
Editor: Bruno Zornitta - contato@fazendomedia.com
17.03.2006
MOVIMENTOS SOCIAIS REPUDIAM AÇÃO MILITAR
Por Marcelo Salles - salles@fazendomedia.com
Diversas organizações civis reuniram-se nesta quarta-feira (15/3) para debater e encaminhar ações concretas contra as incursões do Exército nas favelas cariocas. Justiça Global, Rede Contra a Violência, Jubileu Sul, Frente de Luta Popular e MST estiveram presentes, entre outros grupos e moradores dessas comunidades atingidas, que tiveram a oportunidade de relatar as agressões perpetradas pelas forças oficiais.
"Nós sabemos que o Exército está barbarizando", disse Sebastião de Souza, morador do Morro do Estado, em Niterói, e diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Trabalho e Previdência. Souza foi um dos líderes das manifestações que resultaram na prisão de quatro policiais militares envolvidos na tortura e no assassinato de cinco meninos em seu bairro, no final do ano passado. "A gente precisa gritar e dizer que nossas mulheres estão sendo estupradas tanto por traficantes quanto por PMs, nossas mulheres estão sendo chamadas de vagabundas pela P2, nossas crianças estão sendo assassinadas".
Um morador do Morro da Providência, que preferiu não ser identificado, contou que as tropas impuseram humilhações aos moradores, toque de recolher e ainda destruíram instalações públicas. "Eu me senti como se estivesse na ditadura militar", disse. A população da Providência, entre as outras favelas ocupadas, foi a que mais reagiu contra a invasão militar, tanto por parte dos moradores, que não se deixaram intimidar e devolveram os xingamentos, quanto por parte dos traficantes, que devolveram os tiros. Fruto da remoção de cortiços para a construção da Av. Rio Branco, em 1906, a Providência é uma das mais antigas favelas do Rio de Janeiro.
Ressalte-se, no entanto, que nem todas as notícias oriundas dos morros são iguais. Existem algumas pessoas que, embora não apóiem a ação militar, sentem-se momentaneamente protegidas, visto que a opressão dos traficantes é reduzida em situações como esta.
Nenhum dos participantes da reunião acredita na versão oficial do Exército, segundo a qual esta operação teria como objetivo recuperar dez fuzis e uma pistola. "Não se mobiliza um contingente desse de uma hora para outra", diz Marcelo Braga, da Rede Contra a Violência. "É preciso planejamento, logística", garante.
Outro questionamento foi quanto ao aparecimento das armas entre a favela da Rocinha e do Vidigal. Foi levantada a possibilidade de esta ação ser parte de uma operação maior, que serviria para mapear as favelas cariocas tendo em vista o Pan-Americano 2007, quando provavelmente o Exército estará nas ruas. A tese seria explicada a partir do trajeto a ser tomado pelos turistas que ficarão hospedados na zona sul e deverão passar em frente a essas duas favelas para chegar à Vila Olímpica, na zona oeste.
Ainda assim, há outros interesses em jogo. Sandra Quintela, economista do Jubileu Sul, lembra que estamos diante de mais uma demonstração de força do Estado. "Um dos tópicos da ALCA é transformar os exércitos nacionais em polícias para conter a pobreza. Isso está acontecendo também em outros países", afirma. Nesse sentido, os meios de comunicação têm papel decisivo. "A mídia trabalha para convencer o povo de que a solução para a violência é a repressão", diz Marcelo Braga.
Sobre a imprensa, Maurício Campos, representante da Frente de Luta Popular, observou: "Durante a primeira Operação Rio [início da década de 90], eles não deixaram a imprensa cobrir. Dessa vez eles fizeram questão de que cobrisse". Coincidentemente, os EUA procederam da mesma forma. Na Guerra do Golfo [início da década de 90], apenas permitiram uma cobertura superficial. Depois, na invasão ao Iraque, perceberam que era melhor ter a mídia a seu lado e lançaram mão dos jornalistas embedded (infiltrados).
Os participantes decidiram visitar o Morro da Providência na próxima segunda-feira (20/3), com o intuito de ouvir depoimentos dos moradores sobre a ação do Exército. Também está em discussão um ato público na Lapa, no centro do Rio de Janeiro, e a elaboração de panfletos para denunciar as arbitrariedades cometidas.