Está em curso uma pesada campanha
difamatória contra os novos dirigentes do IPEA – o
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada,
órgão atualmente subordinado ao
recém-criado Ministério de Assuntos
Estratégicos e presidido pelo economista Márcio
Pochmann.
O pretexto para a orquestrada campanha foram
mudanças de natureza administrativa, que começam
a ser operadas no órgão, a partir da posse dos
novos dirigentes do Instituto, que conta também com a
participação de João Sicsú,
assim como Pochmann, acadêmico dos mais qualificados,
além de professor do Instituto de Economia da UFRJ.
Algo que seria absolutamente corriqueiro
– inclusive com amplo amparo e exigência de normas
administrativas e legais em vigor – passou a ser apresentado
em veículos da grande imprensa como um triste exemplo de
perseguição ideológica e cerceamento
ao livre exercício analítico e de pesquisa que
deveriam caracterizar o trabalho dos pesquisadores dessa
instituição.
A campanha teve início no dia 15/11,
em matéria assinada por Guilherme de Barros - "IPEA expurga
economistas divergentes" -, na Folha de S.Paulo, em seu caderno
Dinheiro, e sabe-se que foi instigada por dois ex-dirigentes do Banco
Central e do Ministério da Fazenda, hoje ocupando cargos
importantíssimos na direção de um
grande banco, aparentemente ainda de capital nacional.
No dia 16, sexta-feira, Guilherme de Barros
volta ao assunto, inclusive comentando o último artigo de
Fábio Giambiagi, um dos economistas supostamente
perseguidos. Nesta edição da Folha, Elvira Lobato
faz entrevista com Pochmann – que naturalmente rejeita a
versão apresentada pelo jornal no dia anterior:
“O termo usado no texto da Folha, para
mim, é uma ofensa. Tenho mais de duas décadas de
atividade acadêmica. Sou polemista, gosto da
polêmica. Significaria que, ao ocupar um cargo
público, eu estaria estabelecendo a censura, o
monopólio. Eu também tenho críticas
à política econômica. Tenho me
manifestado contra a política de juros. Meu papel no Ipea
é garantir pluralidade e dar transparência a
diferentes visões. Não estou lá para
organizar o consenso, mas para organizar o dissenso”.
Elvira Lobato também ouviu
Gervásio Rezende, outro dos economistas supostamente
injustiçados, que alega que seus estudos - contestando a
existência de trabalho escravo no meio rural - teria
desgostado o governo e seria o motivo para o seu afastamento. Elio
Gáspari no domingo, na coluna que publica no O Globo e na
própria Folha, volta ao assunto - "O comissariado vai mal no
IPEA" - e Miriam Leitão (O Globo) e Cristiano Romero (Valor
Econômico), nas respectivas edições de
21/11, também atacam Pochmann e Sicsú. O Valor
Econômico nesse dia também dedica um editorial ao
assunto, acompanhando o que já havia ocorrido com o
próprio O Globo e com o jornal O Estado de S.Paulo.
As matérias produzidas
também induzem o leitor a acreditar que está em
curso uma caça às bruxas no IPEA, que nem no
período da ditadura teria ocorrido, a partir de
opiniões que teriam sido buscadas junto a outros
economistas. Sabe-se, contudo, que ao menos em dois casos –
em relação aos economistas João Paulo
dos Reis Veloso e Reinaldo Gonçalves – suas
opiniões não foram reproduzidas pelos jornalistas
que os ouviram, na medida em que não corroboraram com a
versão que interessava de ser divulgada.
O fato é que haviam dois
funcionários aposentados do IPEA, Gervásio
Resende e Regis Bonelli, que tinham sala e utilizavam recursos
públicos para desenvolvimento de atividades no interior da
Instituição, sem qualquer vínculo
formal com a casa. Consultados os órgãos internos
de controle, inclusive a Procuradoria da Advocacia Geral da
União, no IPEA, foi notificada à Diretoria do
Instituto a situação totalmente indevida.
Por outro lado, por força de um
convênio de cooperação
técnica em vigor até o dia sete de dezembro desse
ano, entre o IPEA e o BNDES, desenvolviam atividades na
instituição os funcionários do BNDES,
Fabio Giambiagi e Otavio Tourinho. Esses técnicos
não pertencem aos quadros do IPEA e nem foram cedidos ao
IPEA, em tempo algum. Entretanto, atuavam como se fossem quadros da
própria instituição, sendo que
Giambiagi era o responsável inclusive pelo chamado Grupo de
Acompanhamento Conjuntural do órgão. É
importante destacar que o trabalho previsto no convênio
refere-se a uma pesquisa sobre o papel do BNDES no financiamento do
desenvolvimento.
Há inúmeras
dúvidas com relação ao trabalho que de
fato esses técnicos do BNDES efetivamente desempenhavam
dentro do IPEA. Contudo, em relação a esse ponto,
Márcio Pochmann em entrevista deixou muito claro o que
espera: "Eles têm que entregar o relatório
(referente às conclusões da pesquisa), pois tem
dinheiro publico envolvido. Somos republicanos. Temos de agir dentro
das normas. Se as pessoas saem de um lugar para outro com um objetivo,
esse objetivo tem que ser cumprido".
As razões que levaram com que os
fatos que ocorrem dentro do IPEA viessem a ser profundamente
manipulados e deformados, pelas matérias publicadas e aqui
mencionadas, relacionam-se aos posicionamentos que Márcio
Pochmann e João Sicsú têm assumido
frente ao debate sobre a política econômica. Ambos
são críticos contundentes das
políticas pretensamente de austeridade fiscal, preconizadas
especialmente pelos banqueiros e economistas relacionados aos
interesses do mercado financeiro. Pretensamente de austeridade fiscal,
pois esses defensores da ordem imposta por Lula e pelo Banco Central
conseguem construir um silêncio sepulcral em
relação à irresponsável
política monetária, principal fator de
desequilíbrio das contas públicas.
Ao invés de se oporem à
orgia de gastos que o pagamento de juros provoca e à forma
como a dívida pública é gerida,
são críticos que preferem denunciar uma suposta
irresponsabilidade nas despesas de manutenção da
máquina pública, nos gastos sociais ou em uma
excessiva generosidade na concessão de benefícios
previdenciários e nos programas de transferência
de renda aos mais pobres. Mesmo depois de nomeados para os cargos que
agora ocupam, Pochmann e Sicsú têm continuado a
alertar em seus artigos para a iniqüidade de uma
política – em curso no atual governo –
que a rigor transfere renda dos mais pobres para os mais ricos. Ambos
têm também deixado claro que caso queiramos
atingir níveis satisfatórios de crescimento
econômico e de distribuição da renda
nacional, o papel do Estado brasileiro é fundamental,
inclusive chamando a atenção para a sua diminuta
dimensão, frente às suas imensas
responsabilidades e em comparação aos
países desenvolvidos.
Esses, na verdade, são os
“pecados” desses atuais dirigentes do IPEA.
Contrariam aos interesses dos banqueiros e financistas, que
não querem e não podem permitir que a atual
política econômica seja criticada. Contam, para
tanto com a cobertura facciosa, orquestrada e irresponsável
com que esses setores da imprensa atuam. Cristiano Romero, articulista
do jornal Valor Econômico, intitulou o
seu artigo do dia 21 de novembro como “IPEA: o alvo
é a política monetária”.
Nele, afirma que “a expulsão de quatro renomados
economistas do IPEA é parte de um movimento maior que vem
ocorrendo há algum tempo dentro do governo”. Quis
se referir ao fato de economistas considerados desenvolvimentistas
– como é o caso de Pochmann e Sicsú
– estarem ocupando cargos públicos no governo
Lula. Além de mentir – a
“expulsão” de economistas no caso do
IPEA só pode existir na cabeça de quem quer
confundir e manipular os fatos –, o jornalista deixa claro
quem de fato exerce a discriminação
ideológica e o patrulhamento político.
E evidencia que o alvo da campanha
difamatória em curso é a defesa intransigente da
“galinha dos ovos de ouro”: a política
monetária que garante a bancos e
instituições financeiras os lucros
astronômicos e indecentes que os seus balanços
revelam.
(*) Paulo Passarinho é economista.