
Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com
03.06.2006
LUCIO VAZ: SABER INVESTIGAR É SABER ESPERAR
Por Julia Pitthan, Vanessa Valiati, Eduardo Lorea e Fabiana Klein - contato@fazendomedia.com
Lucio Vaz, repórter especial de política do Correio Braziliense, palestrou em Novo Hamburgo (RS) na quinta-feira 18 de maio, durante a semana acadêmica da Comunicação do Centro Universitário Feevale. Seu nome ganhou espaço em outros jornais no início do mês, quando foi divulgada a ameaça de morte registrada em gravações telefônicas por envolvidos na máfia das ambulâncias, que ele investigou em dezembro de 2005. Depois do evento, o jornalista falou ao Fazendo Media sobre os bastidores de suas reportagens compiladas no livro “A Ética da Malandragem”, publicado no início do ano pela Geração Editorial. Sobretudo falou de como fazer jornalismo investigativo no Brasil.
Eis as impressões de quem esteve com ele.
Maturação: 10 anos
Por Júlia Pitthan
Lucio Vaz é um homem que sabe beber. Recusou cerveja, disse que estava com a garganta ruim. Aceitou um cálice de JP, um vinho gaúcho barato. Pediu tinto seco e uma garrafa de água sem gás.
Sabe beber porque espera. E nós, no afã da juventude, sorvemos tudo. Bebemos mais de cinco garrafas de cerveja, a água de Lucio Vaz e todas as suas histórias.
Dez anos na Folha de S. Paulo como repórter de Política renderam a ele uma invejável lista de contatos e, mais do que isso, a ciência do jogo no Planalto Central. Qual funcionário tem acesso à folha de pagamento da Câmara? Como escutar e noticiar a fala de um parlamentar em reunião fechada? Que gostos, que manias, que taras tem certo deputado?
Isso exige tempo. Degustar aos poucos e não deixar embriagar-se. Porque o Congresso é jogo de poder, que, quando corrompe, escorre pelos cantos da boca, como bem descreve Lucio Vaz. Aí a pilha de denúncias que chega a sua mesa todos os dias, as quais nem dá conta de investigar.
O jornalismo que denuncia, que descobre fraude, crime. Esse leva tempo. Um ano, até dois na mesma investigação. É preciso calma. Quem fala? O que prova? A quem interessa?
Na mesa do bar, após a fala regulamentar no auditório azul da Feevale, Vaz adiantou: leva-se no mínimo uma década para começar a receber informações. Ainda não estamos com pressa. Afinal, como sintetiza a máxima ululante do companheiro Wando, do Centro Acadêmico da faculdade, “o jornalista é uma pessoa”. E demora mesmo pra ser gente.
Depois disso, Novo Hamburgo ficou pequena demais. E aí fomos para Porto Alegre.
Pelo público, pode
Por Vanessa Valiati
O que tinha tudo para ser uma palestra cheia de academicismos e “certo e errado” da profissão acabou bem diferente. Na mesa de um bar underground de Novo Hamburgo, antes de partir, Lucio Vaz contou as histórias do seu submundo: o do Congresso Nacional. Falou das minúcias do jornalismo investigativo, bastidores e da paciência necessária para se chegar ao ápice da carreira de repórter, sem se importar com os sons de Black Sabbath e AC/DC ao fundo. Resolvia questionamentos de jovens aspirantes ao cargo de repórter, enquanto sorvia com parcimônia seu JP. Olhos atentos buscavam respostas, que vinham em forma de conforto.
Vaz é modesto e sóbrio no que diz respeito ao jornalismo. Jornalista deve investigar. E não deve ter pressa. Jornalista deve ter limite, porém é difícil encontrá-lo. Pode ouvir atrás da porta, desde que seja de interesse público. Jornalista não precisa ganhar mal, ao contrário do que afirma o senso comum. Precisa ter paciência para colher os frutos do trabalho – precisa cerca de dez anos para conseguir a desenvoltura necessária para locomover-se entre as fontes conquistadas. Jornalista também pode ter um hobby. Vaz começou pintando quadros, ainda hoje se diz apaixonado pela arte, apesar de pintar mais outros quadros – da tragédia política nacional – com maestria.
Ética para ladrões
Por Fabiana Klein
Lucio Vaz virou especialista em cobrir o Congresso de parlamentares de pouca ou nenhuma expressão. Tendo atuado durante algum tempo na cobertura das ações dos grandes articuladores, confessa ter predileção por dar notícia desses notáveis de espírito burloso. O assunto que não interessava a outros colegas rendeu a Lucio um ambiente onde o jornalismo investigativo, aquele de grandes reportagens e cumpridor de alguma função social, pode ser exercido.
Esses parlamentares menos importantes deram muito trabalho. E o making of das matérias, descritos em seu livro, interessam em especial a jornalistas em formação por contar como se dá a aproximação do repórter e a relação com esses agentes públicos. A dificuldade de cobrir esse tipo de política na qual não é permitido criar vínculos de amizade e se sentir entre iguais.
Fica claro que existe uma linha, ainda que não tão precisa, que determina até onde se pode ir, no afã de desvelar determinada investigação. Vaz cita Tim Lopes como alguém que teria ultrapassado essa baliza. Ilegalidades não são permitidas para obtenção de informação, mas como se a fraude justificasse o uso da própria fraude para combatê-la, é possível sim preparar um flagrante que obrigue uma fonte a falar. “Furos e revelações são quase impossíveis sem esse tipo de artifício”. Se fazer passar por outra pessoa para que a fonte atenda o telefone, pode. Mas atingido o objetivo, a fonte ao telefone, o correto é entregar o jogo e se apresentar como repórter.
Tivemos o privilégio de uma conversa na qual Vaz aceitou virar o jogo e se tornar fonte. Por excesso ou falta de bom senso, demorou para tirar a gravata e desabotoar o primeiro botão da camisa. Isso só foi acontecer lá pelas 2 horas da madrugada, com entrevistadores e entrevistado já há um bom tempo relaxando em uma mesa de bar. Ele se tornou um jornalista entre seus pares e, apesar do número dez em seu repertório, não mostrou qualquer pretensão de nos passar um decálogo de como ser um bom jornalista. Isso, quem resolve, são os múltiplos de dez de que ele fala.
Tem que trabalhar
Por Eduardo Lorea
Ele mora lá onde o repórter que gosta de política quer estar: Brasília. Sai quando vai trabalhar no que o repórter que gosta de jornalismo quer fazer: investigação. Conquistou esses privilégios com o meio que a ética profissional recomenda: trabalho, muito e bom trabalho.
Por isso são relevantes as reflexões coletivas produzidas no papo com Lucio Vaz. Nenhuma é grande novidade, mas vale a pena reforçá-las:
Uma boa matéria investigativa é fruto mais de transpiração do que de inspiração. Para começar, é fundamental ter acesso a uma informação desencadeadora da reportagem, o que acontece principalmente com o jornalista experiente e visível para as fontes em potencial. Com a informação na mão, conta o trabalho árduo. A paciência. A incessante busca e consulta de fontes. O cruzamento de dados.
Para obter boas informações é preciso se relacionar com gente que as detém, sem se importar com as boas intenções delas. “Exige whisky com ‘essa’ gente”, traduz Vaz. Uma fonte sempre tem algum interesse na divulgação da informação que fornece, como já dizem há muito os manuais de jornalismo, sobretudo na política. Por isso é preciso checar com cautela as informações recebidas, mas as intenções da fonte não invalidam sua utilização. O que importa é o velho e simples critério: o interesse público.
O relacionamento pode ocasionar alguma cumplicidade entre jornalista e fonte, sem problemas de consciência. Na mesma linha: Um jornalista em sua posição recebe muito mais informação relevante do que pode e é capaz de investigar e publicar. O mundo não tem um só repórter, nem um repórter responde pelo conjunto do reportariado. Se para que um execute sua função de levar ao conhecimento público uma informação relevante e, para isso, precisa deixar de divulgar outra, esse comportamento é licito; os outros membros do corpo de jornalistas podem ter acesso e divulgar a informação omitida nesse caso particular utilizando o mesmo expediente.
Por outro lado, cautela: só se publica o que se pode provar. Vale documento, vale observação direta do repórter, vale, sim, testemunho de fonte. Nesse caso, entretanto, o depoimento não pode ser em off: a fonte precisa se responsabilizar, com a revelação de sua identidade, pela informação que divulga.