......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



Editor: Eduardo Lorea - eduardolorea@fazendomedia.com


03.04.2006
ENTREVISTA: TARSO GENRO

Militante desde os quatorze anos, Tarso Genro se declara um idealista. Convencido de que seu partido tem contribuições a dar para o que chama de "processo de consolidação da revolução democrática no Brasil", ele fala ao Fazendo Media sobre a crise do PT, a relação da imprensa com o governo Lula e garante que um segundo mandato pode realizar a superação do modelo neoliberal no país.

Intelectual e político, especialista em Direito do Trabalho, foi prefeito de Porto Alegre (1993-96, 2001-02), ministro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (2003), da Educação (2004-05) e presidente nacional do Partido dos Trabalhadores no período de maior abalo da sua imagem, em 2005. O novo desafio, assumido em 31/03, é coordenar a articulação política do governo - função que já coube a José Dirceu, Aldo Rebelo e Jacques Wagner - à frente do Ministério das Relações Institucionais.

Entrevista concedida a Fabiana Klein e Eduardo Lorea.

Klein - O que será preponderante nos debates da próxima eleição: a questão ética ou a comparação de governos?
As duas questões serão chaves no processo eleitoral. O que vai determinar a vitória de um ou outro no segundo turno é a efetividade das mudanças que foram feitas. Três exemplos concretos: refinanciamento da agricultura familiar no Brasil; bolsa família atingindo setores da população marginalizados da relação com o Estado, que sequer assumiram uma subcidadania durante governos anteriores e que hoje ingressam em condições mínimas de cidadania; a forma como o Brasil se insere na política de globalização de maneira muito mais soberana e não ajoelhada como na época do FHC. São fatores importantes que não atingem a sensibilidade de uma classe média elitizada, mas que tem uma significação extraordinária na vida de milhões de pessoas. Outro exemplo é o impacto político do aumento real do salário mínimo. Isso também não atinge as camadas médias. O que passa pelas matérias da mídia tradicional normalmente, são as inquietações dos setores médios da sociedade brasileira. A questão ética é uma questão universal, mas na hora de um cidadão de classe média-baixa, de setores antes marginalizados, que não tinham dinheiro para se alimentar, escolherem em quem votar, elas não vão pela ética. Até porque sabem que os problemas que estão acontecendo com o PT aconteceram em dobro com os demais partidos das oligarquias tradicionais.

Klein - O que esperar na hipótese da reeleição? O que muda, o que fica igual?
Essa questão ainda não está decidida. Eu acho que os próximos 10, 15 dias (a entrevista foi realizada em 23/03) vão orientar as mudanças que o Lula vai ter que fazer no governo, as respostas que o presidente vai dar para a crise, do ponto de vista político, a posição que o PT vai assumir no que se refere à transição para um outro modelo de desenvolvimento, sem desfazer o que de positivo e correto foi feito pelo ministro Palocci, vai definir a disputa eleitoral. Acho que o candidato Alckmin representa muito melhor a herança do governo Fernando Henrique do que o Serra. Acho altamente positivo que o Alckmin seja o candidato, porque ele tem uma representação da centro-direita de uma maneira mais clara.

"Este é o elo mais importante do processo democrático, hoje, no país. Eleger o Lula e derrotar a herança do Fernando Henrique. [...] O resto é secundário."

Klein - Avaliando a postura da imprensa sobre a crise política: em sua opinião, ela foi exagerada? Acha que houve motivação política?
Não tenho uma visão romântica da imprensa, de que ela seja isenta e de que nela não transitem interesses. Ela não é isenta, ela transita interesses e na democracia é assim que deve ser. Agora, isso não nos suprime o direito de dizer que o tratamento dado para os problemas do governo Lula comparativamente ao governo FHC é extremamente mais duro. Evidentemente, a grande maioria da imprensa não tem simpatia pelo projeto que o presidente Lula representa. A dureza com que o PT vinha sendo atacado se revela muito mais por suas virtudes do que pelos defeitos. Se fosse pelos defeitos esta mesma campanha e uma mais violenta ainda teria sido feita contra o governo FHC, no qual o negócio feito nas privatizações provavelmente já tenha sido maior do que todos os erros cometidos pelo PT nesse período.

Klein - Se confirma sua volta para o governo? E em qual função? Qual ministério? (a entrevista foi concedida em 23/03, uma semana antes do anúncio de que ele assumiria o Ministério das Relações Institucionais)
O presidente pediu pra eu não concorrer aqui no estado (RS) porque poderia utilizar meu nome no ministério. A única coisa que eu combinei com ele é que não seria na Educação. Eu posso tanto voltar para um ministério com função política no governo como também ser indicado para a coordenação de campanha. Eu tenho obrigações para com o presidente Lula até o final de seu mandato e também de lutar pela sua reeleição, porque acho que ele é a melhor saída para o Brasil. A eleição do Alckmin, por exemplo, para mim, representaria um governo pior do que o FHC. Porque seria o projeto neoliberal em um momento em que os países mais importantes do mundo estão dando a volta por cima dele. Então pior do que o neoliberalismo é o neoliberalismo tardio, o que seria o governo Alckmin.

"No grupo dirigente anterior, quem mandava no partido era inclusive quem não era presidente do partido. Era o José Dirceu, na minha opinião."

Lorea - O senhor se sente frustrado pelos sucessivos episódios em que poderia ter alcançado reconhecimento nacional durante o governo Lula, como por exemplo o da desistência da disputa da presidência do PT, quando foi derrotado pela manutenção do poder de José Dirceu?
O grupo dirigente que está no PT hoje é independente em relação à hegemonia anterior. Mas a minha movimentação não busca um reconhecimento público, visando uma disputa eleitoral, seja para presidente da República, ou para senador, ou para governador. Eu sou um político mais no velho estilo, apenas como metáfora, mas do estilo jacobino, bolchevique. A questão eleitoral para mim sempre foi contingente. Este momento é típico: eu poderia concorrer a deputado federal, acho que me elegeria com certa facilidade; poderia eventualmente ser candidato a senador, e concorreria em igualdade de condições com o Pedro Simon; mas preferi deslocar minha energia para ajudar a reeleger o Lula. Porque acho que este é o elo mais importante do processo democrático, hoje, no país: eleger o Lula e derrotar a herança do Fernando Henrique. É aí que passam as grandes questões do futuro do país, quem sabe, os próximos 10, 15, 20 anos. Não tenho preocupação de qual vai ser o meu próximo passo eleitoral. Só Deus sabe.

Klein - Assumindo a presidência do PT, o senhor propôs sua refundação. Também sugeriu que deputados renunciassem e que o partido não permitisse suas candidaturas à reeleição. Ontem mesmo o deputado João Magno (PT-MG) foi inocentado e o PT claramente se moveu para isso. Assim, o seu movimento como presidente pode ser percebido como uma derrota?
Em relação ao movimento de refundação, a crônica política brasileira entende que os processos políticos são comutativos, rápidos, eficientes, dentro de uma visão quase que empresarial da política. Quando falei da refundação tomei esta visão como a de um movimento complexo de médio e longo prazo, de renovação programática e das lideranças. Esse movimento continua em pé, se capilarizando. Esse movimento e o futuro do partido estão ligados a três fatores fundamentais: com que programa o presidente Lula vai se apresentar para concorrer à presidência; qual vai ser o procedimento do grupo que esta dirigindo o partido atualmente em relação à campanha e à crítica dos erros cometidos pelos dirigentes anteriores; se no processo de campanha e num eventual segundo governo Lula nós vamos sinalizar efetivamente de maneira mais intensa a transição para um outro modelo de desenvolvimento. Eu vejo colunistas falando que a refundação fracassou. Eu diria que ela mal começou.

Lorea - Por que o senhor acabou não concorrendo nas últimas eleições internas? Não se sente representado pelo atual grupo dirigente do partido?
Eu não me sentia à vontade com uma parte do grupo dirigente antigo. Eu tinha uma divergência política forte em relação à gestão anterior. Também não concorri porque a polêmica que eu teria que travar, a mais dura, seria com a chamada esquerda do PT, que naquele momento tinha mais razão do que o grupo que estava dando sustentação à minha candidatura. A questão principal em disputa era a incapacidade dos dirigentes anteriores de manter o partido vivo, atuante e democrático durante o governo Lula.

Lorea - O novo grupo representa uma diferença real em relação ao antigo?
Total. No grupo anterior, quem mandava no partido era inclusive quem não era presidente do partido. Era o José Dirceu, na minha opinião. Não falo isso desfazendo o Genoíno, que é meu amigo pessoal, nem ofendendo o Dirceu. Mandava pela sua autoridade. Tinha sido presidente do partido por muitos anos e exercia influência mesmo estando fora. Isso não ocorre mais. Agora o presidente é o Berzoini, e ele dialoga com todas as correntes do partido, tanto é que nós começamos a ter resoluções políticas que não são aquelas que o governo queria.

Lorea - O PT é hoje um partido mais harmônico do que era naquele momento?
Eu diria que ele tem muito mais estabilidade política do que antes. Porque antes era uma estabilidade que vinha do autoritarismo do grupo anterior, agora vem de uma composição do grupo dirigente. Mas o PT não deve ser pacificado internamente. No dia em que assim for vai se burocratizar e se tornar um partido tradicional. Esse é o risco que ainda corremos.


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