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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



29.10.2007
REUNI: UNIVERSIDADES OCUPADAS CONTRA O DECRETO

Reitorias de universidades públicas federais de todo o país foram ocupadas por estudantes, professores e técnico-administrativos durante essa semana. A comunidade universitária protesta contra o decreto do governo federal de reestruturação das Instituições de Ensino Superior intitulado Reuni.

Algumas universidades permanecem ocupadas desde a semana anterior, como acontece na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os estudantes não reconhecem a votação feita no Conselho Universitário da Universidade devido à falta de debates sobre a proposta da UFRJ para o Reuni.

A Universidade Federal Fluminense (UFF) foi ocupada por duas vezes, na semana anterior e nos dias 23 e 24 dessa semana. Na última ocupação, houve ameaça de reintegração de posse por parte da Polícia Federal acionada pelo Reitor da Universidade. Após a retirada por parte do Reitor do projeto do Reuni do Conselho Universitário e da queixa na polícia, os manifestantes desocuparam o prédio. Haverá uma audiência pública na próxima semana sobre o Reuni e necessidades urgentes da comunidade universitária, como a construção de uma Moradia Estudantil.

A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) também está ocupada desde ontem (25). Os estudantes querem que o Conselho Universitário que irá deliberar sobre o projeto da Universidade para o Reuni não aconteça, uma vez que a proposta da Reitoria não foi discutida com a comunidade universitária e apresentada apenas 24 horas antes da votação.

A Universidade Federal do Ceará (UFC) está ocupada com cerca de 300 manifestantes. Na semana passada, os estudantes foram proibidos de entrar no Conselho Universitário que deliberou sobre o tema de portas fechadas. Houve uso de violência por parte da segurança da Instituição para vetar a entrada dos alunos. Na UFC, o movimento estudantil também denuncia que não houve discussão sobre o Reuni e que a comunidade universitária sequer sabe do que se trata o decreto.

“Reuni, não! Não quero escolão!”
O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), criado pelo governo federal através do decreto 6.096, estabelece metas que as universidades devem cumprir. Em troca do esforço, o governo oferece verbas adicionais que representam aproximadamente 20% dos recursos anuais já garantidos para as Instituições de Ensino Superior Públicas do país.

As metas principais são alcançar o índice de aprovação dos estudantes para 90% e o aumento de alunos nas Instituições de maneira a atingir uma relação de 18 matriculados por professor. Para os movimentos docente, estudantil e técnico-administrativo de várias universidades, as metas abrem margem para uma formação deficitária, como explica o professor da Universidade Federal Fluminense, Marcelo Badaró, em artigo publicado nesse Fazendo Media.

“A chave da proposta do governo para multiplicar o número de estudantes nas Instituições Federais, com a manutenção dos gastos nos patamares mínimos atuais e sem contratar professores e servidores em número proporcional é reduzir a duração dos cursos superiores e reduzir o contato dos estudantes com tudo aquilo que diferencia a Universidade Pública de qualidade: os professores que desenvolvem pesquisas originais, os laboratórios de ponta, a iniciação à pesquisa, as trocas com a sociedade através da extensão universitária”. (Leia artigo completo)

Os movimentos contra o Reuni em nenhum momento negam a necessidade de expansão do Ensino Superior Público. Aliás, essa é uma bandeira histórica dos setores organizados da comunidade universitária: o atendimento pela Universidade Pública de toda a demanda por ensino superior do país. Entretanto, os movimentos lutam contra o Reuni por acreditar que o decreto faz uma expansão deficiente, com perda de qualidade e descaracterização da Universidade Pública.

Diário das mobilizações
“Depois de dois dias exaustivos de sessão conjunta dos Conselhos Superiores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) o Reuni foi aprovado em votação duvidosa. Houve um encaminhamento do Movimento Estudantil para adiamento da pauta e que houvesse discussões mais profundas tanto ideológicas quanto técnicas do projeto, porém, a pauta foi mantida. Logo em seguida, a reitoria colocou como proposta a apreciação do Reuni na Unirio. O movimento estudantil se manifestou não deixando que a votação ocorresse e quando foi feita não existia mais quorum (quantidade necessária de presentes para se votar alguma proposta) no Conselho. A partir de tal situação, onde percebemos que os Conselheiros não queriam de forma alguma debate ou discussão e sim o dinheiro vindo pelo projeto ocorreu a ocupação da reitoria por parte do Movimento Estudantil da Unirio”.

O relato é dos estudantes da Unirio, universidade que também permanece ocupada.

Na Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), também nessa semana, os estudantes mantinham uma ocupação e foram obrigados a desocupar a Universidade de maneira violenta. Os estudantes escreveram sobre o ocorrido no blog criado para divulgar as notícias da ocupação.

“Na segunda-feira à tarde dois oficiais de justiça chegaram ao campus para a entrega da reintegração de posse imediata. Porém, a próxima Assembléia Geral seria apenas no dia seguinte, então continuamos ocupados. Alguns parlamentares compareceram ao campus e tiveram, na frente dos alunos, uma conversa, via celular, com o reitor da Unifesp, Ulysses Fagundes Neto. Nessa conversa o reitor negou-se a conversar com os estudantes, assim como negou o pedido para que não se usasse força policial ao menos até quarta-feira, já que a nossa Assembléia Geral estava marcada para terça a noite. Por ele, a reintegração de posse seria realmente imediata. Da forma que fosse.

Depois de negociações com a juíza que concedeu a reintegração de posse, ela garantiu que não seria usada força policial antes de quarta-feira, ao meio-dia, para que a Assembléia Geral acontecesse. E de fato aconteceu. Mas durante todo o dia vimos carros parados, com pessoas dentro, na entrada da universidade, observando quem entra e quem sai. Os famosos P2. (...)

Cerca de duas horas da manhã, tum tum tum, pá pá pá, "galera, o choque chegou!". E bota choque nisso. Na imprensa dizem que havia cerca de 130 PM’s, mas só pode afirmar isso quem ou não esteve lá ou não sabe contar direito. Havia choque nos cercando em todos os cantos, dentro do teatro, em volta do prédio, fechando a entrada da universidade, fechando os fundos, fechando a rua em cima e embaixo. Pouco mais de 40 estudantes, pouco mais de 400 PM’s. Qualquer forma de resistência seria um massacre.

Deixaram-nos levar alguns colchões para passarmos a noite. E em duas viagens, levar algumas coisas para o Centro Acadêmico. Apenas sete poderiam fazer esse transporte. Escoltados pelo choque. Ao chegar na porta dos C.A.s não nos foi permitido entrar antes de "averiguação e liberação" . O CHOQUE ENTROU NO NOSSO CENTRO ACADÊMICO. E AINDA NOS DISSE QUANDO NÓS PODERÍAMOS ENTRAR TAMBÉM. Sentimento de impotência. Ferida aberta, sangrando. Depois todos foram fichados no local mesmo. (...)

Fomos desocupados, reprimidos e não fomos ouvidos. Mas a luta não pára. Mais uma vez o reitor Ulysses Fagundes Neto tentou calar o Movimento Estudantil. E mais uma vez, apesar das feridas - internas em todos e externas em alguns que ainda não se recuperaram totalmente das agressões dos seguranças - voltamos mais fortes, cada vez mais fortes. Agradecemos a todos que nos apoiaram e a todos que, mesmo com opiniões diferentes, estavam dispostos a participar das Assembléias, a conversar, a debater idéias, pois é dessa forma que construímos um verdadeiro e forte movimento estudantil. E não com repressão”.

O Fazendo Media convida vocês, professores, técnico-administrativos e estudantes das Universidades Federais de todo o país a enviarem relatos de como está sendo a movimentação a respeito do Reuni em sua Universidade. Entre em contato conosco através do correio eletrônico dessa editoria (raquel@fazendomedia.com).


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