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28.03.2006
"É MUITO TRISTE PERDER UM FILHO ASSIM"

Reprodução/Jornal Extra

Policiais atacam moradores em manifestação pacífica; à direita, a irmã de Ismael é socorrida por amigos

Por Gustavo Barreto - gustavo@fazendomedia.com

Ismael Alves Abreu, 22 anos, é ajudante de eletricista em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro. A comunidade contava muito com ele: quando não estava trabalhando na firma onde conseguia seu ganha-pão, ajudava os moradores em pequenos serviços gerais, de eletricidade e infra-estrutura. Apesar de jovem, já possuía um filho, de 4 meses, com sua namorada Elaine. A garota, ainda adolescente, pôde contar com Ismael ao seu lado. Mesmo com o desafio de ser pai aos 22 anos, não fugiu de sua responsabilidade.

O dia 26 de março de 2006, no entanto, mudaria o destino dele e de todos os que o conheciam e o admiravam. Ismael foi assassinado com dois tiros nas costas e um na perna, por volta das seis da manhã de um domingo. Motivo: os policiais acharam que Ismael era bandido.

PM reage a protestos com mais violência
Ismael estava acompanhado de dois amigos (Thiago, 20, e André Luiz, 27) e voltou ao local de um baile funk, na rua Corrêa de Oliveira, para pegar um carregador de celular que havia esquecido. Quando esperavam, foram surpreendidos com disparos dos policiais. Três acertaram Ismael, morto à queima-roupa. O amadorismo da ação policial levou a mais um erro e acabou com mais uma vida de um trabalhador honesto e pai de família, desestruturando família e amigos. "Ele correu e me empurrou para dentro de um bar. Salvou minha vida, porque logo em seguida ouvimos mais três disparos e ele foi atingido novamente", contou Thiago aos jornais. Ismael morreu antes mesmo de chegar ao Hospital do Andaraí.

Os moradores, indignados, foram para a avenida principal de Vila Isabel para protestar. Foram recebidos com mais truculência: spray de pimenta, como mostra claramente uma foto publicada na capa do jornal EXTRA da segunda-feira (27/3). Na foto, a irmã de Ismael, Elisângela Alves de Lima Abreu, é atingida covardemente por um PM que tentava impedir a manifestação pacífica dos moradores. "Meu irmão tinha um filho e uma vida inteira pela frente. Não pode ser mais uma vítima da impunidade".

A ação ficou evidente para todos da comunidade do Morro dos Macacos. Mas não para o comandante do 6º Batalhão da Polícia Militar (Tijuca), tenente-coronel Álvaro Garcia: "Não se sabe se o rapaz foi baleado pela polícia", disse, ao argumentar em todos os jornais que houve uma "troca de tiros" no mesmo horário. A comunidade reagiu. "Os PMs estão sempre certos. As pessoas é que estão sempre erradas", ironiza uma moradora, presente na manifestação. "Só eles é que são os donos da verdade. Não tem nada de confronto, porque eu acordei às seis horas da manhã e não tinha ninguém na rua. Eles [os policiais] estavam tudo escondidos lá atrás. Esperando os meninos aparecerem. A mãe e o pai estão inconformados. Disseram que quando colocaram ele dentro do carro os policiais ficaram olhando. Ficaram olhando para ele morto", relata. E sustenta: "Eles sabem a merda que fizeram".

"PM é a vergonha do Brasil"
Nesse momento, a segunda manifestação em dois dias interrompe nossa entrevista. A agitação toma conta de Vila Isabel, entre gritos de "PM fora", "Assassinos", "PM é a vergonha do Brasil" e "Matou trabalhador". A passeata seguiu por quase toda a principal avenida do bairro (28 de Setembro), fechando as duas pistas. Ao contrário da reação violenta do domingo, quando tentaram impedir os protestos, os policiais militares pareciam intimidados e até mesmo envergonhados. Apesar de ser a função da PM negociar com os manifestantes para que os carros possam seguir por uma das vias, os moradores mantiveram por três quarteirões os protestos nas duas pistas.

Um policial, quase que escondido, acompanhou de longe a movimentação em uma das ruas de acesso. Quando foi descoberto, todos os moradores se voltaram para ele e começaram a gritar: "Assassinos" e "Covardes". É como a comunidade entende o ocorrido: um ato de covardia que não teve qualquer justificativa.

A reportagem procurou por amigos de Ismael. "Aqui, todo mundo era amigo dele". A avenida estava cheia. Pais, familiares, a namorada, amigos. Todos inconformados, caso de Francisco, 28 anos: "Esse boato de que teve troca de tiros foi no sábado. Não tem nada a ver com domingo. O Ismael tava trabalhando numa firma de eletricidade. Todo dia ele trabalhava. No dia em que não estava trabalhando, fazia serviço pros moradores. Tudo o que precisava, se era pra consertar alguma coisa, ele fazia. Era amigo de todo mundo. Era um rapaz que ninguém tinha nada o que falar dele".

O clima no bairro, apesar da violência policial, não era de vingança. "Queremos justiça", gritavam a todo o momento. O medo da impunidade, no entanto, era evidente. "Mais um caso para ser arquivado", desanima-se um garçom na porta de um bar, ao acompanhar com tristeza nos olhos o sofrimento de Elaine, namorada de Ismael. O jovem Ismael Alves Abreu, de 22 anos, foi enterrado nesta segunda (27/3), no Cemitério do Caju. Deixou namorada, pais e um filho de 4 meses.

Elaine Siqueira Sampaio, 14 anos, namorada de Ismael

"Ele tava voltando do baile, aí foi para a casa da mãe dele. Ele foi buscar o carregador dele para carregar o celular. Os colegas dele falaram que era para pegar depois, porque isso aí você compra em qualquer lugar, né. Aí ele teimou em ir e, quando saiu de dentro do carro, a polícia pensou que ele fosse bandido e aí tomou, dois nas costas e um na perna. Ele morreu na hora. Isso foi 6, 7 horas da manhã. Ele tentou falar com um amigo dele, o Thiago, para avisar alguma coisa, mas quando foi avisar morreu. Ele tinha um filho comigo, de quatro meses. O Gabriel." (Relato à Rede Nacional de Jornalistas Populares, 27/3/2006)

Manuel Alves de Lima Abreu, 43 anos, pai de Ismael

"Eu estava em casa quando ouvi as vizinhas chamando minha mulher, Maria dos Remédios. Pelo grito delas, logo senti no meu coração que alguma coisa ruim tinha acontecido. Eu ouvi o barulho dos tiros e percebi algo errado quando bateram na minha porta. Disseram que o tiro tinha atingido o peito do Ismael e pensei que não adiantava mais nada. Parecia que minha mulher estava prevendo. Ela não queria que ele saísse no sábado. Repetiu várias vezes: "Ismael, não vai. Você vai trabalhar amanhã cedo!" Ele morava com a sogra e deixou um bebê de 4 meses, o Gabriel. Estava trabalhando há um ano como ajudante de eletricista numa firma. Agora, fazia um serviço no Cais do Porto. O patrão dele até ofereceu ajuda no enterro. Minha mulher está passando mal. É muito triste perder um filho assim, não faz sentido." (Relato ao jornal EXTRA, edição de 27/3/2006)


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