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21.12.2005
ATO PÚBLICO PELA RETIRADA DAS TROPAS BRASILEIRAS DO HAITI
Por Fernando Coutinho - coutinho@fazendomedia.com
Mais de dois séculos de resistência ao imperialismo marcam a existência do pequeno país localizado em uma parte da Ilha Hispanhola, o Haiti. O país, de aproximadamente sete milhões de habitantes, está sob intervenção da ONU desde 2004, quando o então presidente, Jean Bertrand Aristide, foi deposto, com apoio dos Estados Unidos. A Organização das Nações Unidas enviou ao país suas tropas de paz, normalmente sob comando dos EUA, mas nesse caso lideradas pelo Brasil. Como Bush está, desde 2001, desgastando sua imagem e enviando tropas ao Oriente Médio, conta com a ajuda dos brasileiros para conter os insurgentes haitianos e promover a "democratização" no mundo.
Apesar de pequeno, o Haiti tem grandes histórias quanto a sua luta contra o imperialismo. Em 1804 o país declarou a sua independência da França, na proclamação da primeira república negra vitoriosa no mundo. No início do século passado teve Charlemagne Peralte como seu representante contra a ocupação estadunidense imposta pelo governo Wilson. No final da década de 50 sofreu com o início de uma ditadura que durou mais de 30 anos, bem ao estilo do modelo patrocinado pelos estadunidenses na América Latina, durante o período de guerra fria. Atualmente, volta a sofrer interferência dos EUA.
A busca "democrática" estadunidense pode ser percebida nos seus próprios atos. Recentemente, George W. Bush fez uma proclamação na qual ficou clara que a invasão ao Iraque não passou de mais uma vontade de seu governo. O perigo iminente que o mundo sofria, com o arsenal iraquiano de armas biológicas, não passava de blefe.
É seguindo esse mesmo critério que a cantora popular e ativista haitiana, Annette Auguste, conhecida também por Sò Anne, encontra-se presa desde maio de 2004. Sò Anne foi presa por marines estadunidenses em sua própria casa, localizada no subúrbio da capital Porto Príncipe. Segundo uma declaração da própria cantora, ela e seus familiares, incluindo crianças, ficaram aterrorizados com a ação brutal, no meio da noite, que culminou com a sua prisão: os marines invadiram seu lar portando armamento pesado e explosivos e a levaram sem apresentar mandado de prisão. Tudo isso com a explicação de que ela planejava atacar suas forças e enfraquecer a segurança e estabilidade no Haiti. Estabilidade que já havia sido abalada por intermédio estadunidense e francês, durante o processo de derrubada de Aristide.
Diante desses fatos, será realizado hoje na Cinelândia, na Av. Treze de Maio - número 13, décimo andar, 18h - o "Ato público pela retirada das tropas brasileiras do Haiti", organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal no Estado do Rio de Janeiro. A atividade tem o objetivo de discutir a posição de subserviência do governo brasileiro ao governo Bush e argumentar pelo retorno dos militares brasileiros, como destaca ao relatório elaborado pelo Centro de Justiça Global e pela Universidade de Harvard, em que o Brasil é acusado de violar os direitos humanos em território haitiano.
Os militares brasileiros seguem a cartilha "democrática" de Bush, e usam seu poderio para controlar a situação. A cartilha estadunidense está sendo tão bem seguida que as tropas da ONU estão sendo acusadas de promover verdadeiros massacres à população civil, desarmada, e de não agir contra ações da polícia haitiana e civis armados que promoveram ataques a três comunidades pobres de Porto Príncipe, que de acordo com alguns relatos, eram "suspeitos" de serem apoiadores de Aristide. A triste ironia se dá ao vermos as tropas de paz cada vez mais responsáveis por atos de violência.