
Editor: Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
09.09.2006
GRITAR É PRECISO
Diversos movimentos sociais se unem na décima segunda edição do Grito dos Excluídos; objetivo é denunciar todo tipo de exploração contra o povo brasileiro
Samuel Tosta/Sindipetro-RJ

Movimentos organizados tomam as ruas do Rio de Janeiro
Por Bruno Zornitta - contato@fazendomedia.com
O brado retumbante do heróico povo brasileiro foi, neste sete de setembro, sinônimo de Grito dos Excluídos. Trata-se da manifestação popular por "trabalho, justiça e vida", apartidária e de organização descentralizada, que aconteceu pelo 12º ano consecutivo nas principais capitais do Brasil e em algumas cidades do interior.
No Rio de Janeiro, dezenas de movimentos sociais (100 pessoas para o Globo Online, duas mil para o Rápido, boletim da CUT-RJ) promoveram uma passeata que partiu da esquina da Avenida Presidente Vargas com a Rua Uruguaiana em direção à Praça Onze, no centro da cidade. Foi o desfile da sociedade civil, paralelo ao desfile militar.
Enquanto os militares passavam pela pista central da Presidente Vargas, os movimentos aqueciam os tambores à margem do desfile. Estavam lá desde 9h, com faixas, cartazes, bandeiras e panfletos. A bateria do bloco "Se Benze que Dá", do Complexo da Maré, animava os militantes. O desfile da Polícia Militar foi recebido com uma sonora vaia dos movimentos. Em seguida, gritos de "Caveirão é o terror / Pra matar trabalhador" e "Chega de chacina, polícia assassina". A resposta da PM viria mais tarde.
Por volta das 11h30, os movimentos ocuparam a pista central da avenida e marcharam até a altura do prédio do Detran, onde foram barrados pela PM. Os policiais usaram a Tropa de Choque e gás de pimenta para conter a passeata, o que causou tumulto, sem que ninguém se ferisse, no entanto.
Samuel Tosta/Sindipetro-RJ

Policiais impedem a passagem dos manifestantes
Depois de negociação entre os manifestantes e o comando da PM, a passeata seguiu escoltada até a Central do Brasil. Para a jornalista Cláudia Santiago, da CUT-RJ, a polícia atrasou a passeata com o objetivo de "impedir o povo que estava lá [na Central] para o desfile militar de ver 'o desfile dos excluídos' e conhecer as suas reivindicações e propostas".
Recursos naturais e soberania
"É lamentável que todo um aparato policial seja utilizado para impedir que a população participe da marcha. A ala dos movimentos populares deveria ser prestigiada pelas autoridades que organizam o evento, e não serem refutadas, espaventadas, com tropas de choque e ameaças de pancadaria", comentou Abílio Tozini, diretor do Sindipetro-RJ.
Os petroleiros promovem uma campanha pela nacionalização das reservas de petróleo e gás do país, que vêm sendo leiloadas para os trustes estrangeiros todos os anos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), e da Petrobrás, que tem hoje 49,5% de suas ações sendo negociadas na Bolsa de Valores de Nova Iorque. "Estamos aqui porque é o dia da pátria e nós defendemos que o petróleo é essencial para garantir a soberania de nosso país", diz Abílio.
Soberania, para Marcelo Braga, da Central dos Movimentos Populares, é o que o Brasil de fato não possui: "A gente vem aqui para mostrar que o Brasil não tem nada a comemorar nessa falsa independência. O Brasil continua escravo e dependente do capital estrangeiro, dos grandes países, como os EUA. E as nossas riquezas já estão nas mãos deles. O povo brasileiro é dependente até hoje".
Também estiveram presentes os movimentos que participam da Campanha pela Anulação da Privatização da Vale do Rio Doce, lançada nacionalmente no último dia 14/8. Em dezembro do ano passado, o Tribunal Regional de Brasília retomou o julgamento da ação popular que pede a anulação do leilão da Vale, fato que deu origem à campanha. A ação havia sido extinta sem apreciação de mérito, em 2002, pelo Juízo Federal do Pará. A Companhia Vale do Rio Doce foi vendida pelo governo FHC, em 1997, por R$ 3,3 bilhões, em um processo marcado por diversas irregularidades, posteriormente apontadas por estudo da Coppe/UFRJ. À época, o valor da empresa era de pelo menos 1 trilhão de reais, segundo o especialista em energia Bautista Vidal.
Dívida financeira x dívida social
Uma das faces dessa dependência é certamente a dívida pública. Segundo dados da página do Grito dos Excluídos (http://gritodosexcluidos.com.br), entre 1994 e 2006 a dívida interna brasileira passou de 59,7 bilhões para mais de um trilhão de reais. De acordo com dados da Secretaria do Tesouro Nacional, em 2005 o governo gastou R$ 139 bilhões com o serviço da dívida e apenas R$ 56 bilhões com Reforma Agrária, Educação e Saúde.
"Enquanto se destina quase metade de todo o orçamento público para pagamento da dívida financeira a banqueiros, agiotas e à grande elite nacional e internacional, a gente está vendo o povo sem casa, sem terra, sem trabalho. Há uma dívida social que se acumula, com o povo, enquanto a dívida financeira é paga. Por isso, defendemos o cancelamento da dívida financeira e o pagamento da dívida social, histórica e ecológica com o povo brasileiro", diz Sandra Quintela, da campanha Jubileu Sul e do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS).
Os movimentos de mulheres organizadas também marcaram presença no Grito, criticando o neoliberalismo e suas conseqüências para as trabalhadoras. "O grito das mulheres é contra a política neoliberal, contra toda forma de opressão, contra a violência, contra crianças fora da escola, contra a péssima assistência de saúde - as mulheres estão morrendo nos hospitais com seus filhos. Acho que esse é o grande grito da marcha: ter a consciência de que para mudar a vida das mulheres tem que mudar o mundo, botar ele de cabeça para baixo", declarou Eleutéria Amora, da Casa da Mulher Trabalhadora (Cantra) e Marcha Mundial de Mulheres.
Moradia e poder popular
A ala dos movimentos de luta por moradia era uma das mais animadas do desfile. Militantes e simpatizantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e das ocupações urbanas do Rio de Janeiro marchavam ao som de batucada e cantos de protesto. "Quando o campo e a cidade se unir / A burguesia não vai resistir", gritavam os militantes, dentre outras palavras de ordem. "Nós viemos na luta pelo direito à terra, pela reforma agrária e pelos demais direitos sociais, que até hoje a população não tem acesso", explicou Fernando Moura, da coordenação estadual do MST no Rio.
Samuel Tosta/Sindipetro-RJ

Quilombolas protestam junto ao busto de Zumbi dos Palmares, na Praça Onze
Para Arcanjo, morador da Ocupação Zumbi dos Palmares e integrante do coletivo de hip hop LUTARMADA, os movimentos precisam se utilizar da "ação direta" para garantir os direitos sociais. "Independente de eleição, partido, governador, o coletivo da Ocupação Zumbi dos Palmares já deu solução para a questão da moradia, coisa que o governo não deu. E aí é que sai o nosso grito: pra moradia ter solução, vamos fazer mais ocupação", diz o rapper.
Maurício Campos, da Frente de Luta Popular (FLP), também questiona a transformação via eleições: "Hoje, mais do que nunca, está claro que o processo institucional eleitoral é uma farsa democrática, não é um processo que permita realmente a grande maioria da população, explorada e oprimida, ter qualquer capacidade de decisão sobre as questões realmente importantes na sociedade. Então, a gente acredita que a transformação vai passar por fora desses processos eleitorais institucionais, vai passar através da organização de base e da luta direta da população explorada".
Para Maurício, que participa da Outra Campanha Anti-Eleitoral pelo Poder Popular (http://outracampanha.6te.net), a unidade das diversas bandeiras presentes à passeata se dá no objetivo de "acabar com o poder dos opressores e construir o poder do povo, através da organização das lutas".
Críticas ao Pan
O Movimento Unido dos Camelôs (Muca) denunciou, durante a manifestação, que as obras para os Jogos Panamericanos consumiram até o momento, segundo números divulgados na imprensa, um bilhão de reais. "Já imaginaram todo esse dinheiro sendo usado para melhorar o atendimento à população, as praças, escolas e hospitais públicos?", questionava o panfleto do movimento.
Samuel Tosta/Sindipetro-RJ

Repúdio contra os despejos promovidos pelas obras do Pan
Segundo o Muca, a política do Prefeito do Rio, César Maia, é aumentar a repressão aos camelôs (o número de prisões já passa de 230, de acordo com o movimento) e despejar comunidades para construir obras do Pan. Cerca de 450 famílias foram despejadas com esse intuito nos últimos meses, incluindo as do Canal do Cortado, no Recreio dos Bandeirantes, como mostrou este Fazendo Media (www.fazendomedia.com/novas/politica290806.htm).