......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



20.12.2007
OS ÓRFÃOS DA SHERING

Por Luciana Chagas (*)

Uma das filhas da pílula de farinha da Shering nasceu em cinco de dezembro de 1999. Acaba de completar 9 anos. É isso mesmo, uma filha “órfã do Laboratório”.

Eu tomava a pílula anticoncepcional Microvlar, da Shering, e também fui uma das vitimas do Laboratório. Mas aos vinte e um anos de idade e recém-casada nem cogitei de entrar com uma ação contra aquela indústria farmacêutica, talvez por ingenuidade. Havia perdido meu pai e casei-me para sair de casa, pois a brigas com a minha mãe eram constantes e insuportáveis. Com aquela notícia da gravidez me senti mais mulher. Além disso, quando fui surpreendida com a notícia de que o anticoncepcional que eu tomava diariamente era de farinha, já não possuía mais as embalagens. E essa era uma das provas indispensáveis para ingressar com uma ação judicial. Deixei para lá...

Em defesa da empresa um advogado afirmou que “a farinha das pílulas resultou num fato positivo, pois ela gerou ‘novas vidas’". Fiquei muito feliz por gerar uma “nova vida”, porém foi uma filha não planejada. Que direito tem uma indústria multinacional de “gerar vidas”, ao invés de evitar a gravidez, como toda consumidora de Microvlar esperava fazer?

Uma gravidez naquele momento trouxe mudanças drásticas para minha vida. Tive uma gestação tensa, pois tomava também um remédio contra-indicado para gestantes. Passei 7 meses ansiosa, convivendo com uma dúvida: será que eu daria à luz a um bebê saudável? Toda essa tensão gerou um parto prematuro. Com trinta e duas semanas de gestação minha bolsa estourou e fui submetida a uma cesárea. Nasceu Milena com 2 quilos e 45 centímetros. No teste do pezinho um resultado desagradável: os hormônios masculinos da minha filha estavam acima do aceitável, o que caracteriza hiperplasia congênita da supra-renal - uma doença genética que leva a redução da produção dos hormônios cortisol e aldosterona (responsáveis por manter o nível de glicose no sangue e por conservar água e sal no organismo) e, conseqüentemente, pelo aumento da produção de hormônios masculinos.

Minha filha repetiu o teste do pezinho e o resultado foi confirmado. Alguns médicos desconfiaram que Milena pudesse ser hermafrodita. Ela foi submetida a uma bateria de exames e teve acompanhamento de uma médica endocrinologista até os 2 anos de idade, quando recebeu alta. Finalmente minha filha tornou-se uma criança saudável.

Em meio a esse cenário conturbado, esqueci que Milena era não só minha filha, mas também da Shering. No dia 5 de dezembro último – coincidentemente o dia do aniversário da minha filha - a Folha de São Paulo publicou que a Shering foi condenada a pagar 1 milhão para as mulheres que consumiram aquelas pílulas Microvlar. Senti-me lesada. Apesar de ser feliz com a minha família, fui enganada por um laboratório que vendia comprimidos de farinha ao invés de medicamento anticoncepcional. Não só eu, mas muitas mulheres.

Em 1998 a Microvlar vendia 14 milhões de unidades no Brasil. Estima-se que duzentas mulheres tenham engravidado, mas apenas 10 conseguiram provar junto à justiça que o filho era também da Shering. As outras cento e noventa, dentre as quais me incluo, ficaram órfãs da multinacional.

Se a Microvlar vendia cerca de 14 milhões de unidades, quantas mulheres consumiam a pílula diariamente esperando evitar a gravidez? A Shering já fabricou também outros medicamentos, como o Vioxx, que trouxe danos aos consumidores. Portanto essa não é a primeira condenação da Shering. Será que devemos confiar nos medicamentos fabricados por essa gigante da indústria farmacêutica?

(*) Luciana Chagas é jornalista. Email: lua.chagas@uol.com.br


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