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26.11.2007
COMUNIDADE DO MORRO DE ESTADO, EM NITERÓI, REALIZA 2º ENCONTRO DE NEGROS E NEGRAS


Se a favela fosse violenta não existia a cidade. Já pensou o Morro do Estado descendo todo para Niterói ou a Rocinha para São Conrado!", Sebastião Souza, morador do Morro do Estado.

Por Raquel Junia - raquel@fazendomedia.com

A semelhança com um quilombo não estava apenas na tonalidade da pele das pessoas presentes, apesar de negros e negras representarem imensa maioria. O dia 20 de novembro lembra a morte de Zumbi, o líder negro que ousou lutar pela liberdade e construiu o Quilombo de Palmares. Na última terça-feira, dia 20 de novembro de 2007, a comunidade do Morro do Estado também estava em clima de rebeldia. O 2º encontro de Negros e Negras juntou festa, manifestações culturais e debate político.

“Antes senzala, hoje favela. A luta continua”, era a frase escrita nas camisetas de muitos dos participantes, inclusive de um grupo de dança da comunidade que se apresentou no evento. O Encontro foi organizado em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho e Previdência Social (Sindsprev/RJ) e acontece pelo segundo ano consecutivo.

Uma tenda foi armada no campo da comunidade, no alto do morro, onde foram realizados debates sobre saúde e violência e diversas apresentações culturais. Um grande número de crianças brincava no local. A maioria da população, nos momentos de debate, estava fora da tenda, observando, festejando e, provavelmente, também escutando, porque a utilização do microfone permitia que o som fosse ouvido nos arredores.


O Grupo de Dança de Rua ensaia duas vezes por semana. Crianças e adolescentes contra-propagandas da imagem que se tem da favela

Novos capitães do mato
No debate sobre violência, poucas pessoas se pronunciaram. O morador do Morro do Estado, Sebastião José de Souza foi um dos responsáveis pela abertura do debate. Ele é também coordenador do Sindsprev Comunidades, um projeto do sindicato que coordena ações em quatro comunidades da região metropolitana do Rio de Janeiro. Sebastião denuncia a omissão do Estado em relação à população das favelas, que acaba sendo traduzida em política de extermínio.

“O Estado não tem um projeto definido para as favelas. Aquelas pessoas que o Estado não mata na bala, mata na fila do hospital, se não mata na fila no hospital, mata pelo desemprego”, afirma.


Pequenos (ou não tanto) zumbis em potencial querem ter espaço na mídia

O morador também comenta a violência policial. “É pobre matando pobre, negro matando negro. Não tem nenhum filho de milionário na polícia, muitos policiais são filhos de lavadeiras”. E faz a relação da situação atual com o período de escravidão oficial: “o capitão do mato era aquele negro que tinha regalia na senzala, a polícia é a mesma coisa, porque a origem deles é a mesma da nossa”.

Fernanda Antônio de Oliveira é uma das moradoras do Morro do Estado que sofreu diretamente uma das opressões às quais estão submetidos moradores de favelas. No caso de Fernanda, a opressão veio da policia e resultou em tragédia. Em 2005, o filho dela, Welington Santiago de Oliveira Lima, de 11 anos, foi morto durante uma “operação” da polícia militar.

Perto de completar dois anos do assassinato, quando morreram também outros três adolescentes e um adulto, a mãe de Welington lembra emocionada cada detalhe do dia da morte e do enterro do filho. Durante o encontro de Negros e Negras, Fernanda conta que ainda pensa no menino como se ele fosse chegar para o almoço e na hora de recolher os cinco filhos para dormir, sente que está faltando um.


Dona Maria Augusta foi uma das poucas a enfrentar o microfone

Apesar da dor, ela, uma mulher negra, tem esperanças. “Eu quero mostrar para as mães das favelas que não podemos nos curvar para ninguém. Que elas lutem pela justiça, porque tentar é lutar, pode até demorar, mas um dia a justiça chega”.

A luta também nas manifestações culturais
Alunos do 4º ano da Escola Municipal Ayrton Senna, localizada no Morro do Estado, fizeram uma apresentação de Lundu, uma dança de origem africana. A professora das crianças, Valdenise Pinheiro, explica que a apresentação é resultado de trabalhos feitos com os alunos na semana anterior e que a escola oferece uma oficina de danças folclóricas.

“Essa apresentação é a culminância do que temos feito na escola. Essas crianças têm que se perceberem como negros e, elas têm percebido. Por exemplo, escreveram em um dos trabalhos que realizamos: todos somos Zumbi”, conta a professora.

Outra manifestação foi a de um grupo de dança de rua também da comunidade. Fernando Luis da Silva é o responsável pelo ensaio da turma, que reúne meninos e meninas de 7 a 14 anos. “É muito importante esse tipo de evento para valorizar a cultura nossa”, comenta o professor também morador da comunidade.

O bloco carnavalesco Bafo do Tigre, velho conhecido do Morro do Estado, foi outro que mostrou o potencial artístico-cultural da comunidade e, junto com a feijoada, compôs o clima de comemoração.

Dona Maria Augusta Braz, de 91 anos, uma das mais antigas moradoras do Morro do Estado, também participou do Encontro. Mãe de sete filhos, com orgulho ela diz que já plantou cana e colheu café para sustentar a família. A “vó”, como a chamam, profetiza ao microfone: “O Morro é bom, nós é que temos que aprender a viver”.


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