
08.04.2007
COMPRA DO GRUPO IPIRANGA PELA PETROBRÁS DEIXA TRABALHADORES COM FUTURO INCERTO
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Poucos minutos antes de começar a entrevista coletiva sobre a aquisição da Ipiranga, o assessor de imprensa da Petrobrás testava o microfone: "Checking, checking [testando, testando]". O idioma escolhido pode ter sido por acaso, por modismo ou qualquer outro motivo, mas o fato é que ele não está dissociado do modelo de gestão empreendido pela maior empresa brasileira, que vem se especializando em falar a língua dos acionistas de Wall Street. É o que tem sido observado nos últimos anos e mais uma vez ficou bastante evidente nesse encontro com a imprensa, realizado na terça-feira (20/3), no Edifício Sede (Edise).
Marcada para as 14h, a entrevista coletiva com o diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, e a presidente da BR, Maria das Graças Foster, começou com uma hora de atraso e durou aproximadamente 80 minutos. Inicialmente foram apresentadas as linhas gerais da compra da Ipiranga, numa negociação que vem sendo apontada como a maior da história do país. Foram investidos US$ 4 bilhões, sendo que a Petrobrás entrou com US$ 1,3 bilhão, a Braskem com US$ 1,1 bilhão e a Ultra com a emissão de 52,8 milhões de ações.
Em nenhum momento os executivos da empresa se manifestaram com relação aos trabalhadores da Ipiranga. As perguntas foram limitadas e a entrevista foi encerrada sem que todos os jornalistas presentes pudessem esclarecer suas dúvidas. O Fazendo Media entrou em contato na terça-feira (20/3) com assessoria de imprensa da Petrobrás Distribuidora e perguntou: o que acontecerá com os funcionários da Ipiranga? Serão todos incorporados à Petrobrás ou haverá demissões? Com relação aos incorporados, quais serão suas condições de trabalho? Seu vínculo será o mesmo dos empregados da Petrobrás ou serão terceirizados? Até o final de quarta-feira (21/3), a Petrobrás não havia respondido. Na semana seguinte, um novo contato. Mas a empresa silenciou novamente.
Na segunda-feira (19/3), centenas de trabalhadores petroquímicos protestaram no Rio Grande do Sul contra a venda da Ipiranga. Eles alegam que a produção de eteno será monopolizada pela Braskem (que passará a ter 70% do mercado) e que milhares de empregos estarão ameaçados. Em entrevista ao boletim eletrônico da Confederação Nacional do Ramo Químico, Carlos Eitor Rodrigues, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Petroquímicas de Triunfo/RS, explicou o porquê. "Nosso parâmetro foi a atitude que a Braskem tomou quando assumiu o Pólo de Camaçari, na Bahia, em 2002, onde houve devastação nos empregos e ataque aos direitos dos trabalhadores" .
O sindicalista refere-se às cerca de duas mil demissões feitas pela Braskem na Bahia e outras cem no RS. Eitor estima que o Pólo Petroquímico gaúcho seja composto por nove empresas que empregam 2.400 trabalhadores diretos e outros 3.500 indiretos. Com a concretização do negócio, cerca de dois mil desses trabalhadores ficarão subordinados à Braskem.