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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



04.09.2007
REFLEXÕES SOBRE O CINEMA BRASILEIRO

Por Joana Antonaccio (*)

Como diz Tom Zé em uma das suas canções: “Refinada poliglota, anda pela direita, anda pela esquerda... mas a consagração veio com o advento da televisão... de diversas cores / de vários sabores, a burrice está na mesa...”

Ao ler o “Segundo Caderno” do jornal O GLOBO entre os dias 26 e 28 de agosto, seguiu-se a primeira das primeiras páginas das sessões de desgosto: uma grande e “nobre” matéria sobre o filme de ficção “ônibus 174”, produzido por Bruno Barreto, onde ele e o jornalista explicitam suas indignações e sentimento de injustiça ao falar que a produção não foi contemplada com os patrocínios da Petrobrás e do BNDES.

O diretor brincou, vingativo, falando que gostaria de colocar no início do filme uma tarja com os dizeres “este filme não foi patrocinado pela Petrobrás”; no entanto, tem como financiadores ricas empresas como a Fox Filmes e a Globo Filmes, entre outras. Coitadinho dos Barretos! Tão injustiçados! Com a política de democratização cultural-regional do ministro Gil – o que de fato está funcionando – as cartas não são mais “tão” marcadas e os Barretos ficaram de fora deste edital... Que pena... Coitadinhos realmente... São artistas sem meios para se expressar, pois não têm e nunca tiveram acesso a várias empresas privadas poderosas... Ai, Ai...

Pensando bem, se o filme já está sendo feito, ou seja, já tem dinheiro para realiza-lo, qual seria o destino da verba que foi para os outros (que provavelmente bancaram o filme inteiro com este recurso)? Será que com mais este acréscimo o “Ônibus 174” teria uma história mais bem contada ou apenas aumentaria o luxo e as regalias da produção?

No dia seguinte, ou dois dias depois, outra matéria estampa a primeira página do “Segundo Caderno” reportando a indignação do diretor de “Tropa de Elite”, José Padilha, onde ele, totalmente ressentido, fala da injustiça cometida pelas pessoas que compram filmes piratas, como se não soubesse da condição econômica da maioria daqueles que vivem em seu mesmo país, como se não soubesse quanto custa a entrada do cinema (cerca de R$ 18 reais por pessoa), como se não soubesse que ainda não há política pública de democratização para a exibição de filmes, etc.

Padilha dizia que os diretores e produtores também têm família para sustentar e quem alimenta a pirataria é desumano... Em que mundo essas pessoas vivem? Será que elas sabem quanto custa levar a família para assistir o filme? Aliás, pra completar a falta de auto-crítica, eles também se esquecem que a grande maioria dos filmes brasileiros são feitos principalmente com o dinheiro público via lei de incentivo fiscal. Ainda por cima, a equipe deve ter ganhado muito bem e este cachê veio em sua maior parte por esta mesma isenção fiscal das empresas... Ou seja, ainda foi o povo que pagou o filme... Qual é o problema de o povo ver uma coisa que ele próprio pagou para existir?

Ouviu-se de um cineasta alemão que vira trechos do “Tropas de Elite” na internet: “Mas fizeram um filme encomendado pelo Bope... Para quê propaganda para o Bope?”

No dia seguinte o leitor encontra a coluna de Artur Xexéo defendendo os injustiçados. Mesmo antes de ver o filme, Xexéo dizia – ou melhor, quase berrava pelas folhas do jornal - que “Tropa de Elite” era o melhor do ano...

Pra completar o derradeiro desgosto de agosto, fui ver “Cidade dos Homens”. Filme muito bem feito na construção de sua dramaturgia, técnica, trilha sonora e tudo mais. O problema é que usa como “pano de fundo” para uma história de amizade nossos problemas atuais mais profundos como válvula emocional da aventura e da sacanagem para entreter o espectador.

Ora, eu sou uma pessoa apaixonada por fábulas, mas pelo mínimo senso ético, não as use para comover a massa e manipular uma verdade parcial! Se ainda fosse um estudo antropológico, poderia então existir algum senso crítico. Não que todos os filmes precisem ser político-sociais, mas então, tirem-no deste contexto! Costure com coisas imaginarias, não trate o traficante, as armas, a violência, a polícia e tudo o que é tão presente nos dias de hoje como se não existisse um contexto político, econômico e social por detrás.

O quê e a quem acrescenta esta coleção de filmes que com divertimento colabora com a passividade, a morbidez e o descaso quando se faz parecer que os lindos negros e mulatos estão apenas brincando com suas vaidades numa realidade “ali qualquer”? Será que ninguém vai nem sugerir da onde vem este monte de armamento, quem faz o tráfico caro e pesado da droga, como os policiais tratam um criminoso “comum”, que também continua sendo criminoso “político” na maioria das vezes, mas que não tem esta consciência como tinham os presos da ditadura ou como os diferentes poderes tratam as pessoas que moram na favela? Será que nunca vão colocar um “engravatadozinho” nem que fosse no canto da tela?

Sabemos que a maioria dos diretores e produtores não convivem com esta realidade e, através de seus produtos, sublinham o fato de viverem num mundo totalmente à parte enxergando tudo como um grande zoológico ou um olhar distanciado de um estudo antropológico de péssima categoria por não haver envolvimento, nem estudo profundo, nem a proximidade de um sentimento mais humano que se bastaria nos instintos destes que se dizem artistas. Artistas insensíveis? Existe esta categoria?

Sempre que posso coloco sem pudores meus óculos azuis ou cor de rosa para ver a vida mais bela... Mas, por favor, não façam de mim mais uma bezerra otária da eterna manipulação midiática do poder que se estende cada vez mais, infiltrando-se em formas culturais.

E no mais, a vida continua alegre e triste - mas sempre linda, por ser vida... Salve Tom Zé!

(*) Joana Antonaccio é cineasta.


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