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A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



14.04.2007
ENCONTRO INDÍGENA EM PORTO ALEGRE EVOCA SEPÉ TIARAJU PARA UNIFICAR AS LUTAS SOCIAIS


Índios guarani marcham ao lado de MST, Via Campesina e Movimento dos Trabalhadores Desempregados

Texto e fotos de Thais Fernandes, de Porto Alegre
thais@fazendomedia.com

As palavras de ordem, em guarani, organizavam na manhã de sexta (13) a marcha composta pelas cerca de 1.500 pessoas acampadas no Parque da Harmonia, em Porto Alegre. Índios, Movimento dos Trabalhadores Desempregados, Via Campesina e MST unem forças no II Encontro Internacional Sepé Tiaraju e o Povo Guarani. A iniciativa, que em 2006 reuniu aproximadamente 10 mil pessoas em São Gabriel para comemorar os 250 anos da morte de Sepé Tiaraju, acontece de novo em 2007 com uma participação não tão significativa em números, mas cumprindo com o objetivo de integrar a luta dos movimentos sociais.

A marcha saiu do acampamento às 9h30 com destino ao Palácio Piratini, sede do governo do Estado. O objetivo era entregar uma carta à governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), solicitando mais atenção à causa indígena. O texto pede escolas diferenciadas, saúde e demarcação de terras.


Os índios foram até o palácio do governo para solicitar mais atenção da governadora Yeda Crusius (PSDB)

"A demarcação de terras é responsabilidade do governo federal, mas queremos que a governadora, simbolicamente, apóie a nossa causa", diz o Coordenador do Movimento Indígena Guarani, Maurício da Silva Gonçalves. No trajeto, foram feitas duas paradas estratégicas para plantar árvores que simbolizam a cultura indígena: a palmeira e a erva-mate.

A palmeira, que representa o alimento, foi plantada onde antes ficava o relógio de contagem dos 500 anos do Brasil, instalado pela Rede Globo, e que foi queimado num ato de protesto em abril de 2000. A erva-mate, incorporada à cultura gaúcha através do povo guarani, foi plantada na Praça da Alfândega, no centro da cidade, perto do sítio arqueológico no qual antropólogos afirmam existir vestígios indígenas. O cacique kaigang Jaime Alves, chefe da ocupação no Morro do Osso, um parque de preservação ambiental rodeado por condomínios de luxo na zona sul da capital, beija a muda antes de a colocarem na terra. "É para não nos tirarem mais daqui", diz.


Antes de plantar, um beijo na erva-mate

Dali, seguem pela Rua dos Andradas, ou mais popularmente conhecida Rua da Praia, e são aplaudidos. "Não há um olhar digno como eles merecem. Que bom que estão se organizando", fala a professora Nora Machado. O mesmo diz o advogado Gilson Rodrigues. "Acho válido, nada mais justo depois dos anos de exploração. Estão no direito deles", afirma. Os que não concordam, comentam entre si que a "baderna" deveria ser resolvida pela FUNAI ou pela Polícia Federal.

Cacique Guarani da Província de Misiones, na Argentina, Fernandes Martín caminha sob sol quente da manhã, enquanto responde aos gritos da marcha e fala da importância do encontro. "Nós temos as mesmas reivindicações. É importante fazer esse contato, porque índio não tem fronteiras", afirma. Ele revela ainda que, assim como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) aqui no Brasil, a Equipo Nacional de Pastoral Indígena (Endepa), na Argentina, também pretende organizar um encontro do mesmo porte, ainda sem data definida.


Os curumins também foram à passeata

A "mburuvicha guasu" (presidente, em Guarani) da Asemblea del Pueblo Guaraní (APG) Flora Elza Cruz, pensa o mesmo que Martín. Ela e mais três companheiras vieram da Argentina, da província de Jujuy, e além de resistirem como povo indígena, resistem como mulheres. "Os homens não tem tempo para lutar, porque precisam trabalhar para trazer comida. Então nós mulheres estamos assumindo o papel de brigar por nossos direitos ancestrais, que nos foram tirados", conta Flora, desde 1996 presidente da APG, que congrega 38 comunidades guaranis, urbanas e rurais, da província de Jujuy. A representante indígena diz que em sua região a demarcação de terras é a questão mais urgente, já que grande parte do território é tomado por canaviais e dominado pelos interesses da indústria açucareira.

O Movimento dos Trabalhadores Desempregados, que nasceu no Rio Grande do Sul há sete anos e faz junto com o evento indígena seu primeiro encontro nacional, também assina a carta elaborada pelos índios. "Somos a favor da resistência dos povos. Assinamos embaixo da pauta guarani e também temos a nossa", diz Elenilso Portela, membro do movimento. A entidade pede frentes emergenciais de trabalho, crédito para os grupos de produção e regularização dos assentamentos ruro-urbanos que, segundo Portela, existem já em cinco municípios gaúchos.

A marcha termina em frente ao palácio do governo, onde os participantes esperavam uma audiência com a governadora. Foi o chefe da Casa Civil do Estado, Luiz Fernando Záchia, quem recebeu as lideranças e as cartas redigidas no encontro. Záchia prometeu analisar o material, e dar uma resposta aos movimentos. Resta agora cobrar o retorno.


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