
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
13.04.2006
A FAZER DO BRASIL UMA IMENSA CANUDOS!
¡Evo - Chávez - Fidel! - 43 anos depois
Por Paulo Bacellar* - paulobacellar@paulobacellar.net
Era o início dos anos 60 e a Latinoamérica, este nosso quintal traseiro da poderosa Matriz, deu à nossa geração a razão de viver, que alguns iríamos empunhar como canto de luta até o fim dos nossos dias, e que a outros lhes serviria como a moda do momento.
A Revolução Cubana tornara-se vitoriosa dois anos antes, mas só então começara a empreender a caminhada "rumbo al socialismo", entre tentativas de golpe financiadas e orquestradas em Miami.
Era o povo em armas e, numa dessas batalhas, um adolescente, ferido de morte pelo ianque invasor de Playa Girón, escreve num muro, com o seu próprio sangue, o nome da esperança e do futuro: "FIDEL!"
Acho que compreendi num minuto, ante a descrição naquele dia do ato heróico, que aquele era o sangue de milhões de trabalhadores e de adolescentes que tínhamos em todo o mundo um sonho de Justiça.
Viver e morrer por Cuba seria sempre um sonho de glória, de pureza, de entrar na eternidade em "estado de graça" como diria eu se imitasse os cristãos (ou os homens-bomba de hoje, esses filhos da Coragem).
Estampado ali daquela forma, o sonho fizera-se sangue e a nossa relação de amor com a Revolução Cubana passara a ser já não mais uma opinião, mas algo visceral. Cuba corria-nos nas veias.
Passado quase meio século, o planeta voltou a ser um lugar quase tão pouco praticável como antes. Não porque a História esmagou os regimes podres que eram apelidados "socialistas", mas sobretudo porque, vigiada e espremida a Revolução Cubana para não contagiar outras terras, durante longas décadas o bloqueio maldito dos ianques a Cuba só não asfixiou o Novo porque o povo da Ilha da Liberdade aprendeu desde meninos que sem dignidade não valeria a pena viver, e agüentou então todos os martírios.
Hoje, quando o valente Hamas obtém em eleições livres a maioria absoluta, o glorioso Hugo Chávez também a obtém, ante os olhos incrédulos de verdugos e capachos. E, mais ao Sul, Evo Morales toma como um de seus primeiros atos como presidente a redução à metade do seu salário presidencial e, por arrastamento, dos salários de todos os funcionários públicos. Bendito seja! Com a verba excedente, contratará mais professores e médicos.
Agora enfim posso saber que a minha geração foi premiada por poder dar testemunho por duas vezes do que há de mais elevado e sublime na relação entre humanos. Agora como antes a autonomia, a honra, a solidariedade, os princípios...
Pelo que parece estar para breve a retomada do grito de guerra de Fidel e do Che, nos quatro cantos dos Andes e não só,
"¡Patria o Muerte!, ¡Venceremos!"
Nem sequer a presença dessas marionetes lulo-petistas de São Paulo e Brasília, emborcando rios de vinhos caros e brincando no AeroLula à custa do povo... Ou alugando dez aparelhos de ar condicionado para que o ministreco da Saúde sinta um arzinho tão fresco quanto a sua própria frescura, num hospital quarto-mundista onde velhos morrem desidratados, nem isso pode ser suficiente para poluir a atmosfera quando Evo/Chávez/Fidel nos dão tamanhas lições de desprendimento e generosidade!
A luta continua! A correr com Lula e todos os lambebotas, que a paciência do povo está no fim e vem chegando o tempo de fazer do Brasil uma imensa Canudos, com um Antônio Conselheiro de novo a falar nordestino, agora de rabo-de-cavalo e óculos de professora de enfermagem.
* Paulo Bacellar por ele mesmo, em um resumo nada sintético: “Fiz Filosofia entre os "Atos" da ditadura: do 1º ao 5º, de abril-64 a dezembro-69, coube um curso inteiro, uma segunda filha e, chegado o AI-5, veio a prisão e tortura da minha ex-mulher (PCBR), o nosso apartamento de Ipanema ocupado e o meu exílio. Exílio não é bem, aliás, a palavra certa, pois fui ao Chile ser chileno e a Portugal ser português. Eu estava profundamente desolado com um país capaz de torturar a Vera Vital Brasil e vai daí que recusava até o idioma; passei a escrever, falar, pensar e sonhar só em castelhano. Este assim foi só o comecinho da história, que ali eu ainda estava com 24 anos e só voltaria ao Brasil com 54. (...) Fiz em Portugal uma carreira como professor de psicologia e filosofia, andei pela clínica psiquiátrica como estagiário, fiz 12 anos de psicanálise e no político sobretudo gostei de dividir com um querido amigo e velho guerrilheiro, Carlos Antunes, herói de lá, a liderança do setor mais à esquerda que se associou à nossa candidatura presidencial, a da engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo (1986), radical cristã que ficou com lindos 7%. Acreditávamos no "aprofundamento da democracia", saída abençoada para a Europa, e só de volta ao Brasil eu iria mergulhar de novo na revolta e retomar o entendimento de que nem as sociedades nem as pessoas podem alcançar felicidade sem passarem antes por fases críticas de desorganização e reorganização, com as mais violentas ou sangrentas conseqüências.”