
Editora: Raquel Junia - raquel@fazendomedia.com
04.10.2006
EMPREGADOS PELOS SANTINHOS
Panfletagem nas ruas, boca-de-urna, distribuição de santinhos... Conheça um pouco do dia-a-dia dos cabos eleitorais, esses famosos desconhecidos
Mídia Independente

Por Luiz Fernandes e Marcos W.V - contato@fazendomedia.com
Véspera de eleições, as ruas lotadas, papéis com nomes e fotos colorindo o cinza do asfalto. Com as cabeças sob o sol e uma centena de folhetos nas mãos, lá estão eles, incomodando quem passa apressado e sendo incomodados por quem não gosta das propagandas.
A cena é conhecida por todos que precisam enfrentar o centro de qualquer cidade no período das eleições. Alvos de muitas reclamações, os cabos eleitorais, na maior parte das vezes, nem sabem de quem é a propaganda que entregam. Desempregados em sua enorme maioria, apenas fazem a distribuição de panfletos pela remuneração.
Saímos às ruas e falamos com dezenas de pessoas que distribuíam "santinhos" de candidatos (mesmo assim não conseguimos estabelecer relação alguma entre santo e político). Com os depoimentos pudemos confirmar várias hipóteses que já havíamos levantado. Falamos sobre políticos, sobre propaganda política, sobre a escolha de candidatos, sobre desemprego, entre muitas outras coisas.
Joseane Alves de Moura, de 31 anos, que está desempregada desde abril, faz campanha para os candidatos a deputado federal e estadual, Geraldo Pudim e Altineu Cortes (ambos do PMDB), respectivamente. Disse que não iria votar em Pudim, que foi leito, porque ele é de Campos e nada fez por aqui. Votará no candidato a deputado estadual porque no último mandato Altineu realizou várias obras na comunidade dela, situada em São Gonçalo.
O pagamento de um "panfletário" varia muito; o que influencia no preço é o candidato e/ou o partido panfletado. Quem conhece o candidato para o qual está fazendo propaganda costuma cobrar mais barato, já que está ajudando um amigo a se promover na política. Nesses casos, alguns não sabem nem quanto vão ganhar. Apenas distribuem os panfletos e voltam no fim do dia ao comitê e recebem uma quantia que gira em torno de R$ 10 a R$ 15 diários.
Para os contratados pelo partido, a remuneração é fixada por mês em um salário mínimo. Os contratados por empresas terceirizadas de propaganda ganham salários muito diferentes de acordo com a empresa. Os salários vão de 200 a 450 reais por mês, com, no mínimo, três e, no máximo, oito horas de trabalho diário. O pagamento é em dinheiro vivo e entregue sem nenhum documento, apenas uma folha de ponto, na qual os empregados assinam sem nem mesmo ter lido as cláusulas. De onde vem o dinheiro ninguém sabe. Desde que chegue a tempo de complementar a renda ou, ainda, ser a única renda atual, eles estão satisfeitos.
Thais Campos Sampaio, 47, que está trabalhando pela primeira vez numa eleição, distribui, no bairro de Santa Rosa (Niterói), panfletos de Tânia Rodrigues (PV). Disse estar muito satisfeita com a sua candidata, já que as promessas feitas durante a campanha foram cumpridas e que esse é o motivo para votar mais uma vez.
Valdelígia faz serviço de cabo eleitoral há mais de vinte anos. Freqüenta o partido para o qual trabalha (PT) sempre que pode. Nas eleições consegue emprego temporário pelo mesmo partido. Trabalha como doméstica desde a juventude, porém, no momento está desempregada. Recebe do PT um salário mínimo (a mesma quantia que recebe quando está empregada) e sente-se bem em fazer propaganda de quem chegou a conhecer pessoalmente (Jandira Feghalli e Rodrigo Neves).
Mesmo ao afirmar que não conhece seus planos de governo, Valdelígia diz que votará nos dois, pela simpatia. Já fez o proibido "boca de urna" em várias eleições, e conta, com um sorriso nos lábios, que quase foi presa algumas vezes por isso.
A duração do serviço é o tempo para distribuir o bolinho de papel que recebem no começo da manhã. A maioria dos entrevistados concordou que isso costuma demorar mais ou menos seis horas de trabalho. Para quem pensa que é um trabalho fácil, é bom lembrar que todos eles têm uma zona demarcada, onde podem distribuir os panfletos; ou seja, são seis horas em pé e sem poder sair de uma mesma rua.
Além de tudo, os publicitários de última hora têm de agüentar os xingamentos de quem é contra o político que tem o rosto no folheto. Mesmo que na maioria das vezes não tenham nenhum interesse na política, os "panfletários" se preocupam em obter informações sobre o(s) candidato(s) para o(s) qual(is) trabalham, pois são várias as perguntas sobre as suas obras e propostas.
Annadara distribui "santinhos" de Chico D'Ângelo (PT) e de Dartanhã (PT). Estuda à tarde e, pela manhã, faz o serviço para ganhar seu próprio dinheiro e ajudar a mãe. Menor de idade, ela ainda não tirou o título, mas ao ser questionada sobre sua intenção de voto disse: "Se tivesse um título de eleitor, anularia meu voto. Porque os políticos são todos iguais. O máximo que podemos fazer é escolher aquele que mente menos". Annadara afirmou não acompanhar política, nem ao menos assistir propaganda eleitoral, pois esta última atrasa o horário da novela das oito, o que a deixa muito chateada.
O conhecimento que os "panfletários" têm sobre política se dá de forma esporádica, através dos telejornais da TV Globo (Jornal Nacional e RJTV), da leitura de impressos (como Extra, Expresso e Meia Hora) e do programa de rádio Show do Antônio Carlos, na Rádio Globo. Sabem dos escândalos que são jogados na mídia, porém nunca aprofundaram o debate sobre esse assunto.
Assim, conhecem nomes e histórias, mas não fazem as devidas ligações entre ambos. Vêem as notícias como fatos isolados, fazendo dos envolvidos atores da grande novela. Sabem comentar a indignação com o mensalão e comentar sobre a máfia dos sanguessugas, mas ao serem questionados sobre quem participou do que, respondem de forma simplista como a grande imprensa tenta colocar: "o governo" ou "o PT".
Flávia Ribeiro Barros, 24, também panfleta para Chico D'Ângelo (PT). Votará nele porque o candidato se comprometeu a ajudá-la na festa de dia das crianças da qual Flávia participa. De acordo com ela, o candidato, que foi eleito, também ajudou a construir a casa da irmã, além de muitas outras.
A maioria dos cabos eleitorais não tem o costume de acompanhar a política nacional. A preocupação maior deles é com as áreas onde moram; por isso, se informam com parentes ou conhecidos sobre os políticos locais, principalmente quanto a vereadores e deputados estaduais. Para muitos, o governo do país se resume ao presidente.