
Editor: Breno Costa - costa@fazendomedia.com
03.11.2005
A MÍDIA COMO PORTA-VOZ DA POLÍCIA
Veículos de comunicação tratam as favelas como espaço inimigo
Por Brisa Grillo - redacao@fazendomedia.com
"Faz dois anos que desapareceu o jornalista Ivandel Godinho". Foi como a vice-presidente do Sindicato dos jornalistas, Janice Caetano, abriu a primeira tarde do fórum de debates Mídia e Violência, realizada no auditório da Firjan, no centro do Rio, em outubro. Ivandel Godinho, a quem Janice se refere, era diretor da empresa de assessoria de imprensa In Press, no Rio de Janeiro, mas foi seqüestrado em São Paulo, em 22 de outubro de 2003. A família, até agora, não sabe de seu paradeiro. "Depois da morte do Tim, a gente vem discutindo pontualmente a visão da mídia e a cobertura efetiva que se faz no front", disse.
A idéia do fórum de debates partiu de uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC), da Universidade Cândido Mendes, que discute a cobertura da violência e da segurança pública, tanto no Rio de Janeiro quanto em outras cidades. A coordenadora do Cesec, Julita Lengruber, lembra que nos anos 80 a mídia atuava de forma muito sensacionalista. "A mídia atua, hoje, de forma mais crítica, embora longe de ser o ideal. Em um estado como o nosso, em que os controles externos e internos da polícia funcionam muito mal, é importante a presença da mídia nesse papel. Ela tem sido fundamental para divulgar, denunciar e cobrar das autoridades providências na área da corrupção e da violência policial", explicou Lengruber.
A pesquisa do Cesec ainda avaliou outros pontos concernentes à cobertura da violência. Partindo de uma análise de nove jornais, divididos igualitariamente entre os estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, entre maio e setembro de 2004, foi avaliado que, de toda a produção jornalística envolvendo violência e segurança pública, 48% tratam do Rio de Janeiro. "Isso é muito desigual, principalmente tendo em vista que, em termos de volume, no ano passado, São Paulo teve, por 100 mil habitantes, uma taxa de homicídios maior (cerca de nove mil) do que a do Rio (cerca de seis mil). Na Folha de S. Paulo, no entanto, das matérias sobre segurança pública, quase 30% são sobre o Rio de Janeiro. Olhando também pelo caráter analítico, as matérias desta editoria são muito factuais: 94% delas não mencionam dados ou estatísticas. A polícia é a fonte principal de 1/3 das matérias enquanto especialistas, pesquisadores e sociedade civil só são fontes em 4% das matérias. Que discussão é essa que a mídia está travando?", questionou.
Mostrando o ponto de vista do jornalista policial, a repórter Elenilce Bottari, do jornal O Globo, e Fernando César, da TV Record, também expuseram suas experiências. Para Bottari, a cobertura incisiva e diária da violência carioca é necessária. "Cresceu muito a necessidade de explicar que essa violência toda não é normal. Pode ter tiroteio todo dia na favela, pode ter seqüestro, morte, mas isso não é normal. Tentamos analisar isso, ouvir mais as pessoas, fazer pesquisas. Isso que a gente traz faz parte da nossa realidade, acontece todo dia. Se São Paulo não divulga, eu acho um erro. Porque acaba morrendo gente sem saber", disse. A jornalista afirmou que o relacionamento, dentro das favelas, com os traficantes, que já não estava bom, acabou de vez após a reportagem do "Feirão das drogas", feita por Tim Lopes. "Antigamente o tráfico nos deixava entrar porque fazíamos um trabalho social lá dentro. À medida que a polícia começou a se corromper, a nossa presença foi ficando desnecessária, ainda mais quando a gente denunciava a corrupção e o próprio tráfico", contou.
Bottari lembra que, depois da morte do Tim Lopes, começou a haver uma série de discussões nas redações, avaliando se o repórter deveria, ou não, usar colete à prova de balas e carro blindado no exercício da profissão. "Isso seria plausível se estivéssemos em Convenção Internacional. Isso é coisa de guerra. Decidimos que não funcionaria essa coisa de colete, mas sim, que acabaria com essa palhaçada de, na hora do tiroteio, o repórter e o fotógrafo subirem para ficar abaixados, levando tiro. Porque, na verdade, acabam não produzindo nada. Aliás, em tiroteio, o bom é ficar do lado de fora, porque você vê a população desesperada, que é o que interessa, e não subindo e correndo perigo à toa".
Em sua breve fala, Fernando César, repórter do programa Cidade Alerta, da TV Record, mostrou vídeos seus e de colegas, enfrentando tiroteios escoltados pela polícia no intuito de realizar incursões dentro de favelas. Justificando a linha editorial do Cidade Alerta, Fernando César disse que tais reportagens existem para provar o quão são despreparados os policiais cariocas.
A maior parte das coberturas policiais é realizada dentro de favelas, tomando seus moradores como personagens. Para o diretor do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), Jailson Silva, a mídia generaliza a favela como um espaço inimigo, sujo e que precisa ser afastado. "Fazem parecer que ali não tem pessoas, mas problemas a serem resolvidos. O foco da imprensa ainda está no tráfico, mas ela vai se arrepender, pois a favela é muito mais complexa do que é mostrado", afirmou. Jailson lembrou a reportagem sobre o "caveirão" (veículo utilizado pela Polícia Militar para realizar incursões na favela) feita pelo Fantástico, da Rede Globo. Segundo Jailson, o veículo, que oficialmente é chamado de "pacificador", não possui local para prisão, tendo apenas frestas de onde o policial atira. Os corpos das vítimas são colocados na frente do carro, exibidos como "troféus" pela favela.
O grande fator de violência, para Jailson, é o distanciamento gerado pela imprensa, que associa pobreza à violência. "Recentemente, aconteceu um caso que ilustra bem essa situação: quatro meninos invadiram a refinaria, próxima a Manguinhos, todos foram encontrados mortos e com eles apenas uma pistola. Há três possibilidades neste caso - ou eles tinham fuzis e estes foram "escondidos" pelos policiais, ou não os tinha e foram covardemente executados pelos policiais, ou nem mesmo pistola tinham e foram "premiados" com o "kit bandido". A mídia não investigou o caso e notificou (Jornal O Globo) - "Bandidos invadem refinaria". Aí me pergunto: eram mesmo bandidos?".
O diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e ombusdman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, disse que "logo de cara" é preciso questionar os pressupostos da polícia. "A imprensa precisa evoluir sua cobertura de polícia, saindo do simples rechear com aspas, em que são reunidas diferentes opiniões, geralmente só oficiais, para uma cobertura mais técnica do trabalho da polícia, com pesquisas, investigações e fazendo uma eficaz identificação da autoria", avaliou. Depois da morte de Tim Lopes, os repórteres decidiram não subir mais nas favelas em momentos de confronto e, segundo Beraba, "não perdemos nada com isso". O jornalista aponta, no entanto, que o caminho que a imprensa seguiu, usando a polícia como única fonte em suas coberturas, desencadeia dois problemas: "Um para os leitores, que não têm acesso a um testemunho da imprensa e sim, a versões do fato, e outro, ainda mais sério, dessas comunidades, que perdem o meio de expressão", concluiu.