......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



10.04.2007
MASSACRE DE ELDORADO 11 ANOS DEPOIS

Sueli Gomes

Manifestação em Eldorado do Carajás, no ano passado

Por Rogério Almeida (*)

Faz 11 anos que a chacina de 19 trabalhadores rurais sem terra, no lugar conhecido com "Curva do S", na PA-150, arrancou do anonimato a cidade de Eldorado do Carajás, no sudeste do Pará. A marcha dos sem-terra foi interrompida por tropas da PM, que obedeciam a ordens do então governador Almir Gabriel, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Os laudos médicos nos corpos dos que tombaram deixa claro: houve execução à queima roupa. Tiros foram disparados à curta distancia em nucas e peitos. Os PMs usaram as próprias ferramentas dos sem-terra na mutilação dos corpos dos militantes. Ao longo da história a execução de dirigentes sindicais, militantes e apoiadores da Reforma Agrária, meio ambiente e direitos humanos se sucederam como fruto da penetração do capital na Amazônia. O "tresoitão" e afins foi o caminho para se aplacar as diferenças, onde o Estado fez par com o capital nacional e internacional.

Além dos 19 mortos na chacina, 75 foram feridos gravemente. Alguns até hoje possuem balas alojadas no corpo. O grupo peleja na Justiça por reparação. O prazo limite para pagamento de indenização aos sobreviventes é o mês de julho. Mas, tudo depende da burocracia do Estado. Dos que entraram com processo contra o Estado do Pará, somente 20 recebem pensão de um salário mínimo, que julgam insuficiente para a manutenção de suas vidas com dignidade.

Memória
Para que a chacina não ficasse no baú da memória, no dia 17 de abril, no mundo inteiro há manifestações em defesa da Reforma Agrária. Dos 155 policiais envolvidos no caso, não há nenhum preso. Os comandantes do massacre, coronel Pantoja e o major Oliveira, que foram condenados a 228 e 154 anos de prisão, respectivamente, respondem ao processo em liberdade.

Por conta das "brechas" da lei, Almir Gabriel e o secretário de segurança Paulo Sete Câmara, não foram pronunciados no processo. O MST promete pressionar os órgãos competentes para que os nomes dos responsáveis pela segurança do estado na época sejam incluídos no processo. Ano passado o coronel Pantoja questionou o assunto. Foi a primeira vez que falou à imprensa após o massacre.

É o Pará uma terra sem lei? Em 33 anos, 772 pessoas foram mortas no Pará em decorrência de conflitos no campo. 567 permanecem sem apuração, o que indica uma impunidade de 73%. O Judiciário tem sido ágil em expedir liminares de reintegração de posse, mas não em apurar as execuções dos que se opõem ao latifúndio.

Jornada pela soberania na Amazônia
A Via Campesina Pará, coletivo camponês que o MST integra, dedicará quatro dias ao debate no mês de abril. A ação será desenvolvida em acampamentos em Belém e Eldorado. Chamar atenção da sociedade sobre a violência e impunidade na luta pela terra, organizar camponeses, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, contra a implantação de grandes projetos na Amazônia, estão entre os objetivos do acampamento.

Monoculturas exóticas à região, a exemplo da soja, que tem como meta engordar aves, gado e porco nos países desenvolvidos, projetos de hidrelétricas, exploração mineral são pontuados como ameaça ao modo de vida da população na Amazônia. Ao contrário do discurso de gerar emprego, renda e desenvolvimento, como dizem em suas propagandas, o saldo dos grandes projetos tem sido a destruição da floresta, poluição de igarapés e rios, prostituição e inchaço das cidades.

Leonardo Boff, Rosa Acevedo Marin, Lourdes Furtado, Dom Erwin Kräutler, o procurador da República Felício Pontes e os dirigentes João Pedro Stédile e Marco Antônio estão entre os conferencistas que debaterão sobre a biodiversidade e Reforma Agrária, a dinâmica do capital na Amazônia e o projeto popular para o Brasil. A agenda da Via Campesina Pará inclui ainda conversa com representantes de órgãos públicos na esfera federal estadual, dos setores agrário, agrícola, pesquisa, meio ambiente, financeiro e extensão rural.

(*) Rogério Almeida é colaborador da rede www.forumcarajas.org.br.


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