......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



03.01.2007
"O NOSSO LADO É O LADO DO POVO"

Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com

Ao contrário de Lula, que preferiu um discurso de posse brando e pouco politizado, o governador eleito do Paraná, Roberto Requião, criticou pesadamente a atuação da direita ao longo da campanha. "Nunca se viu uma união de forças tão poderosa, tão obstinada, tão arrogante e, ao mesmo tempo, tão sem escrúpulos como a que enfrentamos", disse.

Já o presidente Lula preferiu contemporizar e adotou um tom ameno. Navegou em generalidades bem redigidas e afirmou a todo instante sua prioridade pelos pobres e deserdados. Em todo seu discurso, Lula nem sequer mencionou a exploração do sistema financeiro internacional e das elites dominantes que emperram o desenvolvimento do Brasil.

Por outro lado, Requião preferiu o enfrentamento. "Toda vez que se vêem em perigo ou depois de uma derrota, os interesses dominantes - a direita, sejamos claros - ressurge com a conversa mole da harmonia".

O governador reeleito do Paraná afirmou que do "lado de lá" estão os "interesses contrariados, como os que privatizaram o Banestado e a Copel, os que alienaram o controle da Sanepar, os que destruíram a educação pública, os que deram privilégios às multinacionais, os que se acumpliciaram com transnacionais na conspiração para submeter os produtores paranaenses ao domínio de suas sementes patenteadas, os que viviam de fraudar concorrências".

E disse que "o lado de cá" é o lado dos mais pobres, dos trabalhadores, dos pequenos, dos agricultores familiares, do fortalecimento das políticas públicas de saúde, educação e segurança, da recuperação das estradas, da construção de escolas e hospitais, da criação de empregos, da isenção de impostos, do microcrédito, do fundo de aval, do programa do leite, da tarifa social da água, da luz fraterna, da recuperação do Estado, da transparência, da austeridade. O lado do povo".

Em outro trecho, Roberto Requião define a ideologia de seu governo. "Não é um governo de centro-esquerda, não. Não venham com esses centrismos, com esse equilibrismo. Somos sim um governo de esquerda. E que a má interpretação ou a distorção daquilo que disse o Presidente Lula não sirva de pretexto para que alguns neguem o lado em que nos posicionamos. Somos de esquerda, porque ser de esquerda é ser solidário, fraterno, humano. É ser gente. É ter os olhos, a alma e o coração voltados para as desigualdades e as misérias deste mundo".

Em seguida, o governador explicita ações de seu mandato anterior em que baliza sua visão contrária ao neoliberalismo e em defesa do desenvolvimento capitaneado pelo poder público. "As concessionárias [de pedágios] fecham o ano com uma arrecadação estimada de 735 milhões de reais e nem 30 por cento disso foram aplicados em benefícios para os usuários. É por isso que temos mais de 40 ações na Justiça contra o abuso das tarifas e o descumprimento dos contratos". Em outros estados, quando muito o primeiro mandatário se preocupa com o fornecimento de um serviço de qualidade satisfatória.

Essa posição também está presente na opção pelo software livre que, segundo Requião, fez com que o Estado do Paraná economizasse 147 milhões de reais desde março de 2003. "Dinheiro que desperdiçaríamos com as empresas que monopolizam o setor", garantiu.

Por fim, o governador reeleito com uma diferença de apenas 0,1% (cerca de dez mil votos) após intensa campanha da mídia corporativa a favor de seus adversários, criticou duramente as empresas de comunicação. Este trecho segue no quadro abaixo.

Roberto Requião critica a mídia durante a posse

Por fim, não poderia faltar uma palavra sobre comunicação, imprensa, que vou dizê-la mesmo contra o conselho dos que querem "deixar disso", e para desassossego dos pregadores da cordialidade.

O debate sobre o papel da imprensa no processo eleitoral ganhou o país. Pela primeira vez, em tantas décadas, a mídia foi colocada sob suspeita. E criticada, coisa que ela detesta mais que o satanás dá água benta.

A militância dos jornalões a favor de uma candidatura só não detectou quem não quis. Caso de má fé cínica ou de ignorância córnea?

Optaram sim por um lado, torceram e distorceram por ele e quando isso foi identificado e denunciado, reagiram dizendo que se ameaçava a liberdade de imprensa.

Não tiveram a coragem, o desassombro de assumir em editoriais a opção feita, mesmo que a não disfarçassem, mesmo que isso fosse refletido escandalosamente no tom reservado à cobertura de cada um dos candidatos.

Fizemos um estudo criterioso, científico, estatisticamente responsável sobre o comportamento da mídia paranaense nas eleições estaduais. Os resultados todos conhecem, pois os divulgamos amplamente.

Quando falamos em exclusão social e econômica, quando falamos sobre as desigualdades, os desequilíbrios, os privilégios nunca, ou quase nunca, fazemos referência ao monopólio da informação.

Nunca mencionamos o domínio da mídia por determinados interesses e, por conseqüência, o afastamento de suas páginas, de seu vídeo e áudio dos interesses dos dominados, dos apartados, dos segregados, dos discriminados, dos trabalhadores, do povo, enfim.

Que liberdade de imprensa é esta que acolhe sempre a voz dominante, a voz do mercado, dos poderosos? Que liberdade de imprensa é esta que restringe o acesso do povo e de suas manifestações? Que trata e maltrata os trabalhadores, quase sempre com desdém, com o corte da visão de classe senhorial?

Que liberdade de imprensa é essa que, quando critica, quando acusa, mesmo que distorcendo os fatos, concede à parte ofendida, quando muito, uma misericordiosa meia linha, para que "o outro lado" se manifeste? É o acepipe cinicamente ofertado antes da execução.

Não tenhamos ilusões, não sejamos ingênuos, não esperemos muito da grande mídia. Ela tem um lado, nós é que não aprendemos isso ainda e ficamos insistindo em um diálogo de surdos.

Hoje, apenas seis redes privadas controlam 667 veículos - emissoras de TV, de rádio e jornais diários - atingindo 87 por cento dos domicílios, em 98 por cento dos municípios brasileiros.

Há ainda quem ouse dizer que isso não é o monopólio da informação, que isso não é o controle da opinião pública, que isso não é uma verdadeira ditadura do pensamento dominante?

É salutar que finalmente o poder da grande mídia comece a ser colocado em xeque e a sua credibilidade como agente formador da opinião pública seja questionada.

Mas que comunicação queremos?

Queremos uma comunicação de interesse público. Que estimule o debate. Que tenha compromisso com a formação, a educação e a construção da cidadania. Que democratize e produza instrumentos de socialização da informação. Que crie, utilize e valorize espaços de mídia alternativos, como as rádios comunitárias, a internet, os eventos públicos.

Queremos uma comunicação que resista à hegemonia dos meios de comunicação de massa e crie referências críticas ao que eles veiculam, que não engulam tudo que os jornais nacionais, que as novelas buscam empurrar goela abaixo do povo.

Queremos uma comunicação que busque o envolvimento da sociedade e estimule a sua participação. Queremos uma comunicação de mão dupla, que interaja, que comunique a diversidade de opiniões. Queremos uma comunicação que favoreça a inclusão do maior número de cidadãos no debate político.

Nós queremos, enfim, uma comunicação popular, onde mil flores desabrochem e mil correntes de pensamento se rivalizem.

Paranaenses, estes são os meus compromissos. E diante de minha mulher Maristela, dos meus filhos Maurício e Roberta, do Ricardo, renovo-os. Incluam-me em suas orações, peçam a Deus por mim, para que Ele me ilumine e me faça forte, firme e corajoso na defesa dos interesses do nosso povo.

Ao trabalho, que temos mais quatro anos para consolidar as transformações que iniciamos e dizer ao Brasil que o caminho do Paraná é o caminho da libertação, da independência, da altivez, do compromisso com os interesses nacionais e populares.

Afinal temos um lado. O lado da solidariedade, da generosidade. O lado do povo. O lado esquerdo do peito.

- Roberto Requião, 1º de janeiro de 2007.


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