
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
12.08.2006
AS ENTREVISTAS DO JORNAL NACIONAL
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Durante a semana que passou, o Jornal Nacional entrevistou cinco dos oito candidatos à Presidência da República.
Cristovam Buarque (PDT), Heloísa Helena (PSOL), Lula (PT) e Alckmin (PSDB) foram agraciados com cerca de 12 minutos ao vivo, enquanto Luciano Bivar (PSL) teve direito a 2,36 minutos - gravados. Ana Maria Rangel (PRP), José Eymael (PSDC) e Rui Pimenta (PCO) ficaram de fora.
Não vale o argumento da baixa pontuação nas pesquisas, pois a lei eleitoral determina que todos os candidatos tenham espaços iguais. E, se valesse, por que Cristovam Buarque, que está com 1% na pesquisa do Ibope divulgada ontem (11/8), recebeu 12 minutos, já que Rui Pimenta aparece na mesma pesquisa com o mesmo percentual?
Dos candidatos que participaram ao vivo, apenas a senadora Heloísa Helena mencionou o tema da democratização dos meios de comunicação, mesmo assim muito rapidamente. Em determinado momento ela falou que é preciso "democratizar a informação". Vamos ver se a candidata do PSOL invade o tema nas próximas oportunidades.
Alckmin foi mal no conteúdo, mas se saiu bem na forma. Como na televisão a forma conta mais que o conteúdo, acabou levando vantagem. Já Cristovam foi bem sob os dois aspectos. Falou o quanto pôde de sua principal proposta, a educação, e pregou uma revolução no setor. O problema é que nem Alckmin, nem Cristovam empolgam.
Há quem tenha destacado a postura "firme" dos entrevistadores, sobretudo com Geraldo Alckmin. Não acho. Firmeza, pra mim, está além das "perguntas difíceis" definidas pelo senso comum. Bonner e Fátima atuaram do mesmo modo com todos os entrevistados, a exceção de Lula.
Aliás, tendo a entrevista de Lula sido realizada dentro do Palácio do Planalto, o Jornal Nacional se sentiu em casa. Não só pela longa e cordial convivência da Rede Globo com os sucessivos governos, incluindo os ditatoriais. Mas também pelo significado da escolha do padrão japonês para o Sistema Brasileiro de TV Digital. O decreto assinado em 29 de junho - durante a Copa do Mundo - que garante o modelo defendido pela Globo, parece mesmo ter sido a garantia de um tratamento amigável durante o período eleitoral.
E a conclusão do candidato Lula, para quem o Brasil vive seu melhor momento econômico: "Crescem as exportações, crescem os empregos. Só o que cai é o salário". Embora o presidente tenha se corrigido imediatamente, não seria exagero lembrar J. Lacan, para quem "todo ato falho é um discurso bem sucedido".
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Atílio A. Boron, no periódico argentino Página/12 sobre Cuba, no último dia 6: "A transição se deu no dia primeiro de janeiro de 1959. E foi uma transição dupla: da ditadura para a democracia e do capitalismo para o socialismo".
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A estrela é o entrevistado
(Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa, 13.08.06)
BRASÍLIA - Uns por vaidade, outros por medo, a verdade é que as recentes entrevistas feitas na televisão com os candidatos à presidência revelam, acima de tudo, o despreparo dos entrevistadores. Poupemo-nos da citação dos profissionais e das redes, mas qualquer telespectador mediano percebe as oportunidades desperdiçadas. Os apresentadores deveriam postar-se diante das câmeras para tirar o máximo de opiniões e de informações dos entrevistados.
Mesmo com indagações contundentes, ainda que educadas, sempre que existir motivo para cobrar contradições o papel dos entrevistadores deveria ser de provocar, jamais de agredir. Muito menos de tentar tornar-se o centro do debate, geralmente beirando o ridículo. Nas entrevistas, a estrela é o entrevistado. Para brilhar ou para arrebentar-se.
Estamos assistindo a aulas de como não entrevistar pessoas. Interromper perorações do entrevistado é válido, até necessário para quem entrevista, mas precisa acontecer só com uma frase, uma palavra, se possível. Jamais com discursos destinados a transmitir ao público opiniões que não interessam, dos entrevistadores.
Precisam também, esses personagens inflados pelo ego e pelo sonho de pequenos períodos de glória, atentar para a densidade da informação a ser colhida. No caso dos candidatos à presidência, importa mais saber o que pretendem fazer, se eleitos, do que enveredar por querelas anteriores. O eleitor prefere promessas para o futuro, mais do que realizações do passado.