. Ou de advogado que não orienta direito o cliente. Nossa sociedade está perigando, não duvido. O humanismo já se foi, agora vai-se a privacidade, Bush e seu Patriot Act à frente. Nos anos 70 tínhamos na Ultima Hora repórteres itinerantes flagrando cenas do cotidiano (eu fazia uma dupla dessas com o genial fotógrafo Ubirajara Dettmar). Amanhã você terá cinegrafistas itinerantes flagrando sua vida privada, do ginecologista ao motel. Ai, quando penso no papel que a OAB representou na ditadura, a ponto de virar alvo de torturadores desesperados...
Muita gente da esquerda questionou o documentário Falcão e sua exibição na Rede Globo. Em sua opinião, qual pode ter sido o interesse da empresa?
Sensacionalista, qual mais? A sociedade anda histérica com a criminalidade, e então a Globo mostra les petit salauds em sua escola de crime. O Faustão até cobrou promessa de honestidade de um pobre sobrevivente, coitado, humilhado em público mais do que na vidinha miserável inteira dele. Disgusting...
Sobre a experiência do Observatório da Imprensa, qual a sua avaliação quanto aos resultados? Quais as principais dificuldades? Esta e outras páginas do gênero conseguem cumprir a função a que se propõem?
Bem, volte a 1996. Quem fazia crítica da mídia? Só Alberto Dines, desde a década de 70 - no Pasquim, na Folha. Hoje, todo mundo vigia e esculhamba a mídia, todo mundo mesmo. Até escrevi sobre isso na edição de aniversário. Foi nosso trabalho de formiguinha, não tenho dúvida. Mas há dificuldades, claro. A principal delas é a intolerância crescente no debate, especialmente depois da chegada de Lula ao poder e da crise do mensalão. Os leitores nunca se xingaram tanto, uma coisa desgastante. Sempre tivemos leitores intolerantes, mas isso cresceu muito de um ano para cá. Os grandes blogs estimularam esse fenômeno, eu acho. O Noblat, por exemplo, deixou correr solto o xingamento, até que se viu obrigado a peneirar, mas o mal já estava feito, o leitor intolerante já estava acostumado a ver suas diatribes publicadas. Não houve um trabalho educativo, como modestamente tentamos fazer no Observatório: estamos apagando trechos ofensivos e avisando. A maioria entende, e volta mais devagar. Mas alguns resistem, é gente que não quer criticar idéias, e sim pessoas. Isso é um problema grave. São grosseiros, chatos, incultos, politicamente rasos, é muito ruim. Felizmente, não é a maioria.