......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



26.09.2007
RBS: 50 ANOS EM 5 MINUTOS

Por Alvaro Andrade, de Porto Alegre

Desde setembro o povo gaúcho tem sido convidado a visitar a exposição "No Ar: 50 anos de Vida" em que o grupo de comunicação RBS apresenta, à sua maneira, a história do Brasil e do Mundo nas últimas décadas. Em tópicos, de forma sucinta, resumida e high-tech, a mostra é, além de pretensiosa, fajuta, pois subtrai acontecimentos e distorce fatos.

Nas últimas décadas o grupo empresarial insistiu em apresentar-se como um veículo sério, imparcial e acima de qualquer crítica. Porta-voz incondicional de seus leitores, telespectadores e ouvintes, sempre atendeu ao tradicional conservadorismo gaúcho. Nos espaços dedicados aos leitores e colunistas, preponderam as manifestações que se valem do bairrismo e à exaltação da tradição para nortear toda forma de pensamento sócio-político.

Aliada de todas as horas
A história da RBS está repleta de exemplos que comprovam sua constante predileção por governos conservadores. O jornal Zero Hora ocupou o lugar da Última Hora, fechado pelo regime militar por apoiar Jango. O caminho trilhado pelo grupo é marcado pelo servilismo e boas relações com os governos da ditadura, quando a RBS, assim como a Rede Globo, conseguiu novas concessões e expandiu suas fronteiras. Três dias depois da publicação do Ato Institucional n° 5, Zero Hora publicou matéria sobre o assunto onde afirmou: “o governo federal vem recebendo a solidariedade e o apoio dos diversos setores da vida nacional”. Já em 1° de setembro de 1969, o jornal publicou um editorial intitulado “A preservação dos ideais”, onde exaltou a “autoridade e a irreversibilidade da Revolução”. A última frase do editorial é emblemática: “Os interesses nacionais devem ser preservados a qualquer preço e acima de tudo”.

As citações ajudam a entender porque, ao contrário de tantos outros veículos, durante toda a ditadura o jornal nunca tenha sido impedido de circular. Em contrapartida, após as Diretas, o mesmo jornal censurou o colunista Luis Fernando Veríssimo por ter chamado Fernando Collor de “ponto de interrogação bem penteado”.

Macarthismo Gaúcho
A matéria que culminou com a decisão judicial que ordenou o recolhimento de ZH na véspera do segundo turno das eleições de 1998 foi apenas o prelúdio de como seria o comportamento do grupo durante o Governo da Frente Popular, formado exclusivamente por partidos de esquerda. Nunca houve na história da imprensa gaúcha tamanha cobrança sobre uma administração, seus secretários, atos e propostas: enlouqueceram com a transferência de investimentos da Ford para a Bahia, quando foi negada a montanha de benefícios fiscais oferecidos pelo governador do Rio Grande do Sul Antonio Britto; espernearam com a manutenção do Banrisul sob poder do Estado; debocharam do Secretário de Segurança durante os quatro anos de sua gestão que buscou ser mais humana e menos violenta; minimizaram o impacto e a grandeza do programa Orçamento Participativo, assim como a criação da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e do salário mínimo regional. Hoje fica nitidamente claro a quem tiver a vontade de enxergar a perseguição de que foi vítima o governo de Olívio Dutra.

O atual Governo, sob a batuta da centralizadora Yeda Crusius, que reúne mais de 15 partidos na base aliada, produziu em menos de um ano uma quantidade enorme de escândalos, trapalhadas e medidas dantescas, onde a cobertura dos grandes veículos foi superficial e momentânea, e mesmo com o agravamento da deficiência na prestação de serviços públicos não há uma cobrança constante. Paradoxalmente, mesmo com uma enormidade de investimentos no Estado, o Governo Federal recebe muito mais atenção pelas crises criadas diariamente pela oposição e pela controversa base aliada, do que propriamente por suas realizações.

Os movimentos sociais também sofrem constante perseguição dos guardiões da moral e dos bons costumes. Qualquer manifestação que não seja “ordeira” dá margem a comentários que exaltam a “baderna”. No caso do MST, a cobertura visa apenas criminalizar o movimento, sem qualquer aprofundamento nas motivações e desdobramentos de seus atos, que segundo os editoriais “são um atentado ao direito à propriedade” e que sequer questionam a necessidade da redistribuição de terra dos imensos latifúndios que ocupam quase metade do Estado.

Dos áureos anos do Fórum Social Mundial, quando Porto Alegre foi considerada a "capital mundial das esquerdas" aos dias de hoje, muita coisa mudou no Rio Grande do Sul, em boa parte sob influência da formação da opinião pública que se dá através de um monopólio que reforça e instiga o preconceito ao esquerdismo.

Telhado de vidro
A RBS foi parceira de primeira hora no processo de privatização das telecomunicações no país, durante os governos de FHC e Antônio Britto. O lobby pela venda da Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações (CRT) escondeu a participação da RBS com a Telefônica para aquisição de 35% da estatal. Depois de consumados os estragos neoliberais, o ex-ministro-chefe da Casa Civil de FHC, Pedro Parente, assumiu um alto cargo na direção da RBS, um mês depois de deixar o Governo. Outros temas mais complexos, nem por isso menos relevantes poderiam ser destacados. Uma análise mais aprofundada pode ser acessada no site do movimento ‘Zero Fora’, que reproduz um dossiê elaborado pela revista "Porém".

Estes resgates são importantes na medida em que jamais serão lidos nos "democráticos" espaços do grupo, tampouco serão vistos na Usina do Gasômetro. Não se pode admitir que a história seja simplificada resumindo a evolução do Brasil a Kombis, eletrodomésticos, conquistas esportivas e caras-pintadas. A parcela da população que realmente lutou e mudou a nação é subtraída em detrimento da simplificação. Enquanto isso, sorrateiramente, a grande imprensa quer assumir o papel de baluarte da democracia, cobrando ética dos governos e empurrando para debaixo do tapete suas páginas manchadas pelo sangue dos perseguidos pela ditadura, o mesmo regime que deu o impulso para que hoje se constituíssem em grandes impérios midiáticos. Até novembro, quando encerram-se as comemorações, o povo gaúcho terá de conviver com a prática exaustiva do “auto-elogio e da amnésia seletiva”.


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