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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com


10.04.2006
PT: ESQUERDA OU CENTRO?

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Política e Atualidade
Formato: 14 x 21 cm
232 páginas
R$ 38
Editora Revan

O PT já se definiu como um partido de centro. A afirmação é de Luiz Werneck Vianna, professor ligado ao Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. "É o centralismo burocrático que prevalece hoje no partido", afirma para a decepção dos que ainda enxergam nuances de esquerda no PT.

A avaliação está no recém-lançado "Esquerda brasileira e tradição republicana" (Revan, 2006), onde o autor estuda a era FHC-Lula. A obra é uma coletânea de artigos e entrevistas de Vianna, todos pertencentes ao gênero "análise de conjuntura", que o pesquisador pratica desde os anos 1970.

Análises de conjuntura, entretanto, são polêmicas por natureza. O ex-ministro José Dirceu, considerado pelo autor o grande estrategista da ascensão do partido, garante que o PT é, sim, um partido de esquerda, como disse à Caros Amigos em janeiro. "Deixem o PSDB voltar e vocês verão", afirmou. Mas Vianna se cerca de bons argumentos, lembrando que no primeiro ano do governo Lula o país perdeu 600 mil empregos. "O caminho que o governo está seguindo é um caminho que aposta mais no mercado do que no Estado".

Num dos artigos, Vianna recorda ainda que essa era a orientação do partido desde sua composição no ABC paulista. Se por um lado tinha como objetivo melhorar as condições dos trabalhadores, por outro defendia a livre negociação entre empresários e funcionários, sem a intervenção estatal.

Embora situe o PT ao centro da política brasileira, o autor não enxerga, de forma alguma, o fim do partido. "O PT já se definiu um partido com uma agenda política de centro, o que não quer dizer que o mundo esteja perdido para ele. Apenas que o centro no Brasil mudou de mãos. PT e PSDB estão batendo cabeça no centro político brasileiro". Três páginas à frente, completa: "O governo Lula tem sido a radicalização do governo do PSDB".

No decorrer da leitura nota-se clara preocupação do autor em evidenciar o desapreco deste e dos governos anteriores com a Carta de 1988. "Sucessivas emendas constitucionais expurgaram a Constituição de sua inspiração doutrinária de origem, liberando a esfera da economia". Para Vianna, Lula já fez sua opção de dar continuidade a esse ciclo da política brasileira e concorda com gente como Oscar Niemeyer, para quem o objetivo do PT seria apenas melhorar o capitalismo.

Neste seu quinto livro sobre análise de conjuntura, Werneck Vianna traz também algumas curiosidades, como o fato de o PT ter nascido sem um jornal. Ou seja, nasceu sem voz. Para dizer qualquer coisa, precisa negociar espaço.

Por tudo isso o autor diz que a reeleição de Lula seria uma "derrota para todos nós", embora reconheça que entre os recentes governos este tem sido o mais sensível à agenda social dos brasileiros à margem das políticas públicas.

Entrevista com Luiz Werneck Vianna

Você acha que a política econômica muda com a saída de Palocci?
Ele perde nessa hora o apoio das elites econômicas. Ele pode se ver em apuros. Não só para a sucessão, mas também para desdobramentos mais complicados, nessas CPIs que estão em curso.

Mesmo o Mantega sendo considerado um crítico contundente dessa política econômica?
Isso o PT todo era antes. Eu acho que não há porque imaginar uma ascensão do Mantega de fundo na política, em razão de o governo estar muito fragilizado.

No decorrer do livro você aponta que o PT adotou uma posição de centro, que você chama de "centralismo burocrático". Você avalia que até o final o objetivo do governo será tentar a eleição, sempre cedendo? Como funciona essa correlação de forças lá dentro? Como é o jogo?
Você tem que ver que os últimos acontecimentos deixaram o governo numa situação ainda mais delicada. Me refiro especificamente à violação do sigilo bancário do caseiro lá de Brasília. Isso caiu ao fato de crime, o presidente da Caixa Econômica caiu por um crime. É uma situação gravíssima.

Mas ainda no início do governo, ainda em 2003, eles fizeram a Reforma da Previdência, e isso você fala no livro, que eles foram...
Eles abdicaram de seu programa e aderiram ao programa do governo anterior de uma forma ainda mais radical.

No livro você fala que eles radicalizaram em alguns momentos. Quais seriam esses momentos?
O superávit primário, a política de juros.

Você traça um paralelo dizendo que o PT e PSDB estão cada vez mais parecendo com os Republicanos e Democratas dos EUA. Como é isso?
É só ver como o sistema partidário brasileiro está se convertendo na prática numa estrutura bipartidária. Estamos em abril e só conhecemos dois candidatos fortes. Um do PT e o outro do PSDB. Porque a esquerda também não procura uma alternativa. Agora vão oferecer a candidatura da Heloísa Helena. Vai ser uma candidatura de marcação de posição. Ela não tem condições de competição. Salvo mudanças espetaculares de última hora. O fato é que os partidos entregaram suas ambições a esses dois aí que reinam de modo incontestável no cenário político brasileiro. O mais curioso é que os dois são do poder de São Paulo. Na verdade, isso mostra como a Federação vêm sucumbindo diante de um centro que o governo opera.

Você soube do lançamento do livro "Confissões de um assassino econômico"?
Não.

Nele o autor, John Perkins, relata uma séria de chantagens e ameaças usadas pelas potências hegemônicas sobre os países que possuem riquezas estratégicas...
Aqui o país está sob inteiro domínio do capital financeiro. O capital financeiro nacional está todo articulado com o internacional. Não creio que haja uma linha conspirativa para isso.

Com relação à mídia, muitos dizem que o PT é mais mal tratado...
Não, não creio. O principal órgão da mídia brasileira são as Organizações Globo, que até então, têm demonstrado uma fidelidade canina com apoio às políticas presidenciais. Pode ser que mude agora, porque, na verdade, o grande fiador do apoio das elites a esse governo era o Palocci.

Então você acha que a Globo apoiou tanto este quanto o governo anterior?
Ah, sem dúvida. Nunca, como agora, os interesses das elites econômicas foram bem atendidos.


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