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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



11.09.2007
GRITO DOS EXCLUÍDOS
Em Niterói, atividade cobra anulação da privatização da Vale do Rio Doce e direitos básicos da população


O “sussurro” se fez ouvir e “Seu Jorge” votou pela anulação da privatização da Vale do Rio Doce

Texto e fotos: Raquel Junia - raquel@fazendomedia.com

O Senhor Jorge Luís de Brito vendia picolés na manhã do dia 7 de setembro. Aproveitou o feriado para tentar aumentar a renda mensal, garantida pela aposentadoria de um salário mínimo. Apesar da combinação ideal – grande número de pessoas presentes na Avenida Amaral Peixoto, em Niterói, para observarem o tradicional desfile civil-militar e sol quente – Seu Jorge disse que não vendeu muitos picolés.

O que ele não sabia é que haveria um “Grito dos excluídos” logo após o desfile. “Eu até que estou gostando, porque eu também sou um excluído, mas não concordo com o que estão falando do presidente Lula, nenhum presidente fez o que o presidente Lula está fazendo”, disse em resposta às críticas feitas pelos manifestantes, que questionavam, sobretudo, a política econômica do atual governo federal.

No início da entrevista, Seu Jorge se apresentou como “revoltado” com a aposentadoria que ganha, com a situação de muitos brasileiros, com as privatizações. Informado sobre o plebiscito popular acerca da anulação da privatização da Companhia Vale do Rio Doce, ele foi votar pela reestatização da empresa na urna instalada durante a manifestação.


Para manifestantes, reestatizar a Vale faz parte da independência do Brasil

“Estamos reivindicando os direitos dos trabalhadores, saúde, educação, e todo esse investimento social que faz muita falta na sociedade. Estamos também protestando contra os vetos ao PNE (Plano Nacional de Educação) que deixou de investir 7% do PIB (Produto Interno Bruto) em educação. Queremos dialogar com a comunidade nesse sentido e queremos mais acesso à universidade. A idéia desse Grito dos Excluídos em especial é também tratar a questão da reestatização da Vale do Rio Doce”, explica Juliana Gagno, do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O Grito dos Excluídos em Niterói contou com manifestantes do movimento estudantil e do Sindicato dos Trabalhadores (Sintuff) da UFF, dos partidos políticos PSOL e PSTU, do Movimento da Comunicação Livre, do Conselho Comunitário da Orla da Baía (CCOB), além dos vereadores de Niterói Renatinho e Paulo Eduardo Gomes, ambos do PSOL e de representantes de outros sindicatos e movimentos. Algumas pessoas também aderiram ao protesto no momento em que os manifestantes começaram o desfile pela avenida.

A atividade foi realizada em várias cidades do país e contou em cada localidade com movimentos locais e nacionais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O Grito dos Excluídos é realizado sempre no dia 7 de setembro, há mais de 10 anos. Em Niterói, o número de manifestantes foi pequeno, em torno de 150 pessoas, o que levou alguns dos participantes a brincar: “esse será o nosso sussurro”.

Portadores de necessidades especiais participam do “Grito”
A professora Norma Correia Pires, diretora da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Niterói, votou no plebiscito da Vale do Rio Doce e participou dos dois desfiles, o civil-militar e o “Grito dos Excluídos”, acompanhada da filha portadora de necessidades especiais. Norma Pires afirma sentir a exclusão sofrida pela filha.

“Em termos de mercado de trabalho eles são excluidíssimos, é um verdadeiro funil. Aliás, a educação se tornou um funil, como um todo, especialmente para essas pessoas. Infelizmente elas ainda estão socialmente à margem”, constata.

Sandy é outra jovem portadora de necessidades especiais, ela também participou do “Grito dos Excluídos” acompanhada pelo pai, Jorge Pereira da Silva.

“Principalmente o deficiente não tem direito a nada, não tem respeito, não tem remédio, se a pessoa não tiver uma situação financeira mais ou menos, não consegue sobreviver, não consegue uma cadeira de rodas, por exemplo”, fala o pai de Sandy. Os dois não sabiam da manifestação, mas resolveram participar.

Resposta do público
Em relação ao desfile civil-militar, o Grito dos Excluídos contou com menos da metade do público presente. Entretanto, as pessoas que permaneceram olhavam atentas. Uma senhora perguntou: “passaram em frente ao palanque? Tinham que ter passado por lá”.

Os estudantes Leandro da Silva e Renato dos Santos assistiam ao protesto. Questionados, ficaram em dúvida se participariam ou não da manifestação, apesar de Leandro afirmar ter motivos para protestar: a falta de emprego. No fim da entrevista disse a Renato: “então vamos sair (desfilar) aqui também!”, chamando o amigo para entrarem na manifestação.

Durante o percurso, os participantes distribuíram materiais explicativos sobre o plebiscito popular pela anulação da Companhia Vale do Rio Doce e entoaram palavras de ordem do carro de som. O plebiscito recolheu, durante o Grito dos Excluídos em Niterói, 70 assinaturas.

Bastidores
“Ai, queria tanto ficar nesse palanquinho, tão bonito, né?!”, comenta uma garota com a senhora que estava ao lado dela. O “palanquinho” ao qual se referia era o palanque destinado às chamadas autoridades que assistiam ao desfile Civil-Militar. Realmente quem permanecia lá em cima tinha certos privilégios: sombra, água e comida.

Do outro lado da rua, debaixo de sol quente desde as 8 horas da manhã, o funcionário público José Carlos Raphael assistia ao desfile como faz todos os anos. Ele não sabia que iria ser realizado o Grito dos Excluídos. Entretanto, José Carlos, que é negro, também afirmou se sentir excluído.

“Minha própria cor é uma forma de ser excluído de alguma coisa, agora mesmo eu estava vendo o desfile do Colégio Plínio Leite (colégio privado), entre os ex-alunos do Plínio Leite, só havia dois negros. Você liga a televisão, se tiver vinte pessoas, uma é negra. E ninguém faz nada para mudar isso. Isso é uma forma de exclusão. Eu me incluo nisso”, conclui.


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