Uma das filhas da pílula de farinha da Shering
nasceu em cinco de dezembro de 1999. Acaba de completar 9 anos.
É isso mesmo, uma filha “órfã do
Laboratório”.
Eu tomava a pílula anticoncepcional Microvlar,
da Shering, e também fui uma das vitimas do Laboratório.
Mas aos vinte e um anos de idade e recém-casada nem cogitei de
entrar com uma ação contra aquela indústria
farmacêutica, talvez por ingenuidade. Havia perdido meu pai e
casei-me para sair de casa, pois a brigas com a minha mãe eram
constantes e insuportáveis. Com aquela notícia da
gravidez me senti mais mulher. Além disso, quando fui
surpreendida com a notícia de que o anticoncepcional que eu
tomava diariamente era de farinha, já não possuía
mais as embalagens. E essa era uma das provas indispensáveis
para ingressar com uma ação judicial. Deixei para
lá...
Em defesa da empresa um advogado afirmou que “a
farinha das pílulas resultou num fato positivo, pois ela gerou
‘novas vidas’". Fiquei muito feliz por gerar uma
“nova vida”, porém foi uma filha não
planejada. Que direito tem uma indústria multinacional de
“gerar vidas”, ao invés de evitar a gravidez, como
toda consumidora de Microvlar esperava fazer?
Uma gravidez naquele momento trouxe mudanças
drásticas para minha vida. Tive uma gestação
tensa, pois tomava também um remédio contra-indicado para
gestantes. Passei 7 meses ansiosa, convivendo com uma dúvida:
será que eu daria à luz a um bebê saudável?
Toda essa tensão gerou um parto prematuro. Com trinta e duas
semanas de gestação minha bolsa estourou e fui submetida
a uma cesárea. Nasceu Milena com 2 quilos e 45
centímetros. No teste do pezinho um resultado
desagradável: os hormônios masculinos da minha filha
estavam acima do aceitável, o que caracteriza hiperplasia
congênita da supra-renal - uma doença genética que
leva a redução da produção dos
hormônios cortisol e aldosterona (responsáveis por manter
o nível de glicose no sangue e por conservar água e sal
no organismo) e, conseqüentemente, pelo aumento da
produção de hormônios masculinos.
Minha filha repetiu o teste do pezinho e o resultado
foi confirmado. Alguns médicos desconfiaram que Milena pudesse
ser hermafrodita. Ela foi submetida a uma bateria de exames e teve
acompanhamento de uma médica endocrinologista até os 2
anos de idade, quando recebeu alta. Finalmente minha filha tornou-se
uma criança saudável.
Em meio a esse cenário conturbado, esqueci que
Milena era não só minha filha, mas também da
Shering. No dia 5 de dezembro último – coincidentemente o
dia do aniversário da minha filha - a Folha de São Paulo
publicou que a Shering foi condenada a pagar 1 milhão para as
mulheres que consumiram aquelas pílulas Microvlar. Senti-me
lesada. Apesar de ser feliz com a minha família, fui enganada
por um laboratório que vendia comprimidos de farinha ao
invés de medicamento anticoncepcional. Não só eu,
mas muitas mulheres.
Em 1998 a Microvlar vendia 14 milhões de
unidades no Brasil. Estima-se que duzentas mulheres tenham engravidado,
mas apenas 10 conseguiram provar junto à justiça que o
filho era também da Shering. As outras cento e noventa, dentre
as quais me incluo, ficaram órfãs da multinacional.
Se a Microvlar vendia cerca de 14 milhões de
unidades, quantas mulheres consumiam a pílula diariamente
esperando evitar a gravidez? A Shering já fabricou também
outros medicamentos, como o Vioxx, que trouxe danos aos consumidores.
Portanto essa não é a primeira condenação
da Shering. Será que devemos confiar nos medicamentos fabricados
por essa gigante da indústria farmacêutica?