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22.07.2006
PRIMEIRA ROMARIA DA FLORESTA
Por Marcelo Salles (*)
Distante do eixo Rio-SP e bem longe do interesse dos meios de comunicação de massa, o povo marcha. Cerca de 500 pessoas saem hoje à tarde de Anapu, no Pará, em direção a PDS Esperança, onde a Irmã Dorothy foi assassinada em fevereiro do ano passado. A previsão de chegada é dia 25 de julho, após um percurso de 55 quilômetros.
Representantes da Pax Christi Internacional e a Superiora da Congregação de Notre Dame de Namur, à qual Irmã Dorothy pertencia, participam da caminhada. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que organiza o evento, o objetivo é "celebrar o compromisso de defender a vida da floresta, do povo, do planeta".
O primeiro pernoite se dará na Comunidade São Pedro. No domingo, logo às quatro da manhã, a caminhada será reiniciada e passará por diversas comunidades que, imbuídas de solidariedade, oferecerão almoço, jantar e lanches aos caminhantes.
No dia 25 pela manhã haverá celebração eucarística e almoço para todos os romeiros. À tarde todos irão a Anapu, onde haverá a tradicional festa do dia dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais, organizada pelo sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu.
A Romaria da Floresta se insere no quadro de atividades desenvolvidas pela CPT, conhecidas como Romarias da Terra e das Águas. Hoje, mais de 20 destas Romarias da Terra acontecem Brasil afora quase todos os anos. Para a CPT, "as romarias se configuram como um espaço privilegiado em que fé e vida se mesclam profundamente e onde o clamor do povo do campo se faz ouvir".
Segundo Dom Erwin Kräutler, Bispo do Xingu, "A defesa dos direitos humanos e do meio-ambiente na região do Xingu, na Amazônia, é um empenho que muitos políticos e empresários combatem com todos os meios. Calúnias, difamações e ameaças de morte são as armas que empregam na tentativa de calar a quem faz ouvir sua voz contra as agressões à dignidade humana, em favor da sempre protelada reforma agrária, contra a destruição inescrupulosa do meio-ambiente, contra a pilhagem, a depredação e o saque das riquezas naturais, contra um modelo de desenvolvimento e progresso que, sem um mínimo respeito à pessoa humana e às comunidades locais, somente visa aos interesses de uma poderosa oligarquia à procura de lucros imediatos e fabulosos".
O caso Irmã Dorothy
Irmã Dorothy viveu vinte e três anos na Transamazônica e morreu assassinada em Anapu, PA, no dia 12 de fevereiro de 2005. Sua morte teve extraordinária repercussão nacional e internacional. Graças a essa repercussão, em dezembro de 2005, os executores do crime Raifran Neves Salles, o Fogoió, e Clodoaldo Batista, conhecido como Eduardo, foram condenados respectivamente a 27 e 17 anos de prisão. No dia 18 de abril de 2006, foi condenado o intermediário do crime Amair Feijoli da Cunha, o Tato, a 18 anos de reclusão. Também foram presos os mandantes do assassinato de Irmã Dorothy, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida e Regivaldo Pereira Galvão, Taradão. A este último foi concedido pelo Supremo Tribunal Federal - STF, no dia 29 de junho de 2006, hábeas corpus para responder em liberdade ao processo. Está indiciado como um dos formadores do consórcio responsável por articular a morte da missionária. O mesmo benefício não foi estendido a Bida, a quem foi negado o pedido de hábeas corpus.
(*) Com informações da Comissão Pastoral da Terra