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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editora: Raquel Junia - raquel@fazendomedia.com


12.10.2006
FLANELINHAS: RETRATO DO TRABALHO INFORMAL

Por Gilka Resende - contato@fazendomedia.com

Nas portas das boates, dos estádios de futebol, bares, shoppings ou cinemas, caso não tenha "vaga certa" para o carro, na certa tem um guardador de carro, mais conhecido como flanelinha, uma das vertentes do trabalho informal.

No Brasil, existem 8,5 milhões de desempregados, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Não por acaso, o número de trabalhadores informais cresceu desde os anos 90, com o aumento da competitividade no mercado de trabalho. Segundo estudos feitos pela UFRJ, existem cerca de 38,1 milhões de brasileiros na informalidade.

Em Niterói, o retrato não é diferente. Num domingo chuvoso, Adriano Rangel corre com o guarda-chuva de um lado para outro. Chega às três da tarde e só sai quando o movimento acaba, por volta das dez e meia da noite. Durante a semana, cuida dos dois filhos pequenos. O maior tem dois anos e o menor acabou de completar um aninho. Já a esposa Gisele, 18 anos, trabalha como diarista e tira 50 reais por faxina. Nenhum dos dois possui carteira assinada. Adriano consegue cerca de 25 reais em dias de movimento e metade disso em dias "fracos". Não cobra taxa fixa, o cliente dá quanto quiser e se quiser.

Há quatro meses, Adriano era entregador numa locadora de filmes, mas foi dispensado depois que o contrato acabou. Mora no Morro do Estado, num quarto, cozinha e banheiro. Parou de estudar quando cursava a oitava série. "Tenho tanta vontade de trabalhar com carteira assinada, já espalhei muita ficha por aí. Uma delas vai dar certo. Em pouco tempo, eles tão me chamando", disse, esperançoso. Adriano e mais dois amigos dividem o ponto em frente ao Plaza Shopping, centro de Niterói.

Mais tarde a chuva aperta, baile no Canto do Rio, um dos clubes mais antigos da cidade. De longe, o moço chama o flanelinha e grita: "Cuida aí. É o da placa de São Gonçalo". Roberto de Oliveira, 38 anos, diz que quase não sai de carro, mas prefere que o flanelinha esteja perto para olhar o veículo. "Eu já o conheço", disse. Por outro lado, Joaquim Nelson, 70 anos, contou que na frente do Canto do Rio até deixa o guardador olhar, pois é iluminado. Mas em lugares mais desertos, não confia.

Seu Walter Belizário dos Santos é "o flanelinha do Canto do Rio". Há 20 anos trabalha todos os finais de semana ou em dias de festa. Tem 54 anos, mas aparenta bem mais. Contou que há três anos caiu de um andaime e sofreu traumatismo craniano e, por isso, não tem mais força nos braços para exercer a profissão de pedreiro. "Flanelar" deixou de ser um complemento e passou a ser a única renda para esse senhor que é divorciado e tem três filhas. Com o dinheiro restrito, mora de favor na casa de um amigo no bairro Tribobó (São Gonçalo). Como guardador de carros, ganha cerca de 70 reais a cada final de semana. Quer juntar dinheiro para comprar um barraco de três mil reais.

Walter tem aparência frágil. Durante a conversa noto um leve cheiro de bebida. Depois da experiência de 20 anos como flanelinha, admitiu que nenhum guardador de carro impede o roubo a mão armada de carros. "Não dá para se meter com ladrão de verdade. Mas com menino que rouba som de carro, esse a gente intimida. Não chegam nem perto, pois já me conhecem. "Qual é amigo, vai me atrasar? Quer levar meu pão?". Ele admitiu ainda que a atuação de alguns flanelinhas atrapalha muito quem só quer arrumar um jeito de sobreviver. Walter se referia àqueles que cometem coerções e fazem cobranças abusivas.

De segunda a sábado, as ruas de Niterói são controladas por um sistema rotativo de estacionamento pago. São três reais pelas três primeiras horas em que o carro ocupa a vaga. Depois desse tempo, mais um real por hora ou fração de hora para a utilização do espaço público. "Um absurdo, um absurdo! É a única coisa que eu tenho a declarar. Gasto de 12 a 15 reais todos os dias. Já pagamos impostos, que deviam bastar. Não gostaria pagar nada aos flanelinhas, ainda mais à prefeitura" reclamou, indignado, Ronaldo Lessa, 23 anos, que trabalha no comércio da Amaral Peixoto, maior avenida de Niterói.

"Eles chegaram faz uns cinco anos, essa empresa surgiu e começou a explorar a rua. Antes eu não tinha chefe, sobrava mais um dinheirinho para a gente. Mas não tive escolha, chegaram e me fizeram a proposta, se eu não topasse não poderia trabalhar mais aqui", contou um ex-flanelinha, hoje um dos trabalhadores cadastrados. A empresa privada Niterói Park Ltda. é a que administra a cobrança da taxa juntamente com a Empresa Municipal de Moradia Urbanização e Saneamento (Emusa).

No entanto, nem todos têm a mesma opinião. "Antes não sabia quanto ia ganhar; agora sei mais ou menos. E também, se acontece alguma coisa, as pessoas reclamam com a firma ou com a prefeitura, não com a gente", disse outro.

No entanto, a grande maioria acha a cobrança abusiva. No crachá não consta a designação flanelinha ou guardador de carros e, sim, "cobrador de tickets". A cada três reais cobrados, 70 centavos ficam com os cobradores. Esse é o único ganho para o trabalhador.

O Senhor Daniel Amarão, 75 anos, e a Senhora Zilda Marques, 72 anos, são casados e moram há 36 anos no Edifício do Oceano, que fica em frente ao Plaza Shopping. Não possuem garagem e conseguiram isenção da taxa. "Mas mesmo assim é uma canalhice da prefeitura. No mês de julho, houve um aumento de 100% no valor cobrado. É uma mina de ouro", protesta o casal. Daniel Amarão falou que fica num impasse, acha que os guardadores deveriam ser cadastrados, ter uma regulamentação. Mas também não aceita a maneira de como ela está sendo feita. "É um roubo", completou.

No orkut, a página eletrônica da moda, são cerca de 150 comunidades relacionadas ao tema "flanelinhas". Quase todas com o nome "Eu odeio os flanelinhas". Quase nenhuma discute políticas públicas para o emprego, o trabalho informal, desigualdade social ou direitos humanos. Nem ao menos argumentam pelo direito do motorista por conta do pagamento de impostos.

Em aproximadamente 95% delas, os flanelinhas são chamados de imbecis, vermes, bandidos, ratos, "essa racinha", vagabundos, inúteis, parasitas e outros títulos ainda mais pesados. Um dos usuários da rede sugere a fundação da Associação da "Elite", isso porque já existe uma para o que ele chama de "ladrões de rua", os guardadores de carros. "Morte aos flanelinhas" e "vamos passar a roda por cima deles" são outras das frases típicas.

Segundo o IBGE, a escolaridade dos pais dos indivíduos está diretamente relacionada à taxa de ocupação (pessoas trabalhando) e inversamente relacionada à taxa de desemprego. O alto índice de trabalhadores informais de baixa renda é uma herança social do Estado e a desigualdade social vem percorrendo gerações; é "passada de pai para filho".

Dos dez flanelinhas entrevistados para esta reportagem, apenas dois são brancos. Todos os entrevistados são pobres e têm pelo menos um filho para criar. Nenhum deles tem o primeiro grau completo.


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