
08.12.2006
FORMANDO OPINIÕES
Por Ciço Pereira (*) - cicopereira@gmail.com
É impossível falarmos na manipulação das consciências através dos veículos de comunicação sem falarmos na (falta de conscientização) da classe jornalística no Brasil. Vivemos atualmente um período nefasto da história do nosso ofício, em que muitas pessoas buscam as faculdades de comunicação levadas pelo fascínio do falso glamour que a profissão ainda parece ter, ou ainda pelo velho ditado "quem detém a comunicação, detém o poder".
Esquecem-se, no entanto, que o jornalismo acima de tudo é uma prestação de serviço social. Mas este trabalho, hoje, está privatizado e atende a interesses muito específicos, que estão longe de passar pelas classes que realmente necessitam dele. O ingresso cada vez maior de estudantes vindos de universidades particulares e um currículo escolar meramente técnico sem uma preocupação maior com as disciplinas teóricas está formando um mercado de trabalho meramente técnico, despolitizado e, o mais grave, sem o menor resquício de senso crítico.
As redações dos grandes jornais são compostas em sua maioria por profissionais muito jovens em início de carreira, pois estes estão dispostos a se dedicarem ao máximo àquela empresa e receber um baixo salário, idealizando um futuro reconhecimento profissional.
O ritmo frenético da indústria de jornais e o seu modo de produção - não por acaso - não permitem uma análise mais apurada do fato jornalístico. Os profissionais deixaram de ir às ruas, acompanhar in loco o que vão escrever, e o fazem de dentro das redações, baseados, muitas vezes, em press releases tendenciosos saídos das assessorias de imprensa das empresas interessadas na notícia. As entrevistas são realizadas por telefone e muitas até por e-mail. O prazo de fechamento é como uma espada sobre a cabeça do repórter e muitas vezes as matérias são fechadas sem que os fatos sejam devidamente apurados, pois o concorrente também vai publicar a mesma - mesmíssima - reportagem no dia seguinte.
Recentemente, em Santa Catarina, um episódio escandaloso acometeu o mercado de jornalismo no Estado. A toda-poderosa Rede Brasil Sul (RBS), que detém dezenas de veículos de comunicação de rádio, TV e jornais em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, comprou o jornal joinvilense A Notícia, campeão de vendas nas bancas de todo o estado, e seu único - eu disse ÚNICO - concorrente.
Trabalhei na pequena redação do jornal na sucursal Florianópolis e escrevia para o suplemento AN Capital. Quando soube do fato, fiquei escandalizado e logo entrei em contato com ex-colegas de jornal para saber o que aconteceria com eles e perguntei o que eles estavam achando de tudo aquilo. "Desde que paguem o meu salário no final do mês, não me importo quem seja o patrão", respondeu um repórter.
O mercado de trabalho, cada vez mais restrito e reduzido a pouquíssimos veículos, liquida o debate ideológico. Nas últimas eleições o candidato do PFL ao governo do Amazonas, Amazonino Mendes, criou, ao seu bel prazer, um jornal biônico que defendesse sua candidatura perante a opinião pública. Como se já não bastasse tal atentado à diversidade de opiniões, eixo fundamental do bom jornalismo, Amazonino, derrotado, fechou a redação e demitiu todos os funcionários. A truculência chegou ao ápice quando os profissionais, ao adentrarem no prédio onde recolheriam seus pertences antes de deixar de vez o nefando jornal, foram acompanhados por capangas armados de Amazonino, como se fossem eles vândalos a fim de surrupiar o patrimônio do coronel amazônico.
Há muito as grandes redações deixaram de oferecer vagas de emprego e condições dignas de exercício da profissão. Falar em imprensa alternativa como há 30, 40 anos, é visto como ingenuidade pelos coleguinhas. Como sobreviver indo contra a maré do pensamento único? Não se fazem mais pasquins como antigamente. Há pouco tempo, o Governo Federal levantou a discussão do incentivo aos pequenos veículos de comunicação, como acontece, por exemplo, na Venezuela. A grita da grande imprensa foi estrondosa.
O editor de opinião de O Globo, Luiz Garcia, redigiu e o jornal publicou na página de Opinião texto atacando a idéia, alegando que, assim, o governo estaria criando veículos próprios de comunicação. Talvez assim ele tenha se manifestado - a mando do patrão, quem sabe? - por saber que o jornal em que ele próprio trabalha recebe muito dinheiro do Estado, através da publicidade paga por empresas como a Petrobrás, entre outras, e temer que, incentivando o surgimento de novos veículos, não fosse mais preciso anunciar em globos, folhas e vejas da vida. Mas o governo se acovardou e a discussão foi encerrada por ali. Continuaremos então a ter apenas uma única opinião: os jornalões e revistões "oficiais" que atendem aos interesses de meia dúzia de empresários e conglomerados multinacionais ao redor do mundo.
Diante deste quadro estarrecedor, profissionais buscam refúgio em assessorias de imprensa e em agências de publicidade. Muitas delas oferecem salários mais altos, mas também, menos garantias trabalhistas. É praxe, entre muitas delas, contratar profissionais free-lancers ou mesmo contratar o profissional como uma empresa terceirizada. Com isso, a contratante não paga os encargos trabalhistas, o profissional tem a falsa impressão de que está recebendo mais, embora por outro lado, não tem direito a férias, 13º salário, fundo de garantia, nem seguro desemprego em caso de demissão. O resultado é a altíssima rotatividade nesses locais de trabalho.
Sem falar nas assessorias de imprensa, que declaradamente atendem aos interesses de um grupo específico, as agências de publicidade também estão produzindo veículos de comunicação. É o que se passou a chamar pomposamente de "marketing inteligente", "comunicação por conteúdo" ("ComCon"), adverteinment, custom publishing, product placement, entre outros.
Com isso, grandes empresas como Coca-Cola, Texaco, Mercedes-Benz e Vale do Rio Doce, só para citar algumas, deixaram de precisar, exclusivamente, da grande imprensa para se comunicar com o público externo. São produtos de comunicação travestidos de revistas, newsletters, websites, filmes, jogos online ou mesmo livros e músicas, que dizem levar informação e entretenimento até o público, mas na verdade estão é levando os conceitos de determinada marca. Esses produtos geralmente têm um público específico a ser atingido, como os funcionários da própria empresa que o financia, mas também podem ser vendidos em bancas de jornais, como é o caso da Revista Oi, por exemplo.
Com o surgimento cada vez mais rápido de mídias digitais, as grandes empresas e suas agências de comunicação estão fazendo uso de novas tecnologias para incutir sua mensagem diretamente do público-consumidor ao qual elas se destinam. São jogos eletrônicos, notícias através do celular e os novíssimos i-pods. Já podemos ver, nas ruas, nos ônibus e metrôs de qualquer cidade do mundo, homens, mulheres, jovens ou velhos, com seus aparelhinhos brancos pendurados ao pescoço, injetando em seus próprios cérebros mensagens mascaradas de informação e entretenimento.
E assim são formadas as opiniões do público.
(*) Ciço Pereira é jornalista e autor do blog Manifesto Plural.