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Editor: Breno Costa - costa@fazendomedia.com
01.10.2005
ASSEMBLÉIA TENTA UNIDADE NA ESQUERDA
Sem PSTU, encontro nacional reúne diversas entidades em SP e divulga carta convocando a unidade da esquerda para superar a crise política e traçar o caminho para uma nova sociedade
Por Gilka Resende - redacao@fazendomedia.com
 Cerca de 800 pessoas participaram da assembléia em SP
No último final de semana, 24 e 25 de setembro, aconteceu a Assembléia Popular e da Esquerda que reuniu em São Paulo cerca de 800 pessoas de várias regiões brasileiras. As assembléias vêm ocorrendo em várias regiões brasileiras e a de São Paulo foi a maior delas até o momento. O evento teve como objetivo principal aglutinar as diversas frentes da esquerda brasileira como entidades, partidos, sindicatos, coletivos e movimentos sociais a fim de reunir suas idéias e atuar frente à crise a partir do mínimo de bandeiras em comum definidas através do consenso.
O projeto não pretende ser uma nova entidade e, sim, um espaço que reúna todos os militantes, independentemente das entidades ou partidos a que pertençam. No entanto, alguns grupos que formam o Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas), como o PSTU, não estiveram no evento, por entenderem que a Assembléia seria uma alternativa à CUT, assim como essa coordenação pretende ser. Na abertura, os militantes cantaram em coro a Internacional Socialista, música tradicional característica da esquerda, e fizeram uma homenagem a um dos símbolos da esquerda brasileira, Apolônio de Carvalho, que faleceu aos 93 anos no Rio de Janeiro. Ao invés do minuto de silêncio, um minuto de aplausos.
Apesar da tentativa de unidade, discordâncias
A manhã de sábado foi dedicada aos informes. Os representantes dos municípios ou regiões falaram de suas experiências, demandas específicas e das resoluções apresentadas pelos participantes das assembléias regionais. À tarde, a Assembléia se fragmentou em grupos de trabalho (GT's). Todos receberam uma proposta de carta aberta que, através das discussões, foi modificada. Os acréscimos, supressões ou reformulações foram entregues por escrito ao relator, escolhido pelo próprio grupo. O conjunto dos relatores formou a equipe de sistematização, que teve o papel de incorporar à carta apenas as propostas consensuais e aquelas que apareceram com mais freqüência.
No dia 25, a nova carta foi apresentada para que recebesse a aprovação da Assembléia. As modificações foram poucas, já que as novas propostas foram aquelas que todos aceitaram. Algumas correntes repudiaram essa maneira de elaboração, como a Liga Bolchevique Internacionalista (LBI), Parido Operário Revolucionário (POR) e a Liga Estratégia Revolucionária (LER), pois preferiam o voto. "A Assembléia é um instrumento que está sendo utilizado para iludir os trabalhadores. Porém, continuaremos participando para que haja o voto, defendendo sempre a democracia, para que a assembléia se torne popular de verdade. Contra o eleitoralismo, o reformismo e em defesa da ditadura proletária", disse Leguinho, do POR.
Outros valorizaram a idéia do consenso, expondo que a unidade nesse momento de crise é muito importante, como o PCB (Partido Comunista Barsileiro), a LR (Liberdade e Revolução), corrente interna do PSOL, e parte de esquerda do PT. "Eu acho que a proposta da Assembléia já devia ter acontecido há mais tempo. Existe uma necessidade de acontecer isso. Demonstra a vontade dos grupos organizados de fazerem a discussão daquilo que os une, como o combate ao governo enganador do PT, da direita do PT", destacou Cristóvão Ferreira, do PCB.
No fim da tarde de domingo, a carta foi aprovada após a seqüência de duas votações. A primeira para decidir se a assinatura da carta discriminaria os diversos grupos, reivindicada por aqueles que não aceitavam a dinâmica do consenso. A proposta não foi aceita, pois pessoas não organizadas, por exemplo, não poderiam assinar. Por fim, depois de muitas delongas, a carta foi aprovada por 80% dos presentes e assinada pela Assembléia Popular e da Esquerda.
Rafael Duarte
 Os participantes cantaram a Internacional Socialista
Carta final não é consensual
A carta desenha a conjuntura como uma crise que atinge várias dimensões: política, econômica, social, ética e ambiental. Destaca que o governo Lula, eleito pela população em busca de transformações, só aprofunda a prática dos governos anteriores. Critica a subserviência do governo brasileiro ao capital estrangeiro e repudia o pagamento da dívida externa. A mensagem também faz críticas às entidades CUT e UNE, por apoiarem todas as medidas impopulares do governo, e ao mensalão por construir uma base de apoio no Congresso da pior maneira possível, através da corrupção e do loteamento de cargos.
A Assembléia Popular e da Esquerda, através da carta, chama a todos que crêem em uma sociedade sem exploração a se mobilizarem, acreditando sempre na luta dos trabalhadores e buscando a unidade da esquerda. Uma plataforma de luta foi apresentada com 19 eixos. Dentre eles está a democratização da informação e dos meios de comunicação. Também apresentou um plano de mobilizações que inclui a construção de um ato de caráter nacional em repúdio à visita do presidente estadunidense George W. Bush à cidade de São Paulo, no próximo dia 5 de novembro.
Participação de Plínio de Arruda Sampaio
Já quase no fim da Assembléia o fundador do PT e ex-vereador externou sua preocupação com o que acontecia, uma nova discussão entre a esquerda.
"Meus companheiros e companheiras, não sei a contribuição que posso dar aqui. Mas será que esse é o melhor método de se chegar à revolução? Eu fico feliz com o aplauso de vocês, com o apoio. O que dá sentido à vida, também dá sentido à morte e como eu já estou mais perto dela, vocês podem imaginar o significado disso. Acho que não tem revolução sem paixão, com o trabalho de bases, um trabalho constante nas casas, nos bairros. Hoje a mídia é desinformadora e deformadora e o núcleo de base deve ser um esforço permanente".
Plínio ainda completou dizendo que a teoria que muitos seguem para chegar à revolução foi formulada em uma época que não existe mais e que todos devem buscar uma nova formulação. Ressaltou que tem medo de falar isso, pois muitos podem achar que esse pensamento tende para direita e essa não é sua intenção.
"Além da paixão e da combatividade, temos que ter reflexão. Ter cuidado com as palavras, com o método, com a linguagem".
Rafael Duarte
 Plínio de Arruda Sampaio em sua intervenção na assembléia
ENTREVISTA COM PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO
Logo após a Assembléia, Plínio, que ainda não havia ingressado no PSOL, concedeu breve entrevista ao Fazendo Media e a outros estudantes de Comunicação Social:
Aqui [na assembléia] as pessoas que também estão se desfiliando pensam, ou pelo menos parecem pensar, algo afinado como o que o senhor pensa, que o PT abandonou o popular. Eles querem tentar construir um novo partido. O senhor tem falado em "movimento ao socialismo". Esse movimento seria uma estrutura partidária?
Não. É um movimento pluripartidário. É um movimento que ainda estamos pensando. Houve uma diáspora socialista. Os socialistas se dividiram. Hoje eles estão em vários partidos e em vários movimentos. 40 mil socialistas votaram em mim no PT e imagino que em outro canto, talvez mais votaram em outros. Não votaram só em mim. Lá também votaram socialistas que têm uma visão aqui, outra ali. Então, houve uma diáspora em que a razão profunda é que a sociedade brasileira mudou muito. As classes sociais, o conflito de classes, os interesses entre as classes sociais, o esquema de forças, tudo isso mudou muito. Essa mudança não tem a dramaticidade de 1964, mas na minha opinião é tão profunda quanto 64.
Seria uma espécie de ditadura midiática?
Pode ser isso. È uma espécie de pneumonia sem febre. Você não percebe, mas está com pneumonia. Tem uma mudança e você não percebe. Então, eu acho o seguinte, que agora, antes de a gente tomar as decisões, é preciso fazer um diálogo entre todos, para todos, para ver dos vários pontos de vista, se a gente consegue fazer uma nova análise de conjuntura. Foi o que eu disse na minha fala aqui: sem teoria revolucionária, não tem revolução. Mas a teoria que nós temos é uma teoria para uma sociedade de capitalismo industrial e o capitalismo pós-industrial já entrou no Brasil. Entrou precariamente porque é um país subdesenvolvido, mas já entrou. A dinâmica já não é mais a do capitalismo industrial, já é a dinâmica deste capitalismo financeiro. Já está perpetuando tudo, por exemplo, a profissão de vocês. O que mudou do tempo que eu fazia pra cá, é uma loucura total. Vocês não têm, praticamente, mais vida de redação. Nós vivíamos na redação, a redação era um grupo. Quer dizer mudou a sociedade, mudaram profissões. Nós não temos síntese ainda, nós não temos uma teoria que explique esse movimento para que a gente possa fazer o movimento da luta de classes corretamente.
Mas o senhor acredita ainda que o PT está em disputa, que é possível reconstruir o PT?
O processo do PT ainda vai demorar muito. Não pense você que acaba agora. O PT ainda vai ter muito disputa interna, pode crer. Não é uma coisa que está decidida. Não tem nada decidido. Eu estou achando que a gente que a gente está vivendo aquele momento em que um ciclo terminou e ainda não começou o outro. Então, os elementos do ciclo anterior se dispersaram e ainda não se condensaram em linhas claras. Tem gente que está aqui, que amanhã não vai estar. E tem gente que não está aqui e amanhã vai estar aqui.
Quais foram os principais erros do PT e quais seriam as perspectivas hoje para a construção do novo? O senhor entende que essa perspectiva é pela organização dos movimentos sociais e dos trabalhadores, ou através do marco eleitoral? Ou seriam as duas coisas?
O marco eleitoral não traz revolução socialista e o outro marco também não traz porque não há quadro para uma ruptura revolucionária do tipo clássico, isso já acabou. Isso é uma época da história, não se dão mais as condições. Nós tínhamos uma estratégia de dois tempos. Nós atuávamos simultaneamente por um lado na pressão direta de massas, quase no limite da legalidade e atuávamos no eleitoral. Mas com a mudança que houve no mundo, este aspecto da nossa estratégia se inviabilizou, pois a CUT perdeu combatividade. O operário não tem emprego, ele toma cuidado. Então você não tem greve, não tem movimento de massa. A via eleitoral ficou a única e o pessoal acreditou que pela via eleitoral fazia revolução. Deu no que deu. Esse é o ponto.
O senhor acredita que o Processo de Eleições Diretas (PED) representa realmente a vontade da base do Partido dos Trabalhadores?
Olha, o PED remexeu bem o partido. Parece incrível, mas 350 mil pessoas votaram em um troço que não é obrigatório, é uma pujança louca. O partido tem uma força imensa. Você pode ter a análise que o ciclo revolucionário terminou. Mas o ciclo político, de jeito nenhum.
Pegando um pouco daquilo que o senhor falou, que a disputa eleitoral não é o ideal. Então, qual seria o sentido de um partido disputar as eleições para a presidência?
Será que é aquele partido? Nós temos dois tipos de partido. Um é aquele de direita e tem várias modalidades, mas é o partido da classe dominante. Outro modelo é o leninista, que todos nós mais ou menos adaptamos. Quando está mais assim, a gente faz ele mais light. Quando tem como, a gente o faz mais pesado. Esse partido foi criado para a sociedade industrial e a sociedade não é mais industrial. Esse partido não serve mais. Mas enquanto não se inventa outra coisa, faz isso. Mas eu queria que vocês, que são moços, tenham a cabeça para inventar outra. Nós vamos experimentar. Eu vou experimentar. O núcleo de base é uma experimentação, é um troço que tem muito do anarquismo. É o seguinte, vocês aqui que são amigos se juntam e formam um núcleo de base.
O que o senhor acha do anarquismo?
O anarquismo é muito bom. Se não fosse tão anárquico, seria ótimo. Mas eu acho o anarquismo muito necessário. A matriz cristã, que é uma matriz a que eu me refiro, tem muito de anarquismo. E é a liberdade dos filhos de Deus. Nós somos seres livres e a liberdade não é fazer o que se quer. É o sentido da responsabilidade pessoal e, no limite, tchau e benção.
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